Wednesday, July 26, 2006

Acidente...


“Diga-me do que se lembra... Qualquer coisa, pode dizer.”

“Entrei no carro com a sensação de ‘melhor noite da minha vida’. Luisa tinha prometido que seria ontem, finalmente, se eu conseguisse pegar o carro e afastar da cidade. E eu fui o melhor filho do mundo desde a segunda feira, contando pontos positivos para o carro disponível no fim de semana. São vinte anos passados, o máximo que já consegui foi fazer as minhas mãos passearem nas curvas femininas, e nada mais. Estava um virgem desesperado, e claro, ninguém poderia imaginar isso.
E ela era do tipo que a gente descreve ‘a nora que mamãe quer’, principalmente quando se pergunta à ela, só falta a modéstia. Talvez melhor se faltasse um pouco de sonhos encantados, mas certamente brincou muito de boneca e viu muitos filmes românticos da Disney na infância. Que mal à nisso, eu sou o príncipe do cavalo branco dela. Seria legal se pudesse ser um cavalo branco, mas este é o carro. Ao menos, era branco. Eu voltava do curso, ligava o vídeo game, meu vicio desde os quinze, e ela, Luísa, ligava pra mim. Não era a única que gostava de passear no meu ‘cavalo branco’, e não era a única que eu passeava. E aí que minha mãe repetia, “quem têm muitas, fica sem nenhuma”. Mas, voltando ao quesito ‘nora que mamãe quer’, ela perdia um pouco, era meio safada. A gente na mesa, Luisa acariciando minha perna na frente da minha mãe, e eu fingindo que o vermelho no meu rosto é da lagosta.”

O médico riu simpaticamente.

“Em outras palavras, era menina pra aventura. Ela me chamava de Gutinho. Só que o “ti” era uma mistura de “ti” com “x” e “l”, pra ficar mais picante, fazer um charme com a língua eu acho. E aquele rosa todo dela de filha do papai era só fachada quando a gente tava junto. Mas, eu não procuro nenhuma nora pra minha mãe, nem ainda pensei em achar, então, sempre que ela ligava, eu estava disponível. Quando se faz fantasia pro futuro, não se vive o tempo presente por inteiro, é isso... Não sei o curso que quero fazer na faculdade, e vou decidir na fila de inscrição. Isso é vício. E se eu tivesse morrido nesse acidente, ia ficar muito puto se tivesse planos. Eu prefiro muito mais aproveitar agora a me imaginar quando já não estiver inteiro, ou for o Doutor Pelanca. É o maior fantasma dos homens, e do corpo humano, a idade. Ninguém ta preocupado se for enfartar amanha, nem lembra do coração, a gente se preocupa com o maior órgão humano, a pele, os nossos preciosos colágenos. Ah, os dela são em grande quantidade, deixa tudo levantadinho. Eu nem sei se ela me causa tanto desejo como os peitos dela. Acho que o rosto nem é tão bonito, mas eu gosto tanto do corpo que o rosto vai no embalo extasiado também. E por isso eu consegui o carro, e passei na casa dela. Ela foi “dormir na casa das meninas, sabe como é pai, noite das garotas”, ele nem sabia que era uma companhia só, e com barba. A gente pegou a estrada, ela colocou um rap maluco em alto volume no som do carro e foi cantando junto. Não tava com muito dinheiro, ia ser ali mesmo... E ela parecia nem estar se importando pra onde estávamos indo, dançando a música com os braços. Deve ter sido esse o problema... Luisa dançando estava desviando a minha atenção... Eu nem notei aquele maldito caminhão na curva, só quando ele estava me engolindo... Minha boca... ta seca.”


“Traz água, por favor”, diz à enfermeira. “Quer descansar um pouco?”, ele pergunta.
“Eu estou bem.”
“É bom ver que você se lembra de tudo, apesar da pancada no crânio, está com uma ótima memória.”
“Onde está a Luisa? Internou também? Ela ta bem?”

Uma senhora, que devia ter uns quarenta anos, entrou no quarto, cabisbaixa. Só levantou a cabeça rapidamente, pra olhar pro meu rosto. E quando conseguiu me encarar, não parou. Ficou comovida. Começou a chorar. E eu nunca a vi na minha vida. Pegou na minha mão, deu um beijo. Comecei a duvidar da minha memória... A mulher lá, emocionada como se me conhecesse a muito tempo, e eu nem sabia seu nome. Coitada, eu não podia a decepcionar... O doutor pediu para que eu não fizesse muitos esforços mentais, mas, eu tinha que tentar nessa situação. Comecei a olhar desde os seus sapatos, as mãos, ela tinha uma aliança no dedo. Ah. É alguma tia, dessas que ‘te pegou no colo, você já parasitou todo o leite das mamas da mulher quando novo’ e que nunca gravamos o nome...
No mesmo instante, os olhos dela eram familiares. Lembravam muito os de Luisa, só que com umas olheiras mais cavadas, e menos, muito menos colágeno. Busquei o copo de água rapidamente, e disse ao médico que não estava bem. Então que olhei as minhas mãos perto da boca dela, e essas, tinham muito menos elasticidade do que a pele da mulher. A mulher pegou as minhas duas mãos e suspirou “Gutinho”. Se não fosse tão velha, podia jurar que era Luisa. E não pude acreditar quando ela disse, "Sou eu, Luisa".

“Fique calmo. Você vai precisar de um acompanhamento psicológico, só por precaução. É normal que irá se sentir deprimido. O acidente não foi ontem. Luisa não teve nenhum problema sério, e saiu do hospital no dia seguinte. Você esteve dormindo um tempo. Mas, é um vencedor, está curado de vinte anos de coma.”

Não fiquei desfigurado, nem paralítico. Com um tempo já reconhecia todo mundo, e até os novos, os filhos e o marido de Luisa. Fiquei, mais vinte anos, sem conseguir encarar o espelho.

Friday, July 14, 2006

A frenética

A porta não estava próxima... E também o teto, continua longe... Essas luzes dançando sobre as paredes... Elas me deixam tonta... São tão coloridas e piscam, me fazem vômito... As pernas a volta, dançando, andando... Depois de tanto tempo, vejo o chão... Uma... Duas seringas, próximas da minha cabeça... As pessoas de ponta-cabeça... Meio delgados que quase somem... Acompanham os estalos da música dançante... E finalmente vejo meu refúgio... Me jogo em meu amigo, o sofá... E traiçoeiro... duro como pedra para minha cabeça. Tudo pesou junto com meu corpo, quase mórbido, torcido, e os meus olhos, caídos, vendo tudo pela metade...
Uma luz maldita no meu rosto. Não consegui abrir os olhos por dois minutos. Tinham furos no meu braço, três, quatro. E pingava soro, até a minha mão. Um maldito quarto de hospital... Levantei da cama e arrastei-me, carregando o soro, até o banheiro a frente, onde avistei espelho. Cabelos desgrenhados, os olhos cavernosos. Um susto comigo mesma. Busquei apoio no ferro do soro, enfiei a cabeça e os cabelos embaraçados debaixo d’água, naquela pia miserável...

Vozes se aproximavam, escuto a porta gemendo... Vozes diziam “vê no banheiro”, e braços levantavam minha cabeça da pia. Uma enfermeira gorda, dona das maiores bochechas que eu já vi, mandava sentar-me na cama. Vozes ecoavam ao longe, “Vamos embora, ela está bem”. Pude identificar as duas cabeças que apontaram na porta, mesmo que fossem dois vultos. Eram conhecidos. Marcelo e Augusto...? Alfredo e Augusto! Eram AA, algum trocadilho besta como ‘Alcoólicos Assumidos’... Mas a fisionomia de Augusto é inconfundível. Era ele sim, não acredito que me trouxe pra cá!... Ele sabe mais do que ninguém por quantas dessa eu já passei. Não é a primeira nem a ultima glicose extra que eu preciso. Não sei se o odeio ou se o amo. Talvez se ele também decidisse isso... Ele quer ser Augusto, o pai de uma menina, Carolina, e eu odeio crianças. Meu deus, até nome dos futuros filhos ele já sabe. Uma namorada não seria aceita a subir no balcão e dançar freneticamente. Parecia minha mãe, com seus sermões “você tem que criar juízo, tem que se decidir, tem honrar um nome, que lembrar da noite anterior pelo menos uma vez”.
Talvez se ele entendesse que tenho dezesseis anos e não quero ser como os outros namorados, ter vida de casado... Deve ser tedioso ter um homem pra vida inteira, ter uma mesma vida o tempo inteiro. Eu posso ser Juliana, ser Isabel, Cecília, e não dever explicações à mesma pessoa no outro dia.

Alta no mesmo dia, por minha conta. No ônibus, pensando na desculpa para dar aos velhos, e rebatendo os olhares fitos em meu rosto borrado de riscos pretos de maquiagem e o vestido nada discreto. Talvez por ser curto. Talvez por ser duas horas da tarde em um sol severo.
Entro com cautela, mas não havia ninguém em casa... Desabo na cama, sono durante uma hora, até chegar vozes altas atormentadoras. Invadindo as gretas da porta... Conseqüências de uma mãe beata com um pai beberrão. Haveria uma terceira voz, se me flagrassem entrando na porta. Eu posso até ouvir a voz histérica “Estela, eu voltando da Igreja e você voltando da rua de ontem!”, balançando o terço na minha cara.
Vômito por vários dias, sangria ausente por vários meses. Cinco testes de farmácia, e todos positivos.
Procurei Augusto. Ele sorriu, eu chorei, gritei, "conseguiu o que queria, seu irresponsável" como se a culpa fosse apenas dele. Mas ele estava gostando da situação, e isso me dava raiva e motivo pra gritar. Parou de sorrir quando duvidou. Pediu teste laboratorial. Choramos o sangue que não era dele. Quase cuspiu em meu rosto. Disse que “esperaria até minha fase passar e eu me decidir, se não tivesse estragado tudo”, e nunca mais o vi. A barriga começou a ficar relevante e notável. Um interrogatório, uma coça de cinturão e a pior resposta, “Quem é o pai?”. “Não me lembro”.

Foi o suficiente para destiná-la ao maior sonho de sua mãe. O convento. Diferente de música dançante e pessoas coloridas, estava Estela ouvindo o som dos hinos da capela, vestida até o pé, às sete horas da noite. Em seguida todas se recolhiam aos seus aposentos, o seu cubículo, com uma cruz enorme em frente à cama ao invés dos seus pôsteres na parede. E alguém batia a porta, todos os dias às onze horas, às escondidas. Despertava o sorriso afoito no rosto da menina. Era ele, o padre Antônio. Agora era ela, Madalena. Sem nenhum compromisso com a vida já transviada. Causando heresia, fazendo ironia com o que não gostava. Contrariando o certo, desconhecia o juízo, independente do lugar. Seu filho era de um taxista que a levara pra casa numa noite qualquer. Talvez filho de 'uma madrugada sem dinheiro'. Mais exatamente, a filha, Carolina.


São essas férias que deturpam minha cabeça...

Tuesday, July 04, 2006

Chasco da “Night”

Uma crise de meia idade. Homem sorridente, a cerveja da noite de sexta feira nas mãos, contando coisa qualquer às gargalhadas em meio a outros amigos de bar, quando uma garota com seus poucos dezessete anos toca delicadamente naqueles ombros de quarenta e cinco, e diz com voz fina e, então, ecoante, “Pode dar licença aí, tio?”. E sem nem ao menos olhar para seu rosto, a menina passa por ele até a máquina de refrigerantes. Atitude de uma menina qualquer, e suficiente para mudar seu humor pelo resto da noite, afinal “a opinião de qualquer um pode ser uma opinião da maioria”, pensava, encarando seus traços no espelho do banheiro do lugar. E faz caretas para contar as rugas. Alisa os cabelos em todos os sentidos no intuito de tampar as falhas, procurar e tirar os brancos. Depois de algumas solitárias tentativas de melhorar o ego, enche os pulmões, estufa o peito e volta para a mesa.

“Ah, traz mais uma pro tio Fausto!”, zomba Elias, um amigo de trinta e nove. “Tio, ou quase avô”, refletia Fausto. Tinha filha, com a mesma faixa de idade, espinhas e os mesmos cabelos longos e dourados da mocinha que despertara ali o peso da idade. E também outra ‘mocinha’ de onze. “Meus deus, foi piscar os olhos e entrar nas décadas do eterno sufixo ENTA”, matutava, enquanto dirigia de volta para casa, “Quando eu fiz quarenta que não percebi?”. Entra na ponta dos pés em casa, pela sala. A TV estava ligada, sua mulher dormia no sofá, debaixo de uma colcha de crochê feita pela mesma. Normalmente desligaria o televisor e guiaria sua esposa, de quarenta anos, até a cama. Não foi o que suas pernas quiseram. Passara no banheiro, passara um gel. “Não estou tão velho para desabar de cansaço agora”, e “Tudo o que não quero agora é me encolher como um C na cama” pensou. Precisava testar a si mesmo. E a ultima inspeção do visual ficara para o espelho do elevador. Como a esposa dormia, e não deveria acordar tão logo, poderia então alongar um pouco mais aquela sexta.

“E olha quem reanimou!”, exclama um dos amigos, o ‘locutor comentarista’ da turma, ao ver Fausto se aproximando. “A noite é uma criança!”, brinca o ‘Fausto jovial’, incorporado em seus vinte anos atrás, e com os trocadilhos da mesma. Mas já havia notado que os amigos de quarenta e cinco não estavam mais presentes. O mais velho era Elias, que convencera a reunião de mesa de bar a seguir até a boate mais próxima. Assim fizeram. E “Fausto, o Púbere” no meio. Conhecia todas as danças de John Travolta, mas o máximo que pode exibir eram os braços acanhados que pouco se mexiam.

Desconcertante, apelara para o balcão. Três copos de uísque, uma jovem puxando conversa. Paga uma bebida a ela. Agora com seu ego no auge, já pensara “Não devo aparentar assim um velho”, ao receber as risadas da moça quase embriagada, que aparentava uns vinte e cinco anos. Moça que só sabia rir e virar copos de uísque, todos pagos por ele. Depois de algumas doses estava ela caída ao colo de Fausto. Enlaçando a cintura da moça com os braços, arrasta para o meio dos amigos como um troféu, afinal, tinham de ver que ainda era um “cara pintoso”. E Elias também enlaça o seu troféu, para exibir e apresentar aos amigos. Uma garota com espinhas e os mesmos longos cabelos dourados de sua filha mais velha. “E o mesmo tamanho, e o mesmo rosto”, olhava assombrado, com um nó na garganta. Até que se convence, como uma pancada na cabeça. Era a sua filha, o troféu do amigo de meia idade. Sem reação. Ou melhor, cheio de reações, só não sabia qual realizar primeiro. Poderia lançar longe a mulher de seus braços, gritar com a filha, ou sair correndo antes que esta pudesse ter a certeza de que aquele em sua frente com uma garota era mesmo seu pai. Mas seu espanto não permitiu nenhuma ação. Quem conseguiu reagir primeiro foi a garota, que correu para fora do local no mesmo instante.

Dia seguinte. Fausto fora incapaz de voltar para casa. “Sou um cara tão bem-sucedido, tenho um bom emprego no banco, uma mulher atenciosa, filhas cheias de vida que eu, cheio de vida, fiz”, tentava encorajar a si mesmo. Talvez pudesse até se explicar e desculpar, e a compreensiva esposa entender sua crise de meia idade. Mas era inseguro demais para encarar a família.Talvez ainda infantil demais para expor seu erro, passar vergonha, e assumir para si mesmo que se arrancasse todos os brancos, não ajudaria muito, pois estaria careca.


Desculpe o maior atraso de todos. E é absolutamente normal não cumprir minhas ‘apostas mentais’. Ressaltando o talvez pouco frívolo acima, não resisti a essa ‘inspiração’ meio súbita à essas distrações contemporâneas. Só pra distrair (ou não).