Dividiam um mesmo apartamento, há oito meses. Já levavam uma vida de casados, mas não eram nem noivos. “É melhor esperar até que nos formemos”, combinavam. Lá se conheceram, naquele mesmo apartamento meio a grande São Paulo. Aliás, lá fizeram quase toda a história do relacionamento deles. Marcos deixara anúncios, pela faculdade, procurando alguém, “preferencialmente homens”, e “não fumantes”, destacado em negrito, para dividir as despesas do seu apartamento que alugara para cursar a faculdade, já que a casa de seus pais era em outra cidade. E uma semana depois, bate a sua porta uma garota magrela dos cabelos encaracolados e desgrenhados, roupas coloridas sobrepostas e cigarro. Victória. Marcos certamente mandaria “caçar outro rumo”, se fosse um homem fumante, e se não estivesse encantado por ela logo de cara. “Eram só preferências, não eram critérios indispensáveis”, e “qualquer coisa, tem varanda ao ar livre para fumar”. No mesmo dia, aceitou a companhia. No outro dia, transaram durante um filme que assistiam na TV. E também no outro, e no outro.
Eram contraditórios juntos. Ele preferia jantar a luz de velas e livros. Ela, pizza e parque de diversões. Fazia o tipo de louca mandona, e quase o homem da relação. E Marcos gostava disso, não fazia questão de tomar decisões. Na verdade, não queria ter o trabalho de ficar horas a pensar em tudo, se iriam ao restaurante ou ao cinema, já que Victória alteraria as suas decisões em um minuto. Com alguns meses passados, Marcos até se sentira farto de algumas atitudes pouco fora do seu padrão. Principalmente o café... Era sempre dormido. Nada poderia ser pior que isso para ele. Acordava e tudo que queria era um café fresco. Tolerava mais facilmente a toalha úmida esquecida sobre a cama, ou os sapatos pela casa, mas o café é bom quente e na hora. No entanto, reclamava só pelos cantos, sozinho no banho. Sair de dentro dos seus livros e da sua rotina parecia bom, de início. E depois, gostava mais do fato de estar muito ocupado para ver um filme pela TV. Gostava de acordar todos os dias e encontrar o braço de Victória sobre seu peito. Ou olhar para o seu lado e vê-la ali, sinuosa na cama. Isso, de fato, amenizava os seus momentos de zanga.
Outro dia amanheceu, acompanhado do despertador da mesinha ao seu lado. Era o dia dos Namorados, já esperava que ela certamente estivesse cheia de planos em sua mente eufórica. Após muito espreguiçar, vira-se para o outro lado para acordar “Vica”, como a chamava. Era assim, seis e meia da manhã, sempre desgastante acorda-la de seu sono pesado. Mas assim sempre o fazia.
Nem o braço em seu peito, e nem o corpo sinuoso ao lado. “Por milagre, já levantou”, pensou. Sua mente até começou a fantasiar que, finalmente, estaria ela na cozinha preparando uma surpresa, um café da manha fresco e reforçado para ele. Só um devaneio temporário, segue até a cozinha, e como o esperado, não estava lá preparando o tal dedicado lanche matinal. Havia sobre a mesa apenas uma xícara com restante de café e migalhas de pão. Após tomar seu café frio, arrastava-se de sono até o banheiro, e desta vez, “por milagre, não tropeçara em nenhum sapato pelo caminho”, pensou. Passava pela mesa da sala e estava lá, o seu buquê de flores que havia encomendado para ela. O cartão estava fechado, parecia ter sido intocado. E havia um papel ao lado, com a letra dela. “Odeio tanto, odeio quando você nunca se decide, quando dorme de meias e quando acorda e faz sempre a mesma trajetória, cozinha – banheiro – TV – desliga a TV – bate na porta do banheiro e brinca “E então, já abaixou a juba?”. É fastidioso quando você aluga filmes de ação quando eu quero ver suspense. Não te disse isso tão claramente até hoje porque cansei de ver sua expressão de cão sem rumo. E não gosto de rosas vermelhas”. Mantêm-se por um tempo sem reação, até, movido por raiva, correr para seu quarto e abrir as portas do guarda-roupa. Cabides vazios. Nada, nenhuma roupa ou perfume dela. Percorre todo o apartamento, nenhuma roupa ao chão, e sua caneca cheia de corações que havia ganhado de presente dele no inicio da relação também não estava lá.
Lera aquele bilhete mais umas quinze vezes. Toda aquela raiva sempre contida, todas as vezes que não explodira por um café frio ou uma toalha molhada na cama fizera quebrar alguns copos na cozinha e lançar algumas almofadas pelo apartamento. Afinal, “quem tinha razões para terminar era ele”, pensara. “Ainda que ela fosse mais alinhada, e fizesse algo para me agradar de vez em quando”, resmungava. Mas “de todo jeito, jamais seria uma boa esposa mesmo, nem me abalo”, insistia com si mesmo. Não demorou dois dias para que ficasse a andar de um canto a outro do apartamento, agora com sua nostalgia e crise de abstinência. Saudade do café dormido. Do cheiro de cigarro. Saudade dos sapatos pela casa. Afinal, “são mínimos detalhes perto que ela foi”, chorava.
E não demorou duas semanas. Um novo anuncio pelas paredes da faculdade, e Anita, uma moça de óculos e livros embaixo do braço batia a porta. Moraram juntos por alguns meses, e noivaram. Formaram-se no mesmo ano, casaram, e Marcos finalmente saíra daquele apartamento. Se Anita era às vezes louca, às vezes mandona, nem importava. E o café era sempre dormido. E era mania freqüente de Anita, a toalha sobre a cama. “Ínfimos detalhes perto do que ela era”.
Certo dia, o relógio indicava cinco e meia. Acordara aflito, sem o braço sobre o seu peito, não encontrara na cama, ao seu lado. Passando pela mesa da cozinha, encontra um bilhete, e suas mãos tremulas pegam o papel, que dizia, “Acabou o nosso café frio. Fui até o mercado e já volto. Oh, eu te amo.”.
Algo bem simples para esta semana estressante, parei essa tarde pra escrever. Mas, claro, espero que quem passe aqui goste. Foi só uma tentativa, como havia prometido que o próximo não seria 'trágico'.
Monday, June 12, 2006
Friday, June 02, 2006
Íris, uma Deturpada.
O Diário de Íris,Teresópolis, 26 de agosto de 1995.
“Ainda me lembro de ontem... como se fosse agora, a mensagem da ligação de Letícia. Ainda sei exatamente o que ela dizia, com todas as vírgulas e pontos. ‘Sua mãe me ligou agora, onde você está? Ela estava furiosa, deixou um recado na minha secretária eletrônica... Disse que você saiu descontrolada com o carro, estava falando um monte de loucuras, parecia fora de si, e não conseguiu te segurar... Acho que ela pensou que eu estava te encobrindo... Descobriu algumas garrafas pequenas de uísque no seu armário, disse que você só podia estar bêbada. Pra onde você foi?! Não acredito que finalmente foi! Se eu tivesse alguma estrutura, algum futuro estável, eu estaria indo com você.’
Havia também mensagens de mamãe, umas dez, que preferi não ouvir. E aqui, sem rumo, pensando que talvez deva explicações a Letícia, muito mais do que à própria senhora minha mãe, do porque eu deixei tudo meio inesperadamente, mas nunca explicaria a ela, com toda verdade. Nem para Letícia. E não, não retornarei sua ligação.
Letícia sempre estava lá, se importando mais comigo, e com a minha situação. Sempre fui de falar muito, os reclames eram em um sentido retilíneo, eu para ela, e ela sempre como ouvinte. Ela e seu paciente espírito conselheiro. No fundo, eu sabia que não era a única que tinha problemas chatos que não fazem a gente parar de pensar. Ela sentia vontade de falar, e tinha umas perturbações, mas sabia viver com elas... Queria ser independente, encarar a vida sozinha, mas assumia que lhe faltava coragem para desafiar a si mesma. Tinha uma boa mãe, mas muito possessiva e neurótica. Se a menina atravessar a rua e flertar com alguém, poderia engravidar.
Mas também ouvia suas reclamações, sem me incomodar. Éramos confidentes oficiais. E, de repente, fez parte de uma das coisas que eu não mais consigo viver. A velha história. Não gosta de mim do modo como eu gosto dela. E jamais entenderia isso. E eu não mais consigo ouvir-la falar comigo dos seus visinhos bonitos e dos galãs da sala do lado da sua faculdade sem retorcer a cara. Pensa que eu não suporto, particularmente, o Felipe - meu primeiro e último namorado, e, o verme desgraçado do Sr. Alfredo. Mas eu não diria a ela que, este maldito me fez ter medo e não suportar os homens, desde os seis anos de idade. Não que ela não fosse entender isso, era moleza, é a melhor estudante do curso psicologia da sua sala.
E foi então que me explicou o porquê da rejeição pelo Felipe; Dizia que não vinha totalmente pela aversão propriamente ao que ele tinha se tornado, com seu jeito esnobe e besta que eu passei a odiar, e da sua traição com uma outra ‘galinha’ lá. Mas sim, mesmo depois de dez anos, por causa de a minha memória inconsciente estar marcada... Mesmo depois de tanto tempo... Mesmo não lembrando exatamente, fato por fato, do estupro. Nem mesmo da cena do verme inútil entrando no meu quarto. Bom, não era exatamente essa sua explicação... Havia uns termos malucos de psicólogo, mas era algo assim.
E acima do interesse por me ajudar, nem que fosse só ouvindo, nas inúmeras queixas que eu fazia do meu passado, talvez também pela relação da minha história nos seus estudos, sentia pena, eu podia notar em seus olhos. Se um dia puder ler isso, queria só poder dizer Obrigada, antes que me encontrem. É... São oito horas da manhã. Há essa hora já encontraram o corpo. Daria tudo para vê-lo em decomposição.”
Diário de Íris,
Teresópolis, 03 de setembro de 1995.
“Acordei agora, três e meia, pela terceira vez, nessa madrugada. Só mais um sono interrompido. Era uma merda de caminhão barulhento que passava na rua, e dentro da minha cabeça... Dando a mim mais algumas duas horas seguidas rolando na cama, forçando o sono. Com aquela sensação de nunca mais ser possível dormir, uma agonia que engole meus pensamentos, sinto enjôo, ânsia de vômito. Dando mais tempo para refletir lamentos estúpidos... Tudo o que eu tinha já me roubaram. Minha inocência, minha vontade de viver e meu fusca. Mas não está tão ruim. Ainda não me encontraram... E pelo menos arrumei um lugar mais confortável e não durmo mais como um caramujo naquele banco de trás. E ganhei novos valores. Um quarto, cama, um grande espelho, bebidas de todos os tipos... Afinal, poderia não ter vindo à vida com peitos e outras coisas mais, e estaria na rua junto com outros mendigos, e estou aqui, rodeada de paredes e teto, e álcool”.
A porta se abriu. O próximo homem entrava. Cabelos grisalhos. Fervoroso de desejo carnal, sorridente, notavelmente bêbado, arrancando as calças. Porém, estas mesmas pararam meio ao joelho e o senhor sai tropeçando nelas, aos berros.
O Diário da Cidade,
Teresópolis, 04 de setembro de 1995.
“Morta adolescente de dezesseis anos. Suicídio, ao certo. Alguns hematomas; cortes profundos provocados por uma faca, nos dois pulsos, porém confirma-se a causa de morte por intoxicação pelo analgésico “Meperidina”. Oito dias após realizar o assassinato do próprio pai, Sr. Alfredo Cardoso, a facadas. Investigações confirmam a dependência por drogas e álcool. Foi encontrada, foragida, em uma espécie de Casa de sexo de menores, a 45 km da área urbana de Teresópolis, por um senhor de 52 anos, que quis manter em sigilo sua identidade (...)”. “Vejam só em que mundo estamos, uma garota drogada e mimada matando gente da própria família”, eram os tipos de comentário na cidade.
Durante o enterro da menina, uma jovem moça colocou uma flor sobre o túmulo, com uns escritos num pequeno papel que dizia, “Se eu tivesse alguma coragem, eu estaria indo com você”.
Não sei se compensou comparando ao sábado passado... Está tudo meio cinza por aqui? xD O próximo não será tão trágico, eu me ordeno!
Subscribe to:
Posts (Atom)
