Monday, November 26, 2007

História rubra

Ela chegava toda a rodopios, e dava pra ver a terra/poeira subindo dos seus pés pela luz áurea feita pela fogueira. O traje avermelhado ambulante cheio de decotes, que contornava si mesma, quase queimava, ou hora se confundia com fogo. E sempre estavam a volta os marmanjos com suas calças lascadas de mato e brigas, 'engolindo' aquela cena, de olhos satisfeitos. Mal sabiam dela, e no que era insatisfeita. E que era por vezes infeliz na frente do espelho. Também nem queriam saber. Dava mil jeitos no cabelo laranja desbotado de ondas doidas pra, por fim, deixar tudo solto e desgrenhado mesmo. Mas, no meio da roda, era ela de nariz empinado e movimento exibido. E eles acompanhavam tocando as cordas e fazendo música como pretexto.

Não se esperava só aquela festa específica, se esperava a noite, porque havia campo e fogueira todos os dias. E haviam aquelas pessoas todos os dias. Homens eram: de dia, inchadas, à noite: festejos. A gurizada era de correr fazendo barulho, as anciãs eram da cozinha e as moças sentavam nos bancos/barris com os vestidos compridos que lhe fingiam comportadas, pra “não ficar feio e afastar marido”, bem falavam as senis. Mas as pernas cruzadas que se safavam do tecido e se exibiam entre brechas, chamavam, carentes e balançantes. As bocas cochichavam irrequietas, comentários infinitos. E cochichavam sobre Eileen, a volvente vermelha, que não ouvia as senis nem ninguém. Fazia coisas de "afastar marido" e atraía todos os olhos de quem usava calças.

“Mas não atrairia nem um”, respondiam as bocas que acompanhavam os olhos que julgavam. Das que respondiam, uma era Naelya, que dizia, mais singularmente, “não atrairia um”, e que aqui é ainda apagada demais nesta história. Mas lá estava ela, séria e inquieta, sentada e de vista afiada. Seu rosto bem entregava, totalmente franzido, assistindo a tudo. Sua idade era dentre as moças e as mais senhoras, e por isso para o casamento parecia “ser tarde”. E levava tal idéia a todo mundo, pois se não queria parecer senhora, ficava quase a palmos abaixo da terra quando fazia cochichos pela noite, carregando seu olhar encrespado, costurando meio aos dançantes e os tocadores, pra não perder nada. Eles nem a viam, porque queriam dançar e rodar em volta de si mesmos e sorrir de graça.  Naelya olhava tanto os outros que “chegava a se esquecer corcunda”, brincava quem percebia. Mas não ficava na cozinha, nem no meio das moças, e só vagava no meio de todos. Principalmente porque, dos vinte daqueles que eram homens, que pegavam em armas e que eram os heróis, um era Eiden, e os olhos e os passos dela direcionavam-se para ele, quando por fim desistia e resolvia sentar-se num dos bancos ou barris. E ele tocava uma flauta e assistia à ela. Ela, Eileen.

Então, uma hora as mandoras cessavam a melodia, quase sempre à meia noite. Às vezes alguns ainda sobravam por lá, e Eileen agarrava a saia pra escapar mais ligeiramente e passear dentre as árvores e juncos, às vezes escolhia uma fruta ou outra. E ia quase sempre. Agora que Eiden bem descobrira. Passou a meia noite e ela já levava a mão no vestido para o passeio, e ele foi deixando a flauta em um canto no mesmo minuto. ‘Era tão habitual da moça que nem fazia barulho nas folhas que fechavam caminho quando se enfiava e sumia’, foi pensando. E pensando também que acontecia algum encontro lá... ela, que nem olhava pra ele, mas que, afinal, não olhava pra ninguém, e dançava de olhos fechados quase que sempre. Deu um sorriso consolado e continuou marchando entre a folhagem, que não reproduzia o barulho de Eileen, quando dela de repente saiu barulho de disparo de pólvora. E Eileen não chegou nem a alcançar as frutas, uma vez que soltaram um tiro direto no meio do vestido pra ficar logo tudo rubro de vez.

Naelya seguira discreta e sutil, como bem sabia, fazendo o caminho de volta, sendo silente desde quando saíra da mata até abrir cuidadosa a porta de casa, sem ser vilã nem nada, porque ela ninguém notava. Desconfiaram de Eiden, mais atuante, e foi preso pra ela nunca lhe mirar os passos outra vez, e ficar sem motivo pra vagar. O gatilho era da arma dele. A luva também. Mas a mão por dentro era de Naelya, só para não ficar tão terceira na história que de outra forma não faria parte. Mas quando ouvia-se rajadas sem explicação na floresta, vento forte ou uma luz mais avermelhada na fogueira, era Eileen, cheia de decotes, que rodopia.