Ela chegava toda a rodopios, e dava pra ver a terra/poeira subindo dos seus pés pela luz áurea feita pela fogueira. O traje avermelhado ambulante cheio de decotes, que contornava si mesma, quase queimava, ou hora se confundia com fogo. E sempre estavam a volta os marmanjos com suas calças lascadas de mato e brigas, 'engolindo' aquela cena, de olhos satisfeitos. Mal sabiam dela, e no que era insatisfeita. E que era por vezes infeliz na frente do espelho. Também nem queriam saber. Dava mil jeitos no cabelo laranja desbotado de ondas doidas pra, por fim, deixar tudo solto e desgrenhado mesmo. Mas, no meio da roda, era ela de nariz empinado e movimento exibido. E eles acompanhavam tocando as cordas e fazendo música como pretexto.
Não se esperava só aquela festa específica, se esperava a noite, porque havia campo e fogueira todos os dias. E haviam aquelas pessoas todos os dias. Homens eram: de dia, inchadas, à noite: festejos. A gurizada era de correr fazendo barulho, as anciãs eram da cozinha e as moças sentavam nos bancos/barris com os vestidos compridos que lhe fingiam comportadas, pra “não ficar feio e afastar marido”, bem falavam as senis. Mas as pernas cruzadas que se safavam do tecido e se exibiam entre brechas, chamavam, carentes e balançantes. As bocas cochichavam irrequietas, comentários infinitos. E cochichavam sobre Eileen, a volvente vermelha, que não ouvia as senis nem ninguém. Fazia coisas de "afastar marido" e atraía todos os olhos de quem usava calças.
“Mas não atrairia nem um”, respondiam as bocas que acompanhavam os olhos que julgavam. Das que respondiam, uma era Naelya, que dizia, mais singularmente, “não atrairia um”, e que aqui é ainda apagada demais nesta história. Mas lá estava ela, séria e inquieta, sentada e de vista afiada. Seu rosto bem entregava, totalmente franzido, assistindo a tudo. Sua idade era dentre as moças e as mais senhoras, e por isso para o casamento parecia “ser tarde”. E levava tal idéia a todo mundo, pois se não queria parecer senhora, ficava quase a palmos abaixo da terra quando fazia cochichos pela noite, carregando seu olhar encrespado, costurando meio aos dançantes e os tocadores, pra não perder nada. Eles nem a viam, porque queriam dançar e rodar em volta de si mesmos e sorrir de graça.
Naelya olhava tanto os outros que “chegava a se esquecer corcunda”, brincava quem percebia. Mas não ficava na cozinha, nem no meio das moças, e só vagava no meio de todos. Principalmente porque, dos vinte daqueles que eram homens, que pegavam em armas e que eram os heróis, um era Eiden, e os olhos e os passos dela direcionavam-se para ele, quando por fim desistia e resolvia sentar-se num dos bancos ou barris. E ele tocava uma flauta e assistia à ela. Ela, Eileen.
Então, uma hora as mandoras cessavam a melodia, quase sempre à meia noite. Às vezes alguns ainda sobravam por lá, e Eileen agarrava a saia pra escapar mais ligeiramente e passear dentre as árvores e juncos, às vezes escolhia uma fruta ou outra. E ia quase sempre. Agora que Eiden bem descobrira. Passou a meia noite e ela já levava a mão no vestido para o passeio, e ele foi deixando a flauta em um canto no mesmo minuto. ‘Era tão habitual da moça que nem fazia barulho nas folhas que fechavam caminho quando se enfiava e sumia’, foi pensando. E pensando também que acontecia algum encontro lá... ela, que nem olhava pra ele, mas que, afinal, não olhava pra ninguém, e dançava de olhos fechados quase que sempre. Deu um sorriso consolado e continuou marchando entre a folhagem, que não reproduzia o barulho de Eileen, quando dela de repente saiu barulho de disparo de pólvora. E Eileen não chegou nem a alcançar as frutas, uma vez que soltaram um tiro direto no meio do vestido pra ficar logo tudo rubro de vez.
Naelya seguira discreta e sutil, como bem sabia, fazendo o caminho de volta, sendo silente desde quando saíra da mata até abrir cuidadosa a porta de casa, sem ser vilã nem nada, porque ela ninguém notava. Desconfiaram de Eiden, mais atuante, e foi preso pra ela nunca lhe mirar os passos outra vez, e ficar sem motivo pra vagar. O gatilho era da arma dele. A luva também. Mas a mão por dentro era de Naelya, só para não ficar tão terceira na história que de outra forma não faria parte. Mas quando ouvia-se rajadas sem explicação na floresta, vento forte ou uma luz mais avermelhada na fogueira, era Eileen, cheia de decotes, que rodopia.
Monday, November 26, 2007
Thursday, September 13, 2007
Pontos finais em setembro
Olhava seu calendário na parede, com o setembro gigante e vermelho em baixo da foto de beija-flor na flor. Nem precisava daquele calendário lá. Tinha os seus vários outros à mão, digitais, com seus lembretes automáticos e tudo, mas gostava daquele de papel amarelado que lembrava a casa da avó na roça e a felicidade toda contida em jogar peão, na varanda fresca. Ficava cabisbaixo quando de repente ecoava longe a buzina da camionete do pai, e ia todo terroso pra casa.
Já contava vinte e duas primaveras, ou outonos – talvez mais outonos. Às vezes ainda soltava pipa num campo de grama perto do seu prédio. Podia ver na cara das pessoas da calçada, homens em bicicletas, gente andando pra combater hipertensão, mulheres com carrinho de bebê e ar de “bem realizadas”... Elas olhavam e diziam com seus olhos “olha lá ele curtindo a nostalgia”. Ou talvez dissessem “só tem tamanho”. Tanto fazia. Tinha muito pedaço de nostalgia não acudido perturbando mais... O campo da roça era de terra de a roupa ficar marrom. Os fios de eletricidade não cortavam a passagem da pipa. Assistia o horizonte ficar em tom de sépia porque reunia a molecada até à tardinha.
Agora mal se via o horizonte entre um prédio e outro. A molecada, nunca mais via.
Agora convivia com menos terra e mais concreto. As pessoas são outras. E a felicidade não era contida em muita coisa. Mas uma coisa estava longe de ser feita de papel e madeira. Uma “ela”, com sobrenome e nome, Alice. E ela parecia ser portadora da felicidade quase toda, e portar a felicidade toda pra lá. Pra seiscentos quilômetros ou mais onde morava. Às vezes o visitava, quando queria. E escreveu a ela que “queria rasgar os tecidos que te reveste e ver se tem alguma coisa aí dentro”, pra dizer que tinha saudade. Mas ela agia pela sua saudade própria. Assim, egoísta. E ele só abria a porta. E sempre abria a porta. Depois ela ia embora, atravessando o estado com sua felicidade na mala.
Lembrava Iaiá, a menina que às vezes aparecia do nada na roça da avó. Filha de algum fulano de tal, longe conhecido da família, e era a única que parava e brincava com os meninos. As outras duas irmãs se afastavam e iam embora engomadas, com suas bonecas penduradas no braço.
Às vezes parecia um deles naqueles camisões que mal se via seus peitos ali por baixo querendo se formar, e seu short era sempre o mais marrom. E ele sorria todo e inchava o tórax magricelo quando ouvia alguém dizer que “Joana chegou”, e nunca entendeu porque o apelido era Iaiá. Mas só conseguia a chamar assim.
O calendário lembrava tanta coisa. Lembrava a última vez que sorriu todo, e não só por fora, por simpatia. Uma semana atrás, que Alice sentiu saudade. Mandou uma carta meio marfim como as folhas dele, e dizia com seu gênio meio zombeteiro que “deu vontade de fazê-lo um pouco feliz”. Morreu de raiva por dentro, mas era uma raiva alegre. E uma raiva que dizia “adoro esse jeito mesmo assim”. Raiva porque era pra estar farto. Mas ele iria abrir a porta.
Terminava o café em frente aquele calendário que de números praticamente ganhou letras que escreviam “te espero me receber na rodoviária”. E lembrava que fazia meses que esperava aqueles dizeres num pedaço de papel. Mas nem precisava do calendário pra lembrar. O que tinha de olhar agora é a hora, porque era hoje.
Chamou o táxi. Estufou-se de ansiedade. Pisou na rodoviária e o frio na barriga era o mesmo de quando tinha o tórax magrelo. Bem como o sorriso, quando o ônibus dela apontou. Levantou, olhando calmamente as janelas. Depois, calmamente as pessoas que desciam dele. Uma por uma. E nenhuma era Alice. Descreveu Alice pro motorista e pra seis ou sete que desceram. E mirrou-se todo. Pensou “Coisa de Alice”; que assim de repente desistiu da vinda e não avisou, só pra ser meio crápula. E se conformava com a quase certeza de que era isso mesmo, quando viu uma sombra passar dentro do ônibus indo à porta. Surgiu-lhe de novo o sorriso não contido no rosto. E a boca também não se conteve dizendo “Alice?!”, mas a garota tinha um cabelo castanho e todo o resto que não era de Alice. Nem o sorriso. E a garota sorriu de um jeito estranho. Sorriu tão empaticamente, só que meio hesitante, misturando um espanto, e tudo junto.
Quando falou, perguntou se ele se chamava seu nome. Disse que "você não mudou nada!". E disse que seu nome era Joana.
Já contava vinte e duas primaveras, ou outonos – talvez mais outonos. Às vezes ainda soltava pipa num campo de grama perto do seu prédio. Podia ver na cara das pessoas da calçada, homens em bicicletas, gente andando pra combater hipertensão, mulheres com carrinho de bebê e ar de “bem realizadas”... Elas olhavam e diziam com seus olhos “olha lá ele curtindo a nostalgia”. Ou talvez dissessem “só tem tamanho”. Tanto fazia. Tinha muito pedaço de nostalgia não acudido perturbando mais... O campo da roça era de terra de a roupa ficar marrom. Os fios de eletricidade não cortavam a passagem da pipa. Assistia o horizonte ficar em tom de sépia porque reunia a molecada até à tardinha.
Agora mal se via o horizonte entre um prédio e outro. A molecada, nunca mais via.
Agora convivia com menos terra e mais concreto. As pessoas são outras. E a felicidade não era contida em muita coisa. Mas uma coisa estava longe de ser feita de papel e madeira. Uma “ela”, com sobrenome e nome, Alice. E ela parecia ser portadora da felicidade quase toda, e portar a felicidade toda pra lá. Pra seiscentos quilômetros ou mais onde morava. Às vezes o visitava, quando queria. E escreveu a ela que “queria rasgar os tecidos que te reveste e ver se tem alguma coisa aí dentro”, pra dizer que tinha saudade. Mas ela agia pela sua saudade própria. Assim, egoísta. E ele só abria a porta. E sempre abria a porta. Depois ela ia embora, atravessando o estado com sua felicidade na mala.
Lembrava Iaiá, a menina que às vezes aparecia do nada na roça da avó. Filha de algum fulano de tal, longe conhecido da família, e era a única que parava e brincava com os meninos. As outras duas irmãs se afastavam e iam embora engomadas, com suas bonecas penduradas no braço.
Às vezes parecia um deles naqueles camisões que mal se via seus peitos ali por baixo querendo se formar, e seu short era sempre o mais marrom. E ele sorria todo e inchava o tórax magricelo quando ouvia alguém dizer que “Joana chegou”, e nunca entendeu porque o apelido era Iaiá. Mas só conseguia a chamar assim.
O calendário lembrava tanta coisa. Lembrava a última vez que sorriu todo, e não só por fora, por simpatia. Uma semana atrás, que Alice sentiu saudade. Mandou uma carta meio marfim como as folhas dele, e dizia com seu gênio meio zombeteiro que “deu vontade de fazê-lo um pouco feliz”. Morreu de raiva por dentro, mas era uma raiva alegre. E uma raiva que dizia “adoro esse jeito mesmo assim”. Raiva porque era pra estar farto. Mas ele iria abrir a porta.
Terminava o café em frente aquele calendário que de números praticamente ganhou letras que escreviam “te espero me receber na rodoviária”. E lembrava que fazia meses que esperava aqueles dizeres num pedaço de papel. Mas nem precisava do calendário pra lembrar. O que tinha de olhar agora é a hora, porque era hoje.
Chamou o táxi. Estufou-se de ansiedade. Pisou na rodoviária e o frio na barriga era o mesmo de quando tinha o tórax magrelo. Bem como o sorriso, quando o ônibus dela apontou. Levantou, olhando calmamente as janelas. Depois, calmamente as pessoas que desciam dele. Uma por uma. E nenhuma era Alice. Descreveu Alice pro motorista e pra seis ou sete que desceram. E mirrou-se todo. Pensou “Coisa de Alice”; que assim de repente desistiu da vinda e não avisou, só pra ser meio crápula. E se conformava com a quase certeza de que era isso mesmo, quando viu uma sombra passar dentro do ônibus indo à porta. Surgiu-lhe de novo o sorriso não contido no rosto. E a boca também não se conteve dizendo “Alice?!”, mas a garota tinha um cabelo castanho e todo o resto que não era de Alice. Nem o sorriso. E a garota sorriu de um jeito estranho. Sorriu tão empaticamente, só que meio hesitante, misturando um espanto, e tudo junto.
Quando falou, perguntou se ele se chamava seu nome. Disse que "você não mudou nada!". E disse que seu nome era Joana.
Saturday, June 23, 2007
Quase-cidade
Moro em uma pseudo-cidade no interior do estado. É aquele negócio: é meio perigosa, é meio grande, meio movimentada, meio tudo. Não tem teatro nenhum, e o que tem é um único cinema que atualiza o filme dois meses depois do lançamento. Se o mocinho estiver muito ansioso e interessado mesmo, que o baixe na internet.
É um meio-termo estressante, às vezes. Ou a coisa é roça, roça, ou é cidade, a bagunça, transito com demasiado movimento de carros e de pessoas. E cidade naturalmente com o que se tem direito: a variedade de teatros e cinemas e outras áreas de lazer cultural (e de boêmia) a mais. Mas se é roça-roça, que tenha, no máximo permitido, paralelepípedos nas ruas. O barulho dos cavalos por aí, e, que outro veículo de locomoção sejam as carroças ou até mesmo bicicleta. Casinhas dos portões baixos dando aquela tranqüilidade bucólica; do chão de assoalho; e, é claro, aquelas histórias e lendas todas que se tem nesses lugares, que de tanto repetir, a mais absurda parece verdade, uma verdade que só acontece ali.
Agora, quase-cidade é uma desordem. Não é pequeno demais pra ser roça, nem grande suficiente pra ser cidade. E aí é aquela mistura louca de charrete com automóvel, barulho de cavalgada com motor de carro, casa pequena com projeto-de-prédio do lado.
Algo ainda sem definição no Aurélio.
Saturday, December 09, 2006
Um café
No final da aula, as mãos de Edgar pegariam a chave do carro na sua pasta de couro e o guiariam até sua casa, que continha a sua esposa fazendo café. E suas mãos foram pegas por uma de suas alunas e guiadas para um café da tarde na lanchonete do outro lado da rua. Idéia da menina, “dar uma distraída”. Nunca havia passado algum tempo fora da escola com um aluno. Nem aluna. Não costumava se dar intervalos, dava aulas e ai pra casa. E tampouco havia olhado direito pra garota. Menos ainda refletido sobre ela, sua aparência própria e sobre sua esposa, ao mesmo tempo. Refletido com sua mente, apenas. A garota só estava lá, sentada de pernas cruzadas frente a ele numa pequena mesa redonda sugando o café expresso do copo de vidro e foi falando sobre qualquer coisa trivial da escola. E ela falava sobre algo que, para o quesito ‘qualquer coisa’, falava sobre uma ‘qualquer coisa’ bem, nota ele.
Ela sorria, e às vezes gargalhava. Falou algo sobre ele aparentar sério. Falou parecendo um reclame, que ‘ele não era de interagir muito com os alunos’. A não ser quando falava dos livros, de Macabéa, de Bentinho... Mas “os professores de cursinho precisam ter aquele humor de professor de cursinho”. Colocou a mão sobre a dele pra falar. E transportou o pensamento dele, que estava em uma das carteiras da sala assistindo a si mesmo dar aula, para aquele toque da mão dela. Uma mão que fez seu pensamento não continuar entendendo aquele café apenas como um momento amigável de aluna e professor.
E sentiu-se um pouco ridículo. ‘É só uma mão’. Uma simples mão e seus dedos meio gordinhos. E não era seu jeito ser assim, ser maldoso tão facilmente. Menos com uma mão. O cabelo sempre molhado – com algumas falhas dos seus recém cinqüenta anos, a blusa sempre dentro da calça e os óculos de grau não o davam essa imagem. Mas ninguém poderia condenar um professor por ocorrerem segundas (ou terceiras ou quartas) intenções com uma aluna. Ou pelo menos essa condenação não partiria de nenhum outro professor. “Nem o mais santinho. Já é um clichê, ou karma”, pensa.
Talvez o assunto fosse motivo de uma incitação. Mas o assunto não estimularia nem um adolescente entupido de testosterona, e, ‘oras, não estimularia um quase-senhor, com décadas de vida sexual ativa’. Mas o estimulava, sim. A menina falava suavemente e, ao mesmo tempo, mostrava-se instigada com o que dizia, alguma coisa não muito aprofundada sobre a ditadura... O que voltou sua atenção ao assunto, como um professor de História e Literatura. Ou, voltou sua atenção para fingir não sentir as mãos dela. E quase que regride ao seu tempo de estudante - com direito a um daqueles panos coloridos “flower power” amarrados na cabeça e calça jeans boca-de-sino. Quase, se não estivesse com a mente mais presa naquele momento na lanchonete. E ainda, forçadamente, dividindo parte do pensamento na esposa, como conseqüência.
Depois de um tempo mal prestava atenção no que a garota falava, e só nos lábios se mexendo. E agora ela parecia falar com tanto domínio de Dom Casmurro, e nem sabia como havia chegado ao assunto. Ele ainda estava lá... nos motivos para sua incitação. É, ‘as pernas... ’, diziam os seus olhos, embaraçados por não conseguir disfarçar. As pernas sempre lhe chamavam atenção. Mais do que nádegas. Talvez porque já é clichê e carrega com elas várias outras finalidades não muito agradáveis... Como estas serem um ótimo local pra vacina intramuscular, entre outras coisas. Não que pernas também não sejam clichê. Mas ali pouco lhe importava o que era clichê. Essas saias pregueadas como a que a moça usava também eram comuns e, igualmente, o jeito intelectual-sexy, com aqueles óculos de armação vermelha. Podia se sentir em cena de filme. Podia até, como um professor de literatura e escritor-amador, escrever sobre isso depois, assinando com a frase ‘baseado em fatos reais’. “Acrescentaria alguns detalhes, é claro, pra melhorar a imagem de professor atraente”, pensa. “E por que não... Deve mesmo me achar atraente”, continua ele. O jeito insinuante como ela pegara em seu braço e o puxara até a lanchonete... Abraçara seu braço ao lado de sua cintura, roçando-o nesta, desde a porta da escola até atravessarem a rua. Certamente tocara no assunto de Dom Casmurro só pra lhe impressionar com sua boa interpretação. O jeito como balançava os seus cachos pretos e definidos para um lado e outro. E as pernas cruzadas. E o jeito que ela sentara. E o jeito que o olhava. “Ou sua mente que estava aumentando os fatos por querer?”, replica a si mesmo. Mas por que chamaria logo a ele para uma situação tão aleatória à escola, e nem precisava de notas na matéria pra fechar o ano. Talvez estivesse ficando um homem maldoso demais. Talvez não. Talvez pensasse demais. E da conclusão de que ela “eventualmente se insinua para mim”, chegou a que “essa garota sempre se insinuou pra mim” e ponto.
Ainda regredido ao tempo de estudante, ele se levanta subitamente da cadeira interrompendo o que ela falava e pede licença. Estava preocupado com o visual. Foi ao espelho e foi analisar se estava com olheiras – sem assumir a própria consciência que, com o tempo, já adquirira olheiras fixas. “Seu rosto é bonitinho... Mas ela nem é tão atraente... Não está com um corpo bom para sua idade... Tem até uns quilinhos a mais...”, tentava ajuizar-se. “A maior atração e vantagem é a sua juventude... quando chegar à minha idade, provavelmente não estará tão inteira como eu... E o dobro de olheiras, coitadinha”, continuava a analise pedante. “E você provavelmente não estará vivo pra ver, sua besta”, finalizou ao espelho. Quando já seguia em direção a porta, foi surpreendido com a menina ofegante entrando no banheiro e trancando a porta. Depois foi pra cima dele - e todas as suas dúvidas acabaram: “Sim, ela estava se insinuando pro coroa de cabelos castanho-esbranquiçados aqui”. Segurou nos punhos da garota, que tentava lhe beijar e dizer que o ama ao mesmo tempo, e disse um ecoante “pare com isso menina”. Os banheiros quase sempre têm eco; a frase soou com mais autoridade do que queria ter. Ela arregalou os olhos. E insistiu com a atitude. Edgar, já não mais tenso, a imobilizou e repetiu o firme e sonoro “pare menina”. E ela pára. Poderia até ter sido menos insensível, pensou. Mas nem pensou muito. Também era melhor não falar muito. Essas paixões são muito flexíveis a explicações - já poderia esperar de resposta a qualquer explicação que ele fizesse, alguma coisa como “Eu aceito ser a outra... Não, não é coisa de fase, eu te amo”, por aí. Melhor ser grosseiro e pronto. “Melhor até pra minha própria resistência”, pensa.
Os olhos dela enchem de lágrimas, e sai correndo do banheiro sem uma palavra a mais. Uma cena de drama para acrescentar à ‘sensação de filme’ dele. Sorri. “Essas garotas nessa idade quase sempre amam um professor. E a mira é quase sempre no de Literatura”, reflete. Olha-se no espelho. Por um momento não acredita na atitude que tomara. “Esses coroas nessa idade quase nunca negariam uma situação como essa”. Sorri de novo. E acredita na atitude que tomara... Ela acabara de dar a resposta que ele queria. A única coisa que ele queria. Uma boa “massagem no ego”. Viu-se atraente. E não estava vestindo calças boca-de-sino, e lá estavam as olheiras. Além do mais, preferia que os dramas e romances quentes ficassem nos livros. Deve ser verdade o que ouvira de uns escritores, que ‘em geral gostam mais de imaginar, sem precisar propriamente se arriscar’. Saiu do banheiro, tirou a chave da pasta e, finalmente, o guiara até sua casa. Entra na cozinha, e, como sempre, sente o cheiro de café. Café que mal havia tomado na lanchonete. E, naquela tarde, só desejava e só esperava um simples café. Sua mulher se aproxima com uma xícara nas mãos, vestindo uma espécie de blusão largo, que pouco desenhava seu corpo. Ele sorri, dizendo, “Sabe amor, você está com um corpo incrível para a sua idade”.
Pois é, então, esse negócio de professor... tinha que pedir um bocado de direitos autorais né. Sei lá, só pra distrair.
Ela sorria, e às vezes gargalhava. Falou algo sobre ele aparentar sério. Falou parecendo um reclame, que ‘ele não era de interagir muito com os alunos’. A não ser quando falava dos livros, de Macabéa, de Bentinho... Mas “os professores de cursinho precisam ter aquele humor de professor de cursinho”. Colocou a mão sobre a dele pra falar. E transportou o pensamento dele, que estava em uma das carteiras da sala assistindo a si mesmo dar aula, para aquele toque da mão dela. Uma mão que fez seu pensamento não continuar entendendo aquele café apenas como um momento amigável de aluna e professor.
E sentiu-se um pouco ridículo. ‘É só uma mão’. Uma simples mão e seus dedos meio gordinhos. E não era seu jeito ser assim, ser maldoso tão facilmente. Menos com uma mão. O cabelo sempre molhado – com algumas falhas dos seus recém cinqüenta anos, a blusa sempre dentro da calça e os óculos de grau não o davam essa imagem. Mas ninguém poderia condenar um professor por ocorrerem segundas (ou terceiras ou quartas) intenções com uma aluna. Ou pelo menos essa condenação não partiria de nenhum outro professor. “Nem o mais santinho. Já é um clichê, ou karma”, pensa.
Talvez o assunto fosse motivo de uma incitação. Mas o assunto não estimularia nem um adolescente entupido de testosterona, e, ‘oras, não estimularia um quase-senhor, com décadas de vida sexual ativa’. Mas o estimulava, sim. A menina falava suavemente e, ao mesmo tempo, mostrava-se instigada com o que dizia, alguma coisa não muito aprofundada sobre a ditadura... O que voltou sua atenção ao assunto, como um professor de História e Literatura. Ou, voltou sua atenção para fingir não sentir as mãos dela. E quase que regride ao seu tempo de estudante - com direito a um daqueles panos coloridos “flower power” amarrados na cabeça e calça jeans boca-de-sino. Quase, se não estivesse com a mente mais presa naquele momento na lanchonete. E ainda, forçadamente, dividindo parte do pensamento na esposa, como conseqüência.
Depois de um tempo mal prestava atenção no que a garota falava, e só nos lábios se mexendo. E agora ela parecia falar com tanto domínio de Dom Casmurro, e nem sabia como havia chegado ao assunto. Ele ainda estava lá... nos motivos para sua incitação. É, ‘as pernas... ’, diziam os seus olhos, embaraçados por não conseguir disfarçar. As pernas sempre lhe chamavam atenção. Mais do que nádegas. Talvez porque já é clichê e carrega com elas várias outras finalidades não muito agradáveis... Como estas serem um ótimo local pra vacina intramuscular, entre outras coisas. Não que pernas também não sejam clichê. Mas ali pouco lhe importava o que era clichê. Essas saias pregueadas como a que a moça usava também eram comuns e, igualmente, o jeito intelectual-sexy, com aqueles óculos de armação vermelha. Podia se sentir em cena de filme. Podia até, como um professor de literatura e escritor-amador, escrever sobre isso depois, assinando com a frase ‘baseado em fatos reais’. “Acrescentaria alguns detalhes, é claro, pra melhorar a imagem de professor atraente”, pensa. “E por que não... Deve mesmo me achar atraente”, continua ele. O jeito insinuante como ela pegara em seu braço e o puxara até a lanchonete... Abraçara seu braço ao lado de sua cintura, roçando-o nesta, desde a porta da escola até atravessarem a rua. Certamente tocara no assunto de Dom Casmurro só pra lhe impressionar com sua boa interpretação. O jeito como balançava os seus cachos pretos e definidos para um lado e outro. E as pernas cruzadas. E o jeito que ela sentara. E o jeito que o olhava. “Ou sua mente que estava aumentando os fatos por querer?”, replica a si mesmo. Mas por que chamaria logo a ele para uma situação tão aleatória à escola, e nem precisava de notas na matéria pra fechar o ano. Talvez estivesse ficando um homem maldoso demais. Talvez não. Talvez pensasse demais. E da conclusão de que ela “eventualmente se insinua para mim”, chegou a que “essa garota sempre se insinuou pra mim” e ponto.
Ainda regredido ao tempo de estudante, ele se levanta subitamente da cadeira interrompendo o que ela falava e pede licença. Estava preocupado com o visual. Foi ao espelho e foi analisar se estava com olheiras – sem assumir a própria consciência que, com o tempo, já adquirira olheiras fixas. “Seu rosto é bonitinho... Mas ela nem é tão atraente... Não está com um corpo bom para sua idade... Tem até uns quilinhos a mais...”, tentava ajuizar-se. “A maior atração e vantagem é a sua juventude... quando chegar à minha idade, provavelmente não estará tão inteira como eu... E o dobro de olheiras, coitadinha”, continuava a analise pedante. “E você provavelmente não estará vivo pra ver, sua besta”, finalizou ao espelho. Quando já seguia em direção a porta, foi surpreendido com a menina ofegante entrando no banheiro e trancando a porta. Depois foi pra cima dele - e todas as suas dúvidas acabaram: “Sim, ela estava se insinuando pro coroa de cabelos castanho-esbranquiçados aqui”. Segurou nos punhos da garota, que tentava lhe beijar e dizer que o ama ao mesmo tempo, e disse um ecoante “pare com isso menina”. Os banheiros quase sempre têm eco; a frase soou com mais autoridade do que queria ter. Ela arregalou os olhos. E insistiu com a atitude. Edgar, já não mais tenso, a imobilizou e repetiu o firme e sonoro “pare menina”. E ela pára. Poderia até ter sido menos insensível, pensou. Mas nem pensou muito. Também era melhor não falar muito. Essas paixões são muito flexíveis a explicações - já poderia esperar de resposta a qualquer explicação que ele fizesse, alguma coisa como “Eu aceito ser a outra... Não, não é coisa de fase, eu te amo”, por aí. Melhor ser grosseiro e pronto. “Melhor até pra minha própria resistência”, pensa.
Os olhos dela enchem de lágrimas, e sai correndo do banheiro sem uma palavra a mais. Uma cena de drama para acrescentar à ‘sensação de filme’ dele. Sorri. “Essas garotas nessa idade quase sempre amam um professor. E a mira é quase sempre no de Literatura”, reflete. Olha-se no espelho. Por um momento não acredita na atitude que tomara. “Esses coroas nessa idade quase nunca negariam uma situação como essa”. Sorri de novo. E acredita na atitude que tomara... Ela acabara de dar a resposta que ele queria. A única coisa que ele queria. Uma boa “massagem no ego”. Viu-se atraente. E não estava vestindo calças boca-de-sino, e lá estavam as olheiras. Além do mais, preferia que os dramas e romances quentes ficassem nos livros. Deve ser verdade o que ouvira de uns escritores, que ‘em geral gostam mais de imaginar, sem precisar propriamente se arriscar’. Saiu do banheiro, tirou a chave da pasta e, finalmente, o guiara até sua casa. Entra na cozinha, e, como sempre, sente o cheiro de café. Café que mal havia tomado na lanchonete. E, naquela tarde, só desejava e só esperava um simples café. Sua mulher se aproxima com uma xícara nas mãos, vestindo uma espécie de blusão largo, que pouco desenhava seu corpo. Ele sorri, dizendo, “Sabe amor, você está com um corpo incrível para a sua idade”.
Pois é, então, esse negócio de professor... tinha que pedir um bocado de direitos autorais né. Sei lá, só pra distrair.
Friday, December 08, 2006
coisas avulsas...
As boas sensações deveriam vir com um aviso prévio de quando estão pra terminar. Por correio, um telegrama. Ou e-mail, ‘com essa tecnologia toda dos tempos modernos’... Algum jeito de dizer que, a partir de determinado dia, você tem que se acostumar em ir “tirando essa cara de besta e colocando uma normal”, mesmo que a sua normal também seja de besta. São bestas diferentes. Uma besta contente não é só simplesmente um besta. E até se esquece que é um besta. Mas você é: está presumindo coisas que poderão (e este verbo na posição besta, até então, lê-se ‘irão, quase certo que irão’) acontecer com tanto ímpeto que esquece da inexistência de algum contrato ou indicação de um prazo de validade.
E a besta contente esboça aquele sorriso diante dos dias que, na verdade - para as pessoas normais-não-bestas - continuam sendo os dias injustos; as crianças ainda passam fome; morrem de AIDS na África; o mundo continua com contradições sociais e escravo da globalização; E as segundas-feiras que, na verdade, continuam vindo depois dos domingos maçantes. Esquece que domingos são geralmente maçantes (e daí também esquece daquela vontade de que criem um dia pra vir entre o domingo e segunda, pra recuperar da possível ‘leseira’ deste dia que se passa... Mas nada de uma “sétima” antes do sábado, porque o sábado perderia o seu gosto tradicional e prazeroso do alívio quase unânime. E que não adiantaria fazer de segunda-feira um feriado porque as segundas-feiras existem pra que as xinguemos – é o seu gosto tradicional muito unânime). Mas se esquece tudo isso.
Enfim, as bestas mais românticas – que a partir de agora serão ditos como ‘seres’, porque já está parecendo algo agressivo - só lembram da existência do calendário quiçá para marcarem as datas especiais, sejam elas num domingo, segunda ou quarta-feira.
É então que, um belo dia, na caixa de correio dos tais seres, nem conta de luz chega. Muito menos o tal aviso prévio. E os seres românticos, decoradores de datas e momentos, de quebra, viram os seres nostálgicos – lembram bastante da existência do calendário, que agora não mostra as possíveis datas especiais, mas sim o fim delas. E você se lembra que se esqueceu. E tudo parece pesar mais do que naturalmente pesa. As segundas continuam vindo depois dos domingos maçantes, e continuam morrendo de AIDS na África. E você pode chorar por isso também; e pela violência; contraste social; e pela escravidão à globalização e o neoliberalismo, onde o risco de exclusão meio ao mundo globalizado obriga os países pobres, em desvantagem, entrarem no mercado mundial.
E a besta contente esboça aquele sorriso diante dos dias que, na verdade - para as pessoas normais-não-bestas - continuam sendo os dias injustos; as crianças ainda passam fome; morrem de AIDS na África; o mundo continua com contradições sociais e escravo da globalização; E as segundas-feiras que, na verdade, continuam vindo depois dos domingos maçantes. Esquece que domingos são geralmente maçantes (e daí também esquece daquela vontade de que criem um dia pra vir entre o domingo e segunda, pra recuperar da possível ‘leseira’ deste dia que se passa... Mas nada de uma “sétima” antes do sábado, porque o sábado perderia o seu gosto tradicional e prazeroso do alívio quase unânime. E que não adiantaria fazer de segunda-feira um feriado porque as segundas-feiras existem pra que as xinguemos – é o seu gosto tradicional muito unânime). Mas se esquece tudo isso.
Enfim, as bestas mais românticas – que a partir de agora serão ditos como ‘seres’, porque já está parecendo algo agressivo - só lembram da existência do calendário quiçá para marcarem as datas especiais, sejam elas num domingo, segunda ou quarta-feira.
É então que, um belo dia, na caixa de correio dos tais seres, nem conta de luz chega. Muito menos o tal aviso prévio. E os seres românticos, decoradores de datas e momentos, de quebra, viram os seres nostálgicos – lembram bastante da existência do calendário, que agora não mostra as possíveis datas especiais, mas sim o fim delas. E você se lembra que se esqueceu. E tudo parece pesar mais do que naturalmente pesa. As segundas continuam vindo depois dos domingos maçantes, e continuam morrendo de AIDS na África. E você pode chorar por isso também; e pela violência; contraste social; e pela escravidão à globalização e o neoliberalismo, onde o risco de exclusão meio ao mundo globalizado obriga os países pobres, em desvantagem, entrarem no mercado mundial.
Tuesday, October 31, 2006
Livre livre-arbítrio...
Tinha uma boa vida para um rapaz de vinte anos. Tinha Verônica, de dezoito, um bom emprego na loja do pai, economias guardadas, morava na casa da mãe sem nenhuma vontade de sair da mordomia, comida e roupa passada, e na sua lista de desejos, era apenas uma coisa que lhe faltava. E que agora finalmente conseguira: Tirou a carta de habilitação. Seu sorriso, o mais escancarado do mundo, não era só por um pedaço verde de papel que o permitia dirigir por aí, era um contrato de liberdade. Eram as viagens sozinho de carro com aquelas músicas de estrada e vento nos cabelos, essas coisas. O pôr do sol retangular na frente dos seus olhos, e estes com o ray-ban. Aqueles mapas enormes com o roteiro das cidades. As cidades. E primordial na lista, a cidade de Verônica. Ela morava a duas horas e meia da sua cidade, em uma maior. Poderia vê-la sempre que quisesse. E estar longe da sua cidade sempre que quisesse, “sabe como é, cidade pequena todo mundo é celebridade”. Havia testemunhas de seus passos e das suas saídas em quase toda esquina. E era chegar a manhã seguinte para ouvir da goela de sua mãe super-protetora que “fulano te viu lá, trocando as pernas com um copo sempre cheio na mão! Acha isso bonito?”. A bebida estava no topo da sua lista, mas a mãe também, e, igualmente, a liberdade. E isso não seria mais problema, longe da sua cidade e indo até Verônica, com o volante nas mãos.
Seu salário não era tanto, e parcelou em infinitas vezes um carro vermelho usado. E o ‘mais importante: já estava equipado com CD player’. Quis fazer surpresa à namorada, colocou seus óculos ‘a lá Stallone’, aumentou a música, cigarros, pendurou dois dados no retrovisor, saiu sentindo-se o mais dono de si do mundo, com o céu colorido de tardinha. E depois de algum tempo de volante e cantoria, estaciona em uma lanchonete de beira de estrada, senta em uma mesa, olha pro uísque e pede um cappuccino. “Na estrada eu tenho juízo”, ponderou.
Um tempo depois que foi reparar no lugar, parecia mais um ponto de encontro de ‘motoqueiros doidões’. Pelo menos um pedaço de couro preto tinha que ter nas roupas dos barbudões, que trajavam preto. E as mulheres, pelo menos um pedaço de barriga de fora. E piercing, e tatuagens, e cigarro. Agora reparava na suntuosa ‘barriga mais de fora’ do lugar, uma mulher dos cabelos ondulados debruçada no balcão, na sua direção. E nenhum barbudo do lado, ou perto, ou com o braço enlaçando sua cintura de fora. Depois de um tempo olhando a barriga, foi notar que ela o encarava. O olhar fito da mulher chegou faze-lo tremer, e lhe voltou à cabeça que “Na estrada eu tenho juízo”. De um jeito estranho, ela também lhe causava medo, naquela pose toda. Continuou tomando seu cappuccino lutando com si mesmo pra agir ‘naturalmente, como se não fosse com ele’. Mas "é, meu Deus, é", pensa. Foi ao banheiro, que por sorte ficava no lado oposto da mulher. Ouviu umas conversas de uns dos clientes motoqueiros do local, que decidiam ali, urinando, qual seria a próxima parada do grupo. Sentiu vontade de vestir uma calça daquelas e se enfiar no meio deles, e fazer palpite com a 'pose de liberdade toda' também.
Na volta pediu a conta e mais cigarros. Junto com o papel da conta veio um papel com um número de celular e um nome rabiscado em baixo, “Charlote”. Deu um sorriso de lado, achando o nome meio esquisito. "Meio esquisito" no sentido 'meio feio', e agradável ao mesmo tempo, por estar no sentido 'meio exótico' também. E ‘de meio feio, só o nome’. Dobrou e guardou no bolso, pagou a conta e viu uma foto de Verônica na carteira. Enquanto entrava no carro, estava Charlote o encarando no estacionamento, de longe. O ego foi ao extremo, e o “eu tenho juízo” também, acelerou sem olhar de novo no retrovisor. Já estava escuro, e a cidade já estava perto. Aumentou a música pra parar de pensar e se concentrar nas emoções anteriores, a primeira viagem de carro, indo até Verônica que só via eventualmente, e chegando sem precisar de ônibus.
Quando ela o viu na porta da sua casa, pulou no seu pescoço, e depois viu atrás dele, o carro, e ele foi mostrá-la. A chamou pra dar umas voltas, mostrou embaixo do banco três garrafas de bebida. Rodaram a cidade toda, os lugares todos. Aquele monte de pessoas, e ele com o uísque na mão e Verônica na outra, e ninguém pra dizer que “o copo estava lá, sempre cheio”. E depois, não tinha mais ninguém mesmo, com o carro estacionado em um lugar qualquer. E sem condições pra dirigir, dormiram lá mesmo, nos bancos deitados. Não muito confortável, mas estranhamente melhor do que seu quarto, sua cama. As viagens se repetiram pelos próximos fins de semana. E, aquele bar, evitou a parar mais por lá.
Quando mais uma vez já saia de casa, pegara as cartas da caixa de correio e entrara no carro. Entre as contas tinha uma carta de Verônica. Enorme. Mas entre todas aquelas linhas, uma frase se destacava. Quase que piscava. Ela escreveu que “olha amor, nós teremos um filho”. Tirou os óculos escuros. Leu repetidas vezes pra ver se não era alguma interpretação errada da letra meio tombada dela. E nada alterava a frase. Levou a mão ao bolso pra pegar o celular e tentar, trêmulo, discar o número dela, veio um papelzinho amassado junto. Uma letra tombada também, escrito “Charlote”, e um número. Olhou de novo para aquela carta. Em seguida, pra menor, de motorista. O viu naquele mesmo carro, levando o filho (que depois acabaria sendo ‘os filhos’) para a escola, chegando em casa, desabotoando a camisa e nada de tatuagens. Entrou em casa, deu um beijo na testa da mãe e disse que ‘voltava logo’. Como se fosse uma escolha, e, como se pudesse escolher, escolheu ir embora, escolheu a carta menor, e o papelzinho. Seus próximos planos primordiais seriam só fazer uma tatuagem, uma prova para carteira de moto numa cidade. Numa cidade qualquer. Ia decidir por aí.
Seu salário não era tanto, e parcelou em infinitas vezes um carro vermelho usado. E o ‘mais importante: já estava equipado com CD player’. Quis fazer surpresa à namorada, colocou seus óculos ‘a lá Stallone’, aumentou a música, cigarros, pendurou dois dados no retrovisor, saiu sentindo-se o mais dono de si do mundo, com o céu colorido de tardinha. E depois de algum tempo de volante e cantoria, estaciona em uma lanchonete de beira de estrada, senta em uma mesa, olha pro uísque e pede um cappuccino. “Na estrada eu tenho juízo”, ponderou.
Um tempo depois que foi reparar no lugar, parecia mais um ponto de encontro de ‘motoqueiros doidões’. Pelo menos um pedaço de couro preto tinha que ter nas roupas dos barbudões, que trajavam preto. E as mulheres, pelo menos um pedaço de barriga de fora. E piercing, e tatuagens, e cigarro. Agora reparava na suntuosa ‘barriga mais de fora’ do lugar, uma mulher dos cabelos ondulados debruçada no balcão, na sua direção. E nenhum barbudo do lado, ou perto, ou com o braço enlaçando sua cintura de fora. Depois de um tempo olhando a barriga, foi notar que ela o encarava. O olhar fito da mulher chegou faze-lo tremer, e lhe voltou à cabeça que “Na estrada eu tenho juízo”. De um jeito estranho, ela também lhe causava medo, naquela pose toda. Continuou tomando seu cappuccino lutando com si mesmo pra agir ‘naturalmente, como se não fosse com ele’. Mas "é, meu Deus, é", pensa. Foi ao banheiro, que por sorte ficava no lado oposto da mulher. Ouviu umas conversas de uns dos clientes motoqueiros do local, que decidiam ali, urinando, qual seria a próxima parada do grupo. Sentiu vontade de vestir uma calça daquelas e se enfiar no meio deles, e fazer palpite com a 'pose de liberdade toda' também.
Na volta pediu a conta e mais cigarros. Junto com o papel da conta veio um papel com um número de celular e um nome rabiscado em baixo, “Charlote”. Deu um sorriso de lado, achando o nome meio esquisito. "Meio esquisito" no sentido 'meio feio', e agradável ao mesmo tempo, por estar no sentido 'meio exótico' também. E ‘de meio feio, só o nome’. Dobrou e guardou no bolso, pagou a conta e viu uma foto de Verônica na carteira. Enquanto entrava no carro, estava Charlote o encarando no estacionamento, de longe. O ego foi ao extremo, e o “eu tenho juízo” também, acelerou sem olhar de novo no retrovisor. Já estava escuro, e a cidade já estava perto. Aumentou a música pra parar de pensar e se concentrar nas emoções anteriores, a primeira viagem de carro, indo até Verônica que só via eventualmente, e chegando sem precisar de ônibus.
Quando ela o viu na porta da sua casa, pulou no seu pescoço, e depois viu atrás dele, o carro, e ele foi mostrá-la. A chamou pra dar umas voltas, mostrou embaixo do banco três garrafas de bebida. Rodaram a cidade toda, os lugares todos. Aquele monte de pessoas, e ele com o uísque na mão e Verônica na outra, e ninguém pra dizer que “o copo estava lá, sempre cheio”. E depois, não tinha mais ninguém mesmo, com o carro estacionado em um lugar qualquer. E sem condições pra dirigir, dormiram lá mesmo, nos bancos deitados. Não muito confortável, mas estranhamente melhor do que seu quarto, sua cama. As viagens se repetiram pelos próximos fins de semana. E, aquele bar, evitou a parar mais por lá.
Quando mais uma vez já saia de casa, pegara as cartas da caixa de correio e entrara no carro. Entre as contas tinha uma carta de Verônica. Enorme. Mas entre todas aquelas linhas, uma frase se destacava. Quase que piscava. Ela escreveu que “olha amor, nós teremos um filho”. Tirou os óculos escuros. Leu repetidas vezes pra ver se não era alguma interpretação errada da letra meio tombada dela. E nada alterava a frase. Levou a mão ao bolso pra pegar o celular e tentar, trêmulo, discar o número dela, veio um papelzinho amassado junto. Uma letra tombada também, escrito “Charlote”, e um número. Olhou de novo para aquela carta. Em seguida, pra menor, de motorista. O viu naquele mesmo carro, levando o filho (que depois acabaria sendo ‘os filhos’) para a escola, chegando em casa, desabotoando a camisa e nada de tatuagens. Entrou em casa, deu um beijo na testa da mãe e disse que ‘voltava logo’. Como se fosse uma escolha, e, como se pudesse escolher, escolheu ir embora, escolheu a carta menor, e o papelzinho. Seus próximos planos primordiais seriam só fazer uma tatuagem, uma prova para carteira de moto numa cidade. Numa cidade qualquer. Ia decidir por aí.
Tuesday, September 05, 2006
O tédio da placidez...
Até uma pedra tinha mais anseio. Sentada naquele banco de cimento, onde mal se via o cimento, rabiscado de nomes de desconhecidos... Pensando como é irônico o jeito que ‘cada um tem de pensar ser o protagonista entre os outros’. Querendo ir para lugar nenhum. Mas já havia constatado que ‘infelizmente’ não havia ônibus pra lá. Nada ocorria. E nada ia ocorrer porque estava aguardando que ocorresse, “são 24 horas em um dia e a chance de ser tedioso é talvez maior, pois quando se espera os minutos são mais observados”, matutava.Saia mais um, era o terceiro ônibus que passaria pela sua casa. E não queria entrar nele, e em nenhum que passasse perto de lá. O relógio já mostraria cinco horas da tarde, tinha aula no curso logo às seis horas, estava naquele ponto desde as três. Pessoas chegando e sentando, pessoas saindo, pessoas atrasadas correndo atrás do ônibus acenando com a mão. E ela lá, na placidez em demasia, sem pressa, sem vontade, sem nada. Pensando se seriam elas interessantes tanto quanto são afobadas.
Iam dar cinco e meia, precisava tomar alguma atitude, afinal, ‘não podia deixar escapar aos olhos das pessoas que sua vida estava pacata e desgastante’, sentia-se mais desgastada ainda por chegar a pensar nisso. Notara um rapaz de boné sentado ao seu lado, uma camisa preta que vestia, dizia em branco, “Carpe Diem”. “Mas que porcaria é Carpe Diem”, pensou. “Também é uma porcaria essa vida conformista”, replicou pra si mesma. “E se eu enfartar, perdesse meu lado esquerdo. Não, pelo menos de susto ou surpresa, não há como eu enfartar. E eu faço exercícios”. O rapaz da camisa parecia feliz, inabalavelmente feliz. Sorria para todos e dizia bom dia. Começou a invejá-lo por um momento... Parecia tão ocupado e, ao mesmo tempo, despreocupado. Imaginando o que ele poderia fazer na vida – ele, vivendo naquele mesmo mundo dela, mas, notavelmente, com outros olhos. Sua visão de mundo era cética, sabia ela, e ela se dava a razão. Era balconista de uma lanchonete e fazia curso pré-vestibular para ingressar em Medicina, e só assim seria se fosse em universidade pública. Mas nem nunca sonhara com Medicina. Gostava de piano, no entanto não tinha muita destreza e dinheiro ou tempo pra tentar melhorar. Além de tudo, “não dá dinheiro”. “O respeito pertence à classe dominante, e eu estou longe dos dois”. Sentia-se apenas mais uma. Na escola, era mais uma no meio do monte de crianças que a professora dizia no plural, “Vocês tem que estudar pra ser alguém!”, e quando começara o emprego na lanchonete, com o seu trabalho braçal e nada intelectual, ouvia “faça direito”. Ainda tinha de encarar a filha esnobe do patrão, sentindo-se uma rainha, olhando-a de lado quando limpava as mesas e varria o chão. Chegava a ter pesadelos com ela, e sonhos onde cuspia na ‘cara esnobe’ e cortava seus cabelos longos até a raiz. Odiava mais ainda o fato de não poder replicar a garota insolente. “Maldito mundo capitalista... O dinheiro do seu pai, meu patrão, é o dinheiro do curso”.
Um ônibus parou no ponto, e o rapaz da camisa levantou-se e foi entrar nele. Como se quisesse satisfações da felicidade imutável que ele carregava, sentiu, depois de tanto “nada” e oco, uma vontade. Segui-lo. Sentou-se no assento atrás dele, discretamente – como um detetive, que não pode ser notado, observando cada gesto dele. Um tempo depois, o garoto tirou um livro da bolsa que carregava. Depois de muitas tentativas falhas de elevar a cabeça por cima dos ombros pra espreitar o conteúdo, percebera que era um livro relacionado à Biologia, lendo um título relacionado à ‘Neoplasia’. “Talvez fizesse medicina”, pensou. Por um instante, ocorreu em puxar assunto com ele, mas estragaria toda a ‘perseguição’. Após o ônibus muito rodar, parar, subir e descer, já estava sentindo-se farta com aquilo. “Que idiotice a minha”, pensara. Mas talvez estivesse só criando um pretexto para faltar à aula, que também estava sem ânimo. ‘Talvez estivesse atraída por ele fisicamente, e depois contaria a ele, rindo e tomando um sorvete, que ficou subitamente interessada em seu dia’, fantasiava. Finalmente o garoto guardara o livro e levantara até a porta de saída, e ela logo fora atrás. Seus passos o levaram direto a uma clínica médica, do câncer. “Deve fazer caridade aos leucêmicos também”, pensou. Entrou discretamente junto dele, e ficou observando. Observou também quando ele tirou o boné, e a ausência total dos cabelos. E logo, o chamaram para a sala de quimioterapia.
Saiu devagar e um pouco pasma do lugar, soltou uma risada desconcertada e sem graça pra si mesma, e logo veio em sua cabeça, “Por isso o Carpe Diem.”. “As pessoas só lembram de viver quando lembram que vão morrer... Nos outros dias elas só existem”, refletiu. Parecia quase uma idéia. E no dia seguinte, acordou tarde e chegou propositadamente atrasada no trabalho pra ouvir sermões da filha do chefe e, depois de ouvir calada, cuspiu em sua cara, seguindo de uma bofetada, no meio de todos os clientes. Foi a protagonista da lanchonete naquele momento. Depois fora a protagonista da rua quando subitamente arrancou a blusa e saiu andando entre as pessoas – dificilmente gravariam seu rosto no meio da grande cidade. Tomou incontáveis doses de cachaça às duas horas da tarde e caiu bêbada pela calçada. Rasgou dinheiro, seus trocados no bolso, xingando o capitalismo. Acordou no chão do posto de saúde com o braço furado de glicose. Com o dinheiro do ônibus rasgado, sobrou ir andando até sua casa. Fora a mais notada e, ironicamente, não fora si mesma por aquele dia. Talvez fosse efeito do final da bebedeira, ou não, mas de repente não cabia dentro de si, desconfortável em seu próprio corpo. Enfim, “não estava preparada para ser notável”.
Quando, exausta, chegara em casa, encontrara umas cartas ao chão, frente à porta. Contas de luz, de aluguel e do curso, e por ventura, um “reprovado no vestibular”, da universidade. Apesar da amnésia alcoólica, podia lembrar muito bem do glorioso tabefe e da demissão - fora antes da cachaça. ‘Escrava monetária’, resmungara. Pelo menos era sábado. No dia seguinte, foi a protagonista de uma coluna estreita, quase exclusa, de um jornal local de domingo. E, até no título de reportagem, era só mais uma garota... Uma “Garota encontrada morta, por suicídio, em seu apartamento”.
Tava vendo aqui... Antes conseguia escrever um a cada dois dias... Depois, a cada dez... Agora perdi o controle já. Mesmo se eu tivesse algum futuro nisso, seria perturbador... Já que não tem como obrigar a ‘inspiração’ a vir (e a preguiça a ir). Ah, enfim, enfim, beijos a quem lê.
Monday, August 14, 2006
Por fados
Demasiado na vida curta
Seis da manha e Iolanda sentada na cama, olhando o pano da cortina que balançava. Ainda tinha meia hora pra levantar, acordar o marido, tomar um banho, café da manhã, pegar os livros e ir pra escola. Mas o seu rosto não tinha expressão de vontade pra fazer isso de novo. Eram quase vinte e cinco anos fazendo o mesmo caminho, e, os vinte anteriores, era só uma menina que estudava e namorava nas horas vagas. Agora dá aula para as meninas que estudam e namoram nas horas vagas. “Passara tão rápido”.
Conheceu o marido na escola, era um dos professores, e ela, a sua ninfeta. Gostava de amores polêmicos. Um cara mais velho do que ela quinze anos em uma cidadezinha do interior já era o suficiente para tal, e ainda, professor. Ninguém acreditava que daria certo, e casaram. O marido professor lhe ensinou não só a volúpia, mas a ser professora. E tornou-se, notavelmente, uma excelente professora de literatura e alemão. Tornou-se tão notável que fora dar aula em colégio grande, por isso ainda levantava todos os dias de manhã, mesmo com sua vida morna. Seu marido já não fazia cada dia parecer um romance, parecia mais ter se deixado derrotar pela idade, ou pela rotina. Estavam frios. Já pensava nisso todas as manhas, o olhando dormir, antes de entrar no seu carro vermelho e ir pra escola. O semestre voou. Tinham admiradores novos na sala. Havia um garoto que chegava de madrugada e sentava na primeira cadeira, todos os dias. Mas não garantia a primeira cadeira por motivo de gostar de literatura ou línguas. Preferia, discretamente, quando não olhava fitamente para os olhos de Iolanda, olhava para as pernas. E ela era a única que não notava.
Ela recolhia seus livros da mesa e passava o batom vermelho pra ir embora, já à noite. E vê um garoto se aproximando, com o peito estufado, olhos fitos e mãos trêmulas. Ele era Maurício, mas podia ser João ou qualquer outro, pois nem seu nome ela tinha decorado ainda.
Mas era Maurício, o garoto prodígio que descreviam como “intelectual, dramático e egocêntrico”. Talvez nutrisse tanto o seu jeito intelectual que não dava muita preocupação para as súbitas instâncias que surgiam de flertar. Tinha porte pra ser atraente, mas nem se importava. Era aquele que durante todos os seus dezessete anos tivera apenas um relacionamento, sua ‘paixão fulminante’, e morreria por uma garota dos bustos redondos, cabelos sedosos e a sempre língua gelada de sorvete. Talvez tarde, mas cedo visto a parte de seu tempo dedicado aos livros. E cedo pelas suas exigências ao pensar em relacionamentos. Quando surgia uma conversa com alguém do sexo oposto, tinha de levar o assunto ao seu mais recente livro filosófico que estava a ler, e, de certa forma, com leve pretensão para quem sabe achar alguém que correspondesse aos seus interesses. Mesmo quando abriu exceção pra isso seduzido pela garota, já esperava pra logo uma despedida. “Via muita TV, tomava muito sorvete, se preocupava demais com os cabelos”.
Parou na sua frente, e lá ficou, mudo. Então que ela quebra o silêncio, e se espanta com a resposta do “Pois não?”. Maurício coloca uma carta entre as mãos dela, com um número de telefone, e sai mudo da sala. A carta romanceada, vertida de todos os momentos utópicos que ele desejava, e com os momentos reais em que eles trocaram palavras, primeiro, despertara risada. Amassara na mão quando o marido chegou deitando ao seu lado pra dormir - do mesmo jeito que fez com a carta que ele enviou, quando sua mãe entrou no quarto pra o ‘boa noite’, uns anos atrás. Dormiu pensando em como desesperançar o garoto. Na manha seguinte, ao olhar mais uma vez o marido dormindo na cama de costas para ela, já não era mais só uma tolice adolescente. Olhou no espelho e não se deparou com um simples objeto para o marido, como se sentia, mas sim o objeto para um garoto. De fato, com muito mais valor. Acelerou o carro com um deleite que não tinha a muito tempo, de sair. Viu no retrovisor, entre um sinal e outro, que ainda estava sorrindo.
Coloca um papel na mesa de Mauricio, e sai muda da sala. E acelerou o carro com mais vontade ainda, indo para a rua que haviam combinado. Eram todos os dias, no carro vermelho lá estacionado, escondido, o romance aventureiro de Iolanda e, em casa, ‘a carga horária das aulas aumentou’. “Sabe, eu morreria por você”, dizia o clichê do garoto extasiado, abraçado a professora. Se morreria, naquele momento, certamente. Sem quiçá. “Olha garoto, sabe que, teoricamente, eu partirei primeiro”, responde ela. Sussurrava, mais precisamente, sem o peso da diferença de idade no tom de voz. E os mais íntimos não conseguiam mais lembrar adjetivos para descrever o garoto, eram mais unânimes as frases prontas como, “Maurício, ah, está amando, este menino”.
Iolanda voltava pra casa com o sorriso causado por ‘mais um dia de aventura’, Mauricio voltava com o sorriso esperançoso... Não de mais um dia no carro estacionado, escondido, mas a esperança dos seus planos, casamento, mulher ideal, filhos, um antônimo de aventura. Maurício não podia pensar em ninguém mais apaixonante pra sua vida toda, que não fosse Iolanda, a mulher culta e experiente e ainda fisicamente atraente. Iolanda valia mais do que todas as garotas da sala juntas.
Quase deu taquicardia na mulher quando descobriu. A viu com algumas rugas a mais, como o marido Maurício, mais novo como ela, farto de sua vida pacata ao lado da velha, querendo aventura. Era só o que conseguia pensar. “E vai chegar um dia que ele vai embora”. E
Chegou então um próximo dia, Iolanda mal olhara para o garoto em sala, nem mandara os ‘beijos perigosos se alguém percebesse’. Mas ele se tranqüilizou ao ver que estava lá, o carro vermelho o esperando, no mesmo lugar. E antes que ele pudesse falar que notou o comportamento estranho da professora, ela o pede para sentar, olhando só para frente, com olhos no volante. Fria. E começou a conversa. Falava bem, o garoto ficou pálido e quieto, e deu-se no monólogo. Depois de um tempo, ele já não ouvia mais nada, ecoando a frase em sua cabeça, “não embraveça por eu estar indo, porque, teoricamente, eu partirei primeiro. Entschuldigung”.
E bastou o próximo dia. O corpo de Maurício foi encontrado em seu quarto. A autopsia constatou suicídio. Em investigações, Iolanda foi procurada para maior explicação, mas disse só que “ele perdeu o seu egocentrismo, e o amor próprio. Nem se matou por mim. Matou-se por si mesmo”. Triste ou não, as aventuras era o que não iria lhe faltar. A sala estava sempre cheia, e ela passou a reparar mais nos olhos dos garotos.
Ah, então, não agradei muito desse resultado. Como já havia comentado dele antes, não pude deixar passar. Pra quem vem: a aparente falta de atualização é realmente uma soma de vários tipos de preguiça com volta às aulas e, só um pouco mais de preguiça. Eu vou parar com esta.
Seis da manha e Iolanda sentada na cama, olhando o pano da cortina que balançava. Ainda tinha meia hora pra levantar, acordar o marido, tomar um banho, café da manhã, pegar os livros e ir pra escola. Mas o seu rosto não tinha expressão de vontade pra fazer isso de novo. Eram quase vinte e cinco anos fazendo o mesmo caminho, e, os vinte anteriores, era só uma menina que estudava e namorava nas horas vagas. Agora dá aula para as meninas que estudam e namoram nas horas vagas. “Passara tão rápido”.
Conheceu o marido na escola, era um dos professores, e ela, a sua ninfeta. Gostava de amores polêmicos. Um cara mais velho do que ela quinze anos em uma cidadezinha do interior já era o suficiente para tal, e ainda, professor. Ninguém acreditava que daria certo, e casaram. O marido professor lhe ensinou não só a volúpia, mas a ser professora. E tornou-se, notavelmente, uma excelente professora de literatura e alemão. Tornou-se tão notável que fora dar aula em colégio grande, por isso ainda levantava todos os dias de manhã, mesmo com sua vida morna. Seu marido já não fazia cada dia parecer um romance, parecia mais ter se deixado derrotar pela idade, ou pela rotina. Estavam frios. Já pensava nisso todas as manhas, o olhando dormir, antes de entrar no seu carro vermelho e ir pra escola. O semestre voou. Tinham admiradores novos na sala. Havia um garoto que chegava de madrugada e sentava na primeira cadeira, todos os dias. Mas não garantia a primeira cadeira por motivo de gostar de literatura ou línguas. Preferia, discretamente, quando não olhava fitamente para os olhos de Iolanda, olhava para as pernas. E ela era a única que não notava.
Ela recolhia seus livros da mesa e passava o batom vermelho pra ir embora, já à noite. E vê um garoto se aproximando, com o peito estufado, olhos fitos e mãos trêmulas. Ele era Maurício, mas podia ser João ou qualquer outro, pois nem seu nome ela tinha decorado ainda.
Mas era Maurício, o garoto prodígio que descreviam como “intelectual, dramático e egocêntrico”. Talvez nutrisse tanto o seu jeito intelectual que não dava muita preocupação para as súbitas instâncias que surgiam de flertar. Tinha porte pra ser atraente, mas nem se importava. Era aquele que durante todos os seus dezessete anos tivera apenas um relacionamento, sua ‘paixão fulminante’, e morreria por uma garota dos bustos redondos, cabelos sedosos e a sempre língua gelada de sorvete. Talvez tarde, mas cedo visto a parte de seu tempo dedicado aos livros. E cedo pelas suas exigências ao pensar em relacionamentos. Quando surgia uma conversa com alguém do sexo oposto, tinha de levar o assunto ao seu mais recente livro filosófico que estava a ler, e, de certa forma, com leve pretensão para quem sabe achar alguém que correspondesse aos seus interesses. Mesmo quando abriu exceção pra isso seduzido pela garota, já esperava pra logo uma despedida. “Via muita TV, tomava muito sorvete, se preocupava demais com os cabelos”.
Parou na sua frente, e lá ficou, mudo. Então que ela quebra o silêncio, e se espanta com a resposta do “Pois não?”. Maurício coloca uma carta entre as mãos dela, com um número de telefone, e sai mudo da sala. A carta romanceada, vertida de todos os momentos utópicos que ele desejava, e com os momentos reais em que eles trocaram palavras, primeiro, despertara risada. Amassara na mão quando o marido chegou deitando ao seu lado pra dormir - do mesmo jeito que fez com a carta que ele enviou, quando sua mãe entrou no quarto pra o ‘boa noite’, uns anos atrás. Dormiu pensando em como desesperançar o garoto. Na manha seguinte, ao olhar mais uma vez o marido dormindo na cama de costas para ela, já não era mais só uma tolice adolescente. Olhou no espelho e não se deparou com um simples objeto para o marido, como se sentia, mas sim o objeto para um garoto. De fato, com muito mais valor. Acelerou o carro com um deleite que não tinha a muito tempo, de sair. Viu no retrovisor, entre um sinal e outro, que ainda estava sorrindo.
Coloca um papel na mesa de Mauricio, e sai muda da sala. E acelerou o carro com mais vontade ainda, indo para a rua que haviam combinado. Eram todos os dias, no carro vermelho lá estacionado, escondido, o romance aventureiro de Iolanda e, em casa, ‘a carga horária das aulas aumentou’. “Sabe, eu morreria por você”, dizia o clichê do garoto extasiado, abraçado a professora. Se morreria, naquele momento, certamente. Sem quiçá. “Olha garoto, sabe que, teoricamente, eu partirei primeiro”, responde ela. Sussurrava, mais precisamente, sem o peso da diferença de idade no tom de voz. E os mais íntimos não conseguiam mais lembrar adjetivos para descrever o garoto, eram mais unânimes as frases prontas como, “Maurício, ah, está amando, este menino”.
Iolanda voltava pra casa com o sorriso causado por ‘mais um dia de aventura’, Mauricio voltava com o sorriso esperançoso... Não de mais um dia no carro estacionado, escondido, mas a esperança dos seus planos, casamento, mulher ideal, filhos, um antônimo de aventura. Maurício não podia pensar em ninguém mais apaixonante pra sua vida toda, que não fosse Iolanda, a mulher culta e experiente e ainda fisicamente atraente. Iolanda valia mais do que todas as garotas da sala juntas.
Quase deu taquicardia na mulher quando descobriu. A viu com algumas rugas a mais, como o marido Maurício, mais novo como ela, farto de sua vida pacata ao lado da velha, querendo aventura. Era só o que conseguia pensar. “E vai chegar um dia que ele vai embora”. E
Chegou então um próximo dia, Iolanda mal olhara para o garoto em sala, nem mandara os ‘beijos perigosos se alguém percebesse’. Mas ele se tranqüilizou ao ver que estava lá, o carro vermelho o esperando, no mesmo lugar. E antes que ele pudesse falar que notou o comportamento estranho da professora, ela o pede para sentar, olhando só para frente, com olhos no volante. Fria. E começou a conversa. Falava bem, o garoto ficou pálido e quieto, e deu-se no monólogo. Depois de um tempo, ele já não ouvia mais nada, ecoando a frase em sua cabeça, “não embraveça por eu estar indo, porque, teoricamente, eu partirei primeiro. Entschuldigung”.
E bastou o próximo dia. O corpo de Maurício foi encontrado em seu quarto. A autopsia constatou suicídio. Em investigações, Iolanda foi procurada para maior explicação, mas disse só que “ele perdeu o seu egocentrismo, e o amor próprio. Nem se matou por mim. Matou-se por si mesmo”. Triste ou não, as aventuras era o que não iria lhe faltar. A sala estava sempre cheia, e ela passou a reparar mais nos olhos dos garotos.
Ah, então, não agradei muito desse resultado. Como já havia comentado dele antes, não pude deixar passar. Pra quem vem: a aparente falta de atualização é realmente uma soma de vários tipos de preguiça com volta às aulas e, só um pouco mais de preguiça. Eu vou parar com esta.
Wednesday, July 26, 2006
Acidente...

“Diga-me do que se lembra... Qualquer coisa, pode dizer.”
“Entrei no carro com a sensação de ‘melhor noite da minha vida’. Luisa tinha prometido que seria ontem, finalmente, se eu conseguisse pegar o carro e afastar da cidade. E eu fui o melhor filho do mundo desde a segunda feira, contando pontos positivos para o carro disponível no fim de semana. São vinte anos passados, o máximo que já consegui foi fazer as minhas mãos passearem nas curvas femininas, e nada mais. Estava um virgem desesperado, e claro, ninguém poderia imaginar isso.
E ela era do tipo que a gente descreve ‘a nora que mamãe quer’, principalmente quando se pergunta à ela, só falta a modéstia. Talvez melhor se faltasse um pouco de sonhos encantados, mas certamente brincou muito de boneca e viu muitos filmes românticos da Disney na infância. Que mal à nisso, eu sou o príncipe do cavalo branco dela. Seria legal se pudesse ser um cavalo branco, mas este é o carro. Ao menos, era branco. Eu voltava do curso, ligava o vídeo game, meu vicio desde os quinze, e ela, Luísa, ligava pra mim. Não era a única que gostava de passear no meu ‘cavalo branco’, e não era a única que eu passeava. E aí que minha mãe repetia, “quem têm muitas, fica sem nenhuma”. Mas, voltando ao quesito ‘nora que mamãe quer’, ela perdia um pouco, era meio safada. A gente na mesa, Luisa acariciando minha perna na frente da minha mãe, e eu fingindo que o vermelho no meu rosto é da lagosta.”
O médico riu simpaticamente.
“Em outras palavras, era menina pra aventura. Ela me chamava de Gutinho. Só que o “ti” era uma mistura de “ti” com “x” e “l”, pra ficar mais picante, fazer um charme com a língua eu acho. E aquele rosa todo dela de filha do papai era só fachada quando a gente tava junto. Mas, eu não procuro nenhuma nora pra minha mãe, nem ainda pensei em achar, então, sempre que ela ligava, eu estava disponível. Quando se faz fantasia pro futuro, não se vive o tempo presente por inteiro, é isso... Não sei o curso que quero fazer na faculdade, e vou decidir na fila de inscrição. Isso é vício. E se eu tivesse morrido nesse acidente, ia ficar muito puto se tivesse planos. Eu prefiro muito mais aproveitar agora a me imaginar quando já não estiver inteiro, ou for o Doutor Pelanca. É o maior fantasma dos homens, e do corpo humano, a idade. Ninguém ta preocupado se for enfartar amanha, nem lembra do coração, a gente se preocupa com o maior órgão humano, a pele, os nossos preciosos colágenos. Ah, os dela são em grande quantidade, deixa tudo levantadinho. Eu nem sei se ela me causa tanto desejo como os peitos dela. Acho que o rosto nem é tão bonito, mas eu gosto tanto do corpo que o rosto vai no embalo extasiado também. E por isso eu consegui o carro, e passei na casa dela. Ela foi “dormir na casa das meninas, sabe como é pai, noite das garotas”, ele nem sabia que era uma companhia só, e com barba. A gente pegou a estrada, ela colocou um rap maluco em alto volume no som do carro e foi cantando junto. Não tava com muito dinheiro, ia ser ali mesmo... E ela parecia nem estar se importando pra onde estávamos indo, dançando a música com os braços. Deve ter sido esse o problema... Luisa dançando estava desviando a minha atenção... Eu nem notei aquele maldito caminhão na curva, só quando ele estava me engolindo... Minha boca... ta seca.”
“Traz água, por favor”, diz à enfermeira. “Quer descansar um pouco?”, ele pergunta.
“Eu estou bem.”
“É bom ver que você se lembra de tudo, apesar da pancada no crânio, está com uma ótima memória.”
“Onde está a Luisa? Internou também? Ela ta bem?”
Uma senhora, que devia ter uns quarenta anos, entrou no quarto, cabisbaixa. Só levantou a cabeça rapidamente, pra olhar pro meu rosto. E quando conseguiu me encarar, não parou. Ficou comovida. Começou a chorar. E eu nunca a vi na minha vida. Pegou na minha mão, deu um beijo. Comecei a duvidar da minha memória... A mulher lá, emocionada como se me conhecesse a muito tempo, e eu nem sabia seu nome. Coitada, eu não podia a decepcionar... O doutor pediu para que eu não fizesse muitos esforços mentais, mas, eu tinha que tentar nessa situação. Comecei a olhar desde os seus sapatos, as mãos, ela tinha uma aliança no dedo. Ah. É alguma tia, dessas que ‘te pegou no colo, você já parasitou todo o leite das mamas da mulher quando novo’ e que nunca gravamos o nome...
No mesmo instante, os olhos dela eram familiares. Lembravam muito os de Luisa, só que com umas olheiras mais cavadas, e menos, muito menos colágeno. Busquei o copo de água rapidamente, e disse ao médico que não estava bem. Então que olhei as minhas mãos perto da boca dela, e essas, tinham muito menos elasticidade do que a pele da mulher. A mulher pegou as minhas duas mãos e suspirou “Gutinho”. Se não fosse tão velha, podia jurar que era Luisa. E não pude acreditar quando ela disse, "Sou eu, Luisa".
“Fique calmo. Você vai precisar de um acompanhamento psicológico, só por precaução. É normal que irá se sentir deprimido. O acidente não foi ontem. Luisa não teve nenhum problema sério, e saiu do hospital no dia seguinte. Você esteve dormindo um tempo. Mas, é um vencedor, está curado de vinte anos de coma.”
Não fiquei desfigurado, nem paralítico. Com um tempo já reconhecia todo mundo, e até os novos, os filhos e o marido de Luisa. Fiquei, mais vinte anos, sem conseguir encarar o espelho.
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