Monday, June 12, 2006

Amores Urbanos

Dividiam um mesmo apartamento, há oito meses. Já levavam uma vida de casados, mas não eram nem noivos. “É melhor esperar até que nos formemos”, combinavam. Lá se conheceram, naquele mesmo apartamento meio a grande São Paulo. Aliás, lá fizeram quase toda a história do relacionamento deles. Marcos deixara anúncios, pela faculdade, procurando alguém, “preferencialmente homens”, e “não fumantes”, destacado em negrito, para dividir as despesas do seu apartamento que alugara para cursar a faculdade, já que a casa de seus pais era em outra cidade. E uma semana depois, bate a sua porta uma garota magrela dos cabelos encaracolados e desgrenhados, roupas coloridas sobrepostas e cigarro. Victória. Marcos certamente mandaria “caçar outro rumo”, se fosse um homem fumante, e se não estivesse encantado por ela logo de cara. “Eram só preferências, não eram critérios indispensáveis”, e “qualquer coisa, tem varanda ao ar livre para fumar”. No mesmo dia, aceitou a companhia. No outro dia, transaram durante um filme que assistiam na TV. E também no outro, e no outro.

Eram contraditórios juntos. Ele preferia jantar a luz de velas e livros. Ela, pizza e parque de diversões. Fazia o tipo de louca mandona, e quase o homem da relação. E Marcos gostava disso, não fazia questão de tomar decisões. Na verdade, não queria ter o trabalho de ficar horas a pensar em tudo, se iriam ao restaurante ou ao cinema, já que Victória alteraria as suas decisões em um minuto. Com alguns meses passados, Marcos até se sentira farto de algumas atitudes pouco fora do seu padrão. Principalmente o café... Era sempre dormido. Nada poderia ser pior que isso para ele. Acordava e tudo que queria era um café fresco. Tolerava mais facilmente a toalha úmida esquecida sobre a cama, ou os sapatos pela casa, mas o café é bom quente e na hora. No entanto, reclamava só pelos cantos, sozinho no banho. Sair de dentro dos seus livros e da sua rotina parecia bom, de início. E depois, gostava mais do fato de estar muito ocupado para ver um filme pela TV. Gostava de acordar todos os dias e encontrar o braço de Victória sobre seu peito. Ou olhar para o seu lado e vê-la ali, sinuosa na cama. Isso, de fato, amenizava os seus momentos de zanga.

Outro dia amanheceu, acompanhado do despertador da mesinha ao seu lado. Era o dia dos Namorados, já esperava que ela certamente estivesse cheia de planos em sua mente eufórica. Após muito espreguiçar, vira-se para o outro lado para acordar “Vica”, como a chamava. Era assim, seis e meia da manhã, sempre desgastante acorda-la de seu sono pesado. Mas assim sempre o fazia.

Nem o braço em seu peito, e nem o corpo sinuoso ao lado. “Por milagre, já levantou”, pensou. Sua mente até começou a fantasiar que, finalmente, estaria ela na cozinha preparando uma surpresa, um café da manha fresco e reforçado para ele. Só um devaneio temporário, segue até a cozinha, e como o esperado, não estava lá preparando o tal dedicado lanche matinal. Havia sobre a mesa apenas uma xícara com restante de café e migalhas de pão. Após tomar seu café frio, arrastava-se de sono até o banheiro, e desta vez, “por milagre, não tropeçara em nenhum sapato pelo caminho”, pensou. Passava pela mesa da sala e estava lá, o seu buquê de flores que havia encomendado para ela. O cartão estava fechado, parecia ter sido intocado. E havia um papel ao lado, com a letra dela. “Odeio tanto, odeio quando você nunca se decide, quando dorme de meias e quando acorda e faz sempre a mesma trajetória, cozinha – banheiro – TV – desliga a TV – bate na porta do banheiro e brinca “E então, já abaixou a juba?”. É fastidioso quando você aluga filmes de ação quando eu quero ver suspense. Não te disse isso tão claramente até hoje porque cansei de ver sua expressão de cão sem rumo. E não gosto de rosas vermelhas”. Mantêm-se por um tempo sem reação, até, movido por raiva, correr para seu quarto e abrir as portas do guarda-roupa. Cabides vazios. Nada, nenhuma roupa ou perfume dela. Percorre todo o apartamento, nenhuma roupa ao chão, e sua caneca cheia de corações que havia ganhado de presente dele no inicio da relação também não estava lá.

Lera aquele bilhete mais umas quinze vezes. Toda aquela raiva sempre contida, todas as vezes que não explodira por um café frio ou uma toalha molhada na cama fizera quebrar alguns copos na cozinha e lançar algumas almofadas pelo apartamento. Afinal, “quem tinha razões para terminar era ele”, pensara. “Ainda que ela fosse mais alinhada, e fizesse algo para me agradar de vez em quando”, resmungava. Mas “de todo jeito, jamais seria uma boa esposa mesmo, nem me abalo”, insistia com si mesmo. Não demorou dois dias para que ficasse a andar de um canto a outro do apartamento, agora com sua nostalgia e crise de abstinência. Saudade do café dormido. Do cheiro de cigarro. Saudade dos sapatos pela casa. Afinal, “são mínimos detalhes perto que ela foi”, chorava.

E não demorou duas semanas. Um novo anuncio pelas paredes da faculdade, e Anita, uma moça de óculos e livros embaixo do braço batia a porta. Moraram juntos por alguns meses, e noivaram. Formaram-se no mesmo ano, casaram, e Marcos finalmente saíra daquele apartamento. Se Anita era às vezes louca, às vezes mandona, nem importava. E o café era sempre dormido. E era mania freqüente de Anita, a toalha sobre a cama. “Ínfimos detalhes perto do que ela era”.

Certo dia, o relógio indicava cinco e meia. Acordara aflito, sem o braço sobre o seu peito, não encontrara na cama, ao seu lado. Passando pela mesa da cozinha, encontra um bilhete, e suas mãos tremulas pegam o papel, que dizia, “Acabou o nosso café frio. Fui até o mercado e já volto. Oh, eu te amo.”.


Algo bem simples para esta semana estressante, parei essa tarde pra escrever. Mas, claro, espero que quem passe aqui goste. Foi só uma tentativa, como havia prometido que o próximo não seria 'trágico'.

3 comments:

Anonymous said...

eita... mas que coisa fofinha :P

dia dos namorados faz coisas com as pessoas mesmo neh iuaheuihaehaiea... ateh que enfim algo menos lugubre ^^

think i liked it xD
=***

Anonymous said...

É impressionante como certas coisas acontecem na vida, que poderiam soar deveras estranho, mas acontecem muito naturalmente.

E o que uma mulher com "traçoss sinuosos" podem fazer com os principios de um homem.
Infelizmente este estado de torpor dura pouco, é quando termina, termina com um certa volupia repentina.

E é impressionante como uma garota de uma cidade vitoriana do interior, fadada a ser apenas mais uma, consegue ter a sensibilidade para perceber isso e ainda romancear sobre isto para mostrar sua aguçada visão de mundo.

E por isso que eu sou feliz em ser amigo da Ni.

bjus
stay beautiful

Anonymous said...

Rá, estou virando fã dos seus finais!Nunca li um texto tão rápido pra saber o final!

;)