Tuesday, May 30, 2006

Pesadelo

A vida no avesso

Era um clarão tão intenso, que fez os olhos, que se mantinham fechados em seu escuro, se abrirem. Espreguiçou, esticando os braços ao máximo. Colocou a mão frente aos olhos, cercando aquela maldita luz, ainda recuperando-se do aparente cochilo. Nem viu ter dormido. Seus olhos não mais sonolentos recuperam integralmente a visão, e toma um susto que deu ‘pane’. Suas mãos, no reflexo do espanto, quase pareciam ter vontade-própria, deram um impulso brusco no chão para trás. Encontrava à sua volta milhares de árvores, incontáveis, imensas, que davam dez vezes mais que os seus 1.60cm, e a cercava. Ficou paralisada. Tentava, mas não lembrava de nada que pudesse ter feito para ir parar naquele lugar. Sente pontadas na cabeça. Doía veemente. Latejava. Sua visão estava quase inibida pelo intenso verdor que a rodeava. Não lembrava. Nada... “Como é possível?!”, não parava de pensar. Sentia-se, então, dominada pelo medo e a estranheza.

Surpreendendo, ouve um som. Um som agradável. Tira um sorriso do seu rosto. Um cantar, de pássaro. Cantava doce, meigo, lhe confortava, parecia despreocupado, sereno. Era um único som, ecoava, e circulava num fluxo ritmado entre os troncos das arvores. Agora os olhos já encaravam toda aquela flora, passeavam entre os galhos, procurava o autor daquele som. Segue, com passos brandos, invadindo o verde, buscando aquele sinal de outra vida no local. Em poucos passos, percebe um lago, entre algumas folhas que bloqueavam a vista. Um lago de águas claras, formando um grande espelho, corado por aquele leve tom verdoso, que parecia já lhe exilar da razão. Dominada pelo medo, mas, contraditoriamente, pela tranqüilidade do lugar. E pela sua curiosidade. Até já esquecera de pensar em “Como estou aqui?”. Sentia-se estranhamente bem, naquele ar florestano.

Tomada por ousadia, segue, aparvalhada, em direção ao lago. Queria aguar suas mãos sujas de terra, sentir a temperatura, e, de certa forma, aliviar o calor fervoroso que estava sentindo. Após ultrapassar alguns arbustos, aproxima-se, toca a água com os pés. “Água gelada!”. E antes que, ainda empolgada, se jogasse em meio ao lago, alisara com os dedos os seus cabelos longos e escuros, que refletiam na superfície. Um tanto narcisista, admirava-os, como eram escorridos e longos, tão negros, causando um contraste com sua pele. Quase que seduzida, agarra as pontas do seu vestido branco e, com força, arranca-o de uma só vez. Atira-se com coragem no lago gélido, matando o calor. Todo o alvoroço fez nem mais notar o cantar do pássaro, que havia cessado.

Porém, fora inibida. “Um vulto!”. Entre as arvores. Diminui sua agitação. Pouco a pouco, encolhera. Imóvel, envolvida pelos seus próprios braços. E pelo verde. Com um vulto meio a ele. Logo começara a sentir frio, e medo. Vagarosamente, vai se movendo, com olhos fitos no vestido que lançara pouco distante, onde infelizmente suas mãos não podiam alcançar facilmente. E como era o contrário de sua vontade! Após toda a lentidão, ainda estava na borda. E o medo não deixaria que seus braços se desatassem para alcançar o maldito vestido mais facilmente. “O vulto, de novo!”. Vulto azulado (ou seria esverdeado), entre as arvores, em sua frente. Empaca. Olhos arregalados, estupefatos. Era um homem. Nunca havia visto nada parecido. Não era de notável beleza, mas atraía inexplicavelmente. E agora as perguntas eram “De onde ele veio?”, “O que será que faz aqui?”, e uma exclamação “Meu deus, estou nua!”.

Estava parado, mas, diferente dela, não parecia espantado. Também notara, felizmente talvez, que ele ainda não havia olhado para as suas partes íntimas. Ainda quieta, contendo-se, pensara qual das perguntas fazer – se fosse, no momento, capaz de falar. A pele pouco cinzenta, às vezes azulada tirou a voz. Mas a expressão era calma e amigável. Para seu espanto, depois de algum tempo imóveis, ele se mexe, em sua direção. Agora apertava, cada vez com mais força, os seus braços medrosos entrelaçados. O homem gris estica os dois braços, levando as mãos ao rosto molhado da jovem pálida, e hesitante. Olhava fixamente para seus olhos, e, fervoroso, arranca-lhe da boca um beijo sufocador. Deixa-a tonta. Pronto, seria impossível que conseguisse perguntar algo. Ele aproxima o rosto novamente, quase encostando os lábios em sua orelha. "Olhe por onde anda...” diz ele, sussurrando. Os olhos dele estavam olhando o chão, e que o seu dedo apontara. Ela solta um grito ensurdecedor, imediatamente. Eram os seus pés, e a sua volta, infestada de sanguessugas. Presas em suas pernas. Tomada de desespero, tenta tira-las. O pássaro volta a cantar. Alto. Contínuo. E cada vez mais alto. Parecia ecoar em sua cabeça, que voltava a dar as pontadas dolorosas.

Surpreendendo, percebe outro som. Um som que não lhe confortava, e muito menos agradável. Muito diferente de algum pássaro cantante. A sirene tocava. Estava atrasada. Espreguiçou, esticando os braços ao máximo. Seguia para o ponto de ônibus, com os cabelos, escorridos e longos, tão negros, que causavam um contraste com sua pele, cobertos numa touca. O calor fervoroso tremia o asfalto, sem qualquer lago que lhe pudesse banhar e confortar. Mas as sanguessugas estavam lá. Em toda parte. A sua volta, a monocromática paisagem de pedra da grande São Paulo, ternos ambulantes, a maioria também com suas vestias pretas e brancas, seguindo apressados para algum lugar. Tudo estava normal, lá estava Alice e seu emprego de operária, com seu salário miserável na fábrica, que lhe dava permissão para pegar ônibus, comer e pagar aluguel do seu quarto. Na volta para casa, flagrara um ônibus em chamas meio a rua. Nada surpreendente. Tudo normal. “Água gelada!”, mas nada de lago. O chuveiro do seu estreito banheiro. Deita na cama, e, feliz, e toma alguns remédios para dormir.


Eu tenho uma justificativa.. Não, eu não uso morfina. =P
Comecei... Desisti... Voltei nele... E finalmente, terminei esse texto.

2 comments:

Anonymous said...

mas olha que a senhorita esta se tornando uma mestra no estilo para-onírico :P

soh to achando um tanto quanto deprê =/ tah ouvindo mto emo hein :P

ai ai ai ai ai sacanaaaaagem!!! To gostando de ver o surto de criatividade ;D

bejocas mujer!
adorot

Anonymous said...

escreve!! hehe
ainda nao atualizou o outro aqui n~ O.O
bjss