Tinha uma boa vida para um rapaz de vinte anos. Tinha Verônica, de dezoito, um bom emprego na loja do pai, economias guardadas, morava na casa da mãe sem nenhuma vontade de sair da mordomia, comida e roupa passada, e na sua lista de desejos, era apenas uma coisa que lhe faltava. E que agora finalmente conseguira: Tirou a carta de habilitação. Seu sorriso, o mais escancarado do mundo, não era só por um pedaço verde de papel que o permitia dirigir por aí, era um contrato de liberdade. Eram as viagens sozinho de carro com aquelas músicas de estrada e vento nos cabelos, essas coisas. O pôr do sol retangular na frente dos seus olhos, e estes com o ray-ban. Aqueles mapas enormes com o roteiro das cidades. As cidades. E primordial na lista, a cidade de Verônica. Ela morava a duas horas e meia da sua cidade, em uma maior. Poderia vê-la sempre que quisesse. E estar longe da sua cidade sempre que quisesse, “sabe como é, cidade pequena todo mundo é celebridade”. Havia testemunhas de seus passos e das suas saídas em quase toda esquina. E era chegar a manhã seguinte para ouvir da goela de sua mãe super-protetora que “fulano te viu lá, trocando as pernas com um copo sempre cheio na mão! Acha isso bonito?”. A bebida estava no topo da sua lista, mas a mãe também, e, igualmente, a liberdade. E isso não seria mais problema, longe da sua cidade e indo até Verônica, com o volante nas mãos.
Seu salário não era tanto, e parcelou em infinitas vezes um carro vermelho usado. E o ‘mais importante: já estava equipado com CD player’. Quis fazer surpresa à namorada, colocou seus óculos ‘a lá Stallone’, aumentou a música, cigarros, pendurou dois dados no retrovisor, saiu sentindo-se o mais dono de si do mundo, com o céu colorido de tardinha. E depois de algum tempo de volante e cantoria, estaciona em uma lanchonete de beira de estrada, senta em uma mesa, olha pro uísque e pede um cappuccino. “Na estrada eu tenho juízo”, ponderou.
Um tempo depois que foi reparar no lugar, parecia mais um ponto de encontro de ‘motoqueiros doidões’. Pelo menos um pedaço de couro preto tinha que ter nas roupas dos barbudões, que trajavam preto. E as mulheres, pelo menos um pedaço de barriga de fora. E piercing, e tatuagens, e cigarro. Agora reparava na suntuosa ‘barriga mais de fora’ do lugar, uma mulher dos cabelos ondulados debruçada no balcão, na sua direção. E nenhum barbudo do lado, ou perto, ou com o braço enlaçando sua cintura de fora. Depois de um tempo olhando a barriga, foi notar que ela o encarava. O olhar fito da mulher chegou faze-lo tremer, e lhe voltou à cabeça que “Na estrada eu tenho juízo”. De um jeito estranho, ela também lhe causava medo, naquela pose toda. Continuou tomando seu cappuccino lutando com si mesmo pra agir ‘naturalmente, como se não fosse com ele’. Mas "é, meu Deus, é", pensa. Foi ao banheiro, que por sorte ficava no lado oposto da mulher. Ouviu umas conversas de uns dos clientes motoqueiros do local, que decidiam ali, urinando, qual seria a próxima parada do grupo. Sentiu vontade de vestir uma calça daquelas e se enfiar no meio deles, e fazer palpite com a 'pose de liberdade toda' também.
Na volta pediu a conta e mais cigarros. Junto com o papel da conta veio um papel com um número de celular e um nome rabiscado em baixo, “Charlote”. Deu um sorriso de lado, achando o nome meio esquisito. "Meio esquisito" no sentido 'meio feio', e agradável ao mesmo tempo, por estar no sentido 'meio exótico' também. E ‘de meio feio, só o nome’. Dobrou e guardou no bolso, pagou a conta e viu uma foto de Verônica na carteira. Enquanto entrava no carro, estava Charlote o encarando no estacionamento, de longe. O ego foi ao extremo, e o “eu tenho juízo” também, acelerou sem olhar de novo no retrovisor. Já estava escuro, e a cidade já estava perto. Aumentou a música pra parar de pensar e se concentrar nas emoções anteriores, a primeira viagem de carro, indo até Verônica que só via eventualmente, e chegando sem precisar de ônibus.
Quando ela o viu na porta da sua casa, pulou no seu pescoço, e depois viu atrás dele, o carro, e ele foi mostrá-la. A chamou pra dar umas voltas, mostrou embaixo do banco três garrafas de bebida. Rodaram a cidade toda, os lugares todos. Aquele monte de pessoas, e ele com o uísque na mão e Verônica na outra, e ninguém pra dizer que “o copo estava lá, sempre cheio”. E depois, não tinha mais ninguém mesmo, com o carro estacionado em um lugar qualquer. E sem condições pra dirigir, dormiram lá mesmo, nos bancos deitados. Não muito confortável, mas estranhamente melhor do que seu quarto, sua cama. As viagens se repetiram pelos próximos fins de semana. E, aquele bar, evitou a parar mais por lá.
Quando mais uma vez já saia de casa, pegara as cartas da caixa de correio e entrara no carro. Entre as contas tinha uma carta de Verônica. Enorme. Mas entre todas aquelas linhas, uma frase se destacava. Quase que piscava. Ela escreveu que “olha amor, nós teremos um filho”. Tirou os óculos escuros. Leu repetidas vezes pra ver se não era alguma interpretação errada da letra meio tombada dela. E nada alterava a frase. Levou a mão ao bolso pra pegar o celular e tentar, trêmulo, discar o número dela, veio um papelzinho amassado junto. Uma letra tombada também, escrito “Charlote”, e um número. Olhou de novo para aquela carta. Em seguida, pra menor, de motorista. O viu naquele mesmo carro, levando o filho (que depois acabaria sendo ‘os filhos’) para a escola, chegando em casa, desabotoando a camisa e nada de tatuagens. Entrou em casa, deu um beijo na testa da mãe e disse que ‘voltava logo’. Como se fosse uma escolha, e, como se pudesse escolher, escolheu ir embora, escolheu a carta menor, e o papelzinho. Seus próximos planos primordiais seriam só fazer uma tatuagem, uma prova para carteira de moto numa cidade. Numa cidade qualquer. Ia decidir por aí.
Tuesday, October 31, 2006
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