Friday, June 02, 2006

Íris, uma Deturpada.

O Diário de Íris,
Teresópolis, 26 de agosto de 1995.

“Ainda me lembro de ontem... como se fosse agora, a mensagem da ligação de Letícia. Ainda sei exatamente o que ela dizia, com todas as vírgulas e pontos.
‘Sua mãe me ligou agora, onde você está? Ela estava furiosa, deixou um recado na minha secretária eletrônica... Disse que você saiu descontrolada com o carro, estava falando um monte de loucuras, parecia fora de si, e não conseguiu te segurar... Acho que ela pensou que eu estava te encobrindo... Descobriu algumas garrafas pequenas de uísque no seu armário, disse que você só podia estar bêbada. Pra onde você foi?! Não acredito que finalmente foi! Se eu tivesse alguma estrutura, algum futuro estável, eu estaria indo com você.’

Havia também mensagens de mamãe, umas dez, que preferi não ouvir. E aqui, sem rumo, pensando que talvez deva explicações a Letícia, muito mais do que à própria senhora minha mãe, do porque eu deixei tudo meio inesperadamente, mas nunca explicaria a ela, com toda verdade. Nem para Letícia. E não, não retornarei sua ligação.

Letícia sempre estava lá, se importando mais comigo, e com a minha situação. Sempre fui de falar muito, os reclames eram em um sentido retilíneo, eu para ela, e ela sempre como ouvinte. Ela e seu paciente espírito conselheiro. No fundo, eu sabia que não era a única que tinha problemas chatos que não fazem a gente parar de pensar. Ela sentia vontade de falar, e tinha umas perturbações, mas sabia viver com elas... Queria ser independente, encarar a vida sozinha, mas assumia que lhe faltava coragem para desafiar a si mesma. Tinha uma boa mãe, mas muito possessiva e neurótica. Se a menina atravessar a rua e flertar com alguém, poderia engravidar.

Mas também ouvia suas reclamações, sem me incomodar. Éramos confidentes oficiais. E, de repente, fez parte de uma das coisas que eu não mais consigo viver. A velha história. Não gosta de mim do modo como eu gosto dela. E jamais entenderia isso. E eu não mais consigo ouvir-la falar comigo dos seus visinhos bonitos e dos galãs da sala do lado da sua faculdade sem retorcer a cara. Pensa que eu não suporto, particularmente, o Felipe - meu primeiro e último namorado, e, o verme desgraçado do Sr. Alfredo. Mas eu não diria a ela que, este maldito me fez ter medo e não suportar os homens, desde os seis anos de idade. Não que ela não fosse entender isso, era moleza, é a melhor estudante do curso psicologia da sua sala.

E foi então que me explicou o porquê da rejeição pelo Felipe; Dizia que não vinha totalmente pela aversão propriamente ao que ele tinha se tornado, com seu jeito esnobe e besta que eu passei a odiar, e da sua traição com uma outra ‘galinha’ lá. Mas sim, mesmo depois de dez anos, por causa de a minha memória inconsciente estar marcada... Mesmo depois de tanto tempo... Mesmo não lembrando exatamente, fato por fato, do estupro. Nem mesmo da cena do verme inútil entrando no meu quarto. Bom, não era exatamente essa sua explicação... Havia uns termos malucos de psicólogo, mas era algo assim.

E acima do interesse por me ajudar, nem que fosse só ouvindo, nas inúmeras queixas que eu fazia do meu passado, talvez também pela relação da minha história nos seus estudos, sentia pena, eu podia notar em seus olhos. Se um dia puder ler isso, queria só poder dizer Obrigada, antes que me encontrem. É... São oito horas da manhã. Há essa hora já encontraram o corpo. Daria tudo para vê-lo em decomposição.”


Diário de Íris,
Teresópolis, 03 de setembro de 1995.

“Acordei agora, três e meia, pela terceira vez, nessa madrugada. Só mais um sono interrompido. Era uma merda de caminhão barulhento que passava na rua, e dentro da minha cabeça... Dando a mim mais algumas duas horas seguidas rolando na cama, forçando o sono. Com aquela sensação de nunca mais ser possível dormir, uma agonia que engole meus pensamentos, sinto enjôo, ânsia de vômito. Dando mais tempo para refletir lamentos estúpidos... Tudo o que eu tinha já me roubaram. Minha inocência, minha vontade de viver e meu fusca. Mas não está tão ruim. Ainda não me encontraram... E pelo menos arrumei um lugar mais confortável e não durmo mais como um caramujo naquele banco de trás. E ganhei novos valores. Um quarto, cama, um grande espelho, bebidas de todos os tipos... Afinal, poderia não ter vindo à vida com peitos e outras coisas mais, e estaria na rua junto com outros mendigos, e estou aqui, rodeada de paredes e teto, e álcool”.


A porta se abriu. O próximo homem entrava. Cabelos grisalhos. Fervoroso de desejo carnal, sorridente, notavelmente bêbado, arrancando as calças. Porém, estas mesmas pararam meio ao joelho e o senhor sai tropeçando nelas, aos berros.


O Diário da Cidade,
Teresópolis, 04 de setembro de 1995.

“Morta adolescente de dezesseis anos. Suicídio, ao certo. Alguns hematomas; cortes profundos provocados por uma faca, nos dois pulsos, porém confirma-se a causa de morte por intoxicação pelo analgésico “Meperidina”. Oito dias após realizar o assassinato do próprio pai, Sr. Alfredo Cardoso, a facadas. Investigações confirmam a dependência por drogas e álcool. Foi encontrada, foragida, em uma espécie de Casa de sexo de menores, a 45 km da área urbana de Teresópolis, por um senhor de 52 anos, que quis manter em sigilo sua identidade (...)”. “Vejam só em que mundo estamos, uma garota drogada e mimada matando gente da própria família”, eram os tipos de comentário na cidade.

Durante o enterro da menina, uma jovem moça colocou uma flor sobre o túmulo, com uns escritos num pequeno papel que dizia, “Se eu tivesse alguma coragem, eu estaria indo com você”.


Não sei se compensou comparando ao sábado passado... Está tudo meio cinza por aqui? xD O próximo não será tão trágico, eu me ordeno!

1 comment:

Anonymous said...

2 anos depois... antes um post atrasado do que 2 scraps diarios :P

como eu acho q jah comentei esse texto com vc, fica meu pedido por outro xD

=***