Friday, December 08, 2006

coisas avulsas...

As boas sensações deveriam vir com um aviso prévio de quando estão pra terminar. Por correio, um telegrama. Ou e-mail, ‘com essa tecnologia toda dos tempos modernos’... Algum jeito de dizer que, a partir de determinado dia, você tem que se acostumar em ir “tirando essa cara de besta e colocando uma normal”, mesmo que a sua normal também seja de besta. São bestas diferentes. Uma besta contente não é só simplesmente um besta. E até se esquece que é um besta. Mas você é: está presumindo coisas que poderão (e este verbo na posição besta, até então, lê-se ‘irão, quase certo que irão’) acontecer com tanto ímpeto que esquece da inexistência de algum contrato ou indicação de um prazo de validade.
E a besta contente esboça aquele sorriso diante dos dias que, na verdade - para as pessoas normais-não-bestas - continuam sendo os dias injustos; as crianças ainda passam fome; morrem de AIDS na África; o mundo continua com contradições sociais e escravo da globalização; E as segundas-feiras que, na verdade, continuam vindo depois dos domingos maçantes. Esquece que domingos são geralmente maçantes (e daí também esquece daquela vontade de que criem um dia pra vir entre o domingo e segunda, pra recuperar da possível ‘leseira’ deste dia que se passa... Mas nada de uma “sétima” antes do sábado, porque o sábado perderia o seu gosto tradicional e prazeroso do alívio quase unânime. E que não adiantaria fazer de segunda-feira um feriado porque as segundas-feiras existem pra que as xinguemos – é o seu gosto tradicional muito unânime). Mas se esquece tudo isso.
Enfim, as bestas mais românticas – que a partir de agora serão ditos como ‘seres’, porque já está parecendo algo agressivo - só lembram da existência do calendário quiçá para marcarem as datas especiais, sejam elas num domingo, segunda ou quarta-feira.
É então que, um belo dia, na caixa de correio dos tais seres, nem conta de luz chega. Muito menos o tal aviso prévio. E os seres românticos, decoradores de datas e momentos, de quebra, viram os seres nostálgicos – lembram bastante da existência do calendário, que agora não mostra as possíveis datas especiais, mas sim o fim delas. E você se lembra que se esqueceu. E tudo parece pesar mais do que naturalmente pesa. As segundas continuam vindo depois dos domingos maçantes, e continuam morrendo de AIDS na África. E você pode chorar por isso também; e pela violência; contraste social; e pela escravidão à globalização e o neoliberalismo, onde o risco de exclusão meio ao mundo globalizado obriga os países pobres, em desvantagem, entrarem no mercado mundial.

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