No final da aula, as mãos de Edgar pegariam a chave do carro na sua pasta de couro e o guiariam até sua casa, que continha a sua esposa fazendo café. E suas mãos foram pegas por uma de suas alunas e guiadas para um café da tarde na lanchonete do outro lado da rua. Idéia da menina, “dar uma distraída”. Nunca havia passado algum tempo fora da escola com um aluno. Nem aluna. Não costumava se dar intervalos, dava aulas e ai pra casa. E tampouco havia olhado direito pra garota. Menos ainda refletido sobre ela, sua aparência própria e sobre sua esposa, ao mesmo tempo. Refletido com sua mente, apenas. A garota só estava lá, sentada de pernas cruzadas frente a ele numa pequena mesa redonda sugando o café expresso do copo de vidro e foi falando sobre qualquer coisa trivial da escola. E ela falava sobre algo que, para o quesito ‘qualquer coisa’, falava sobre uma ‘qualquer coisa’ bem, nota ele.
Ela sorria, e às vezes gargalhava. Falou algo sobre ele aparentar sério. Falou parecendo um reclame, que ‘ele não era de interagir muito com os alunos’. A não ser quando falava dos livros, de Macabéa, de Bentinho... Mas “os professores de cursinho precisam ter aquele humor de professor de cursinho”. Colocou a mão sobre a dele pra falar. E transportou o pensamento dele, que estava em uma das carteiras da sala assistindo a si mesmo dar aula, para aquele toque da mão dela. Uma mão que fez seu pensamento não continuar entendendo aquele café apenas como um momento amigável de aluna e professor.
E sentiu-se um pouco ridículo. ‘É só uma mão’. Uma simples mão e seus dedos meio gordinhos. E não era seu jeito ser assim, ser maldoso tão facilmente. Menos com uma mão. O cabelo sempre molhado – com algumas falhas dos seus recém cinqüenta anos, a blusa sempre dentro da calça e os óculos de grau não o davam essa imagem. Mas ninguém poderia condenar um professor por ocorrerem segundas (ou terceiras ou quartas) intenções com uma aluna. Ou pelo menos essa condenação não partiria de nenhum outro professor. “Nem o mais santinho. Já é um clichê, ou karma”, pensa.
Talvez o assunto fosse motivo de uma incitação. Mas o assunto não estimularia nem um adolescente entupido de testosterona, e, ‘oras, não estimularia um quase-senhor, com décadas de vida sexual ativa’. Mas o estimulava, sim. A menina falava suavemente e, ao mesmo tempo, mostrava-se instigada com o que dizia, alguma coisa não muito aprofundada sobre a ditadura... O que voltou sua atenção ao assunto, como um professor de História e Literatura. Ou, voltou sua atenção para fingir não sentir as mãos dela. E quase que regride ao seu tempo de estudante - com direito a um daqueles panos coloridos “flower power” amarrados na cabeça e calça jeans boca-de-sino. Quase, se não estivesse com a mente mais presa naquele momento na lanchonete. E ainda, forçadamente, dividindo parte do pensamento na esposa, como conseqüência.
Depois de um tempo mal prestava atenção no que a garota falava, e só nos lábios se mexendo. E agora ela parecia falar com tanto domínio de Dom Casmurro, e nem sabia como havia chegado ao assunto. Ele ainda estava lá... nos motivos para sua incitação. É, ‘as pernas... ’, diziam os seus olhos, embaraçados por não conseguir disfarçar. As pernas sempre lhe chamavam atenção. Mais do que nádegas. Talvez porque já é clichê e carrega com elas várias outras finalidades não muito agradáveis... Como estas serem um ótimo local pra vacina intramuscular, entre outras coisas. Não que pernas também não sejam clichê. Mas ali pouco lhe importava o que era clichê. Essas saias pregueadas como a que a moça usava também eram comuns e, igualmente, o jeito intelectual-sexy, com aqueles óculos de armação vermelha. Podia se sentir em cena de filme. Podia até, como um professor de literatura e escritor-amador, escrever sobre isso depois, assinando com a frase ‘baseado em fatos reais’. “Acrescentaria alguns detalhes, é claro, pra melhorar a imagem de professor atraente”, pensa. “E por que não... Deve mesmo me achar atraente”, continua ele. O jeito insinuante como ela pegara em seu braço e o puxara até a lanchonete... Abraçara seu braço ao lado de sua cintura, roçando-o nesta, desde a porta da escola até atravessarem a rua. Certamente tocara no assunto de Dom Casmurro só pra lhe impressionar com sua boa interpretação. O jeito como balançava os seus cachos pretos e definidos para um lado e outro. E as pernas cruzadas. E o jeito que ela sentara. E o jeito que o olhava. “Ou sua mente que estava aumentando os fatos por querer?”, replica a si mesmo. Mas por que chamaria logo a ele para uma situação tão aleatória à escola, e nem precisava de notas na matéria pra fechar o ano. Talvez estivesse ficando um homem maldoso demais. Talvez não. Talvez pensasse demais. E da conclusão de que ela “eventualmente se insinua para mim”, chegou a que “essa garota sempre se insinuou pra mim” e ponto.
Ainda regredido ao tempo de estudante, ele se levanta subitamente da cadeira interrompendo o que ela falava e pede licença. Estava preocupado com o visual. Foi ao espelho e foi analisar se estava com olheiras – sem assumir a própria consciência que, com o tempo, já adquirira olheiras fixas. “Seu rosto é bonitinho... Mas ela nem é tão atraente... Não está com um corpo bom para sua idade... Tem até uns quilinhos a mais...”, tentava ajuizar-se. “A maior atração e vantagem é a sua juventude... quando chegar à minha idade, provavelmente não estará tão inteira como eu... E o dobro de olheiras, coitadinha”, continuava a analise pedante. “E você provavelmente não estará vivo pra ver, sua besta”, finalizou ao espelho. Quando já seguia em direção a porta, foi surpreendido com a menina ofegante entrando no banheiro e trancando a porta. Depois foi pra cima dele - e todas as suas dúvidas acabaram: “Sim, ela estava se insinuando pro coroa de cabelos castanho-esbranquiçados aqui”. Segurou nos punhos da garota, que tentava lhe beijar e dizer que o ama ao mesmo tempo, e disse um ecoante “pare com isso menina”. Os banheiros quase sempre têm eco; a frase soou com mais autoridade do que queria ter. Ela arregalou os olhos. E insistiu com a atitude. Edgar, já não mais tenso, a imobilizou e repetiu o firme e sonoro “pare menina”. E ela pára. Poderia até ter sido menos insensível, pensou. Mas nem pensou muito. Também era melhor não falar muito. Essas paixões são muito flexíveis a explicações - já poderia esperar de resposta a qualquer explicação que ele fizesse, alguma coisa como “Eu aceito ser a outra... Não, não é coisa de fase, eu te amo”, por aí. Melhor ser grosseiro e pronto. “Melhor até pra minha própria resistência”, pensa.
Os olhos dela enchem de lágrimas, e sai correndo do banheiro sem uma palavra a mais. Uma cena de drama para acrescentar à ‘sensação de filme’ dele. Sorri. “Essas garotas nessa idade quase sempre amam um professor. E a mira é quase sempre no de Literatura”, reflete. Olha-se no espelho. Por um momento não acredita na atitude que tomara. “Esses coroas nessa idade quase nunca negariam uma situação como essa”. Sorri de novo. E acredita na atitude que tomara... Ela acabara de dar a resposta que ele queria. A única coisa que ele queria. Uma boa “massagem no ego”. Viu-se atraente. E não estava vestindo calças boca-de-sino, e lá estavam as olheiras. Além do mais, preferia que os dramas e romances quentes ficassem nos livros. Deve ser verdade o que ouvira de uns escritores, que ‘em geral gostam mais de imaginar, sem precisar propriamente se arriscar’. Saiu do banheiro, tirou a chave da pasta e, finalmente, o guiara até sua casa. Entra na cozinha, e, como sempre, sente o cheiro de café. Café que mal havia tomado na lanchonete. E, naquela tarde, só desejava e só esperava um simples café. Sua mulher se aproxima com uma xícara nas mãos, vestindo uma espécie de blusão largo, que pouco desenhava seu corpo. Ele sorri, dizendo, “Sabe amor, você está com um corpo incrível para a sua idade”.
Pois é, então, esse negócio de professor... tinha que pedir um bocado de direitos autorais né. Sei lá, só pra distrair.
Saturday, December 09, 2006
Friday, December 08, 2006
coisas avulsas...
As boas sensações deveriam vir com um aviso prévio de quando estão pra terminar. Por correio, um telegrama. Ou e-mail, ‘com essa tecnologia toda dos tempos modernos’... Algum jeito de dizer que, a partir de determinado dia, você tem que se acostumar em ir “tirando essa cara de besta e colocando uma normal”, mesmo que a sua normal também seja de besta. São bestas diferentes. Uma besta contente não é só simplesmente um besta. E até se esquece que é um besta. Mas você é: está presumindo coisas que poderão (e este verbo na posição besta, até então, lê-se ‘irão, quase certo que irão’) acontecer com tanto ímpeto que esquece da inexistência de algum contrato ou indicação de um prazo de validade.
E a besta contente esboça aquele sorriso diante dos dias que, na verdade - para as pessoas normais-não-bestas - continuam sendo os dias injustos; as crianças ainda passam fome; morrem de AIDS na África; o mundo continua com contradições sociais e escravo da globalização; E as segundas-feiras que, na verdade, continuam vindo depois dos domingos maçantes. Esquece que domingos são geralmente maçantes (e daí também esquece daquela vontade de que criem um dia pra vir entre o domingo e segunda, pra recuperar da possível ‘leseira’ deste dia que se passa... Mas nada de uma “sétima” antes do sábado, porque o sábado perderia o seu gosto tradicional e prazeroso do alívio quase unânime. E que não adiantaria fazer de segunda-feira um feriado porque as segundas-feiras existem pra que as xinguemos – é o seu gosto tradicional muito unânime). Mas se esquece tudo isso.
Enfim, as bestas mais românticas – que a partir de agora serão ditos como ‘seres’, porque já está parecendo algo agressivo - só lembram da existência do calendário quiçá para marcarem as datas especiais, sejam elas num domingo, segunda ou quarta-feira.
É então que, um belo dia, na caixa de correio dos tais seres, nem conta de luz chega. Muito menos o tal aviso prévio. E os seres românticos, decoradores de datas e momentos, de quebra, viram os seres nostálgicos – lembram bastante da existência do calendário, que agora não mostra as possíveis datas especiais, mas sim o fim delas. E você se lembra que se esqueceu. E tudo parece pesar mais do que naturalmente pesa. As segundas continuam vindo depois dos domingos maçantes, e continuam morrendo de AIDS na África. E você pode chorar por isso também; e pela violência; contraste social; e pela escravidão à globalização e o neoliberalismo, onde o risco de exclusão meio ao mundo globalizado obriga os países pobres, em desvantagem, entrarem no mercado mundial.
E a besta contente esboça aquele sorriso diante dos dias que, na verdade - para as pessoas normais-não-bestas - continuam sendo os dias injustos; as crianças ainda passam fome; morrem de AIDS na África; o mundo continua com contradições sociais e escravo da globalização; E as segundas-feiras que, na verdade, continuam vindo depois dos domingos maçantes. Esquece que domingos são geralmente maçantes (e daí também esquece daquela vontade de que criem um dia pra vir entre o domingo e segunda, pra recuperar da possível ‘leseira’ deste dia que se passa... Mas nada de uma “sétima” antes do sábado, porque o sábado perderia o seu gosto tradicional e prazeroso do alívio quase unânime. E que não adiantaria fazer de segunda-feira um feriado porque as segundas-feiras existem pra que as xinguemos – é o seu gosto tradicional muito unânime). Mas se esquece tudo isso.
Enfim, as bestas mais românticas – que a partir de agora serão ditos como ‘seres’, porque já está parecendo algo agressivo - só lembram da existência do calendário quiçá para marcarem as datas especiais, sejam elas num domingo, segunda ou quarta-feira.
É então que, um belo dia, na caixa de correio dos tais seres, nem conta de luz chega. Muito menos o tal aviso prévio. E os seres românticos, decoradores de datas e momentos, de quebra, viram os seres nostálgicos – lembram bastante da existência do calendário, que agora não mostra as possíveis datas especiais, mas sim o fim delas. E você se lembra que se esqueceu. E tudo parece pesar mais do que naturalmente pesa. As segundas continuam vindo depois dos domingos maçantes, e continuam morrendo de AIDS na África. E você pode chorar por isso também; e pela violência; contraste social; e pela escravidão à globalização e o neoliberalismo, onde o risco de exclusão meio ao mundo globalizado obriga os países pobres, em desvantagem, entrarem no mercado mundial.
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