Assistia pela janela, uma pequena menina sardenta que brincava e corria, com um gato, quase esgoelado, pendurado em seu braço. Lembrava sua filha desaparecida. Principalmente o vestido rosa-goiaba que a garotinha vestia. Quase que ouvia ao longe a voz aguda que dizia, “Papai, eu sou uma princesa”. Sua atenção é interrompida por um barulho que invadira seus ouvidos. “É ela, está batendo na porta”, pensou o homem. Sentiu seus batimentos se alterarem, ficando mais rápidos. Levantou-se da cama, alisou as mãos sobre a camisa várias vezes na tentativa de desamarrotar as dobras de quando estava sentado, a esperar por Margarida. Mãos e voz trêmulas de nervoso, e dissera “Só um segundo, querida” mais parecendo um bezerro. Mas também, encontrava razão. Estaria em sua frente, por mais uma quinta-feira, quase uma deusa grega, (gostava de chamá-la de Afrodite), mulher de uma inteligência notável. “É impressionante como é perfeita”, pensava. Mesmo quando danava a monologar, esta sempre tinha paciência para ouvi-lo, por mais longo que o fosse. Exuberante, usava um vestido de cetim azul, que desenhava seu corpo e combinava com seus olhos. Fazia lembrar Vânia, sua ex-mulher, o vestido. Mulher que há quatro anos fora ao supermercado em uma tarde e nunca mais voltou, coincidentemente no mesmo dia em que sua filha também desapareceu.
Mas via uma luz ao fim do túnel. Diferente dela, Afrodite nunca se exaltava em uma discussão, era sempre equilibrada e delicada. Havia preenchido com triunfo a falta da ex-mulher. Além do mais, sabia três línguas diferentes, inclusive alemão, como ele. Mas não era preciso que falasse nada para deixá-lo caído aos seus pés. Bastava encontrar com seus cabelos ruivos e ondulados, os olhos que mais pareciam serem desenhados, com cílios alongados, e a pele levemente corada. Bastava ver as covinhas no seu rosto quando sorria das ironias dele, bastava encontra-la. E, como nenhuma outra mulher que passara em sua vida, não era ciumenta, nem precisava dizer que a adora de cinco em cinco minutos. A personalidade de Margarida era uma contradição de sua aparência meiga e carente. Ficava horas falando de suas viagens ao exterior, de como era a vida de marinheiro, e porque largou a profissão para morar em um chalé, fazer tarrafa e pescar na praia do Pontal. Vânia sempre dormia antes que terminasse os monólogos das suas histórias de pescador.
Enquanto jogava água em seu rosto, na tentativa de melhorar a aparência e as olheiras, pensava “Meu Deus! Ela está lá, de novo... Acho que gosta mesmo de mim”. Era ‘mais uma quinta-feira’, já esperava ansioso. Após inspirar e expirar calmamente até que ficasse mais tranqüilo, dar a última olhada no espelho, passar a mão molhada no cabelo, seguia para abrir a porta, para receber a sua Margarida. No caminho, uma surpresa. Ela já estava a esperá-lo, diante da mesa enfeitada de flores, taças de vinho tinto e algumas velas. Quase gerou uma taquicardia ao ver a chama das velas, que cabiam em seus olhos. O olhar da mulher encarando os seus olhos.
Ouve novamente uma batida na porta, cessando um pouco o clima da sua emoção. A porta se abre antes que ele a pudesse alcançar, e se depara com uma moça, que trajava branco. “Aquela moça de branco, de novo”, pensou. “A moça que agora também vêm todas as quintas em meu quarto, acompanhada de um homem forte, aparentemente. Coitada! Não é tão formosa como Margarida”. “Por favor, não me interrompa meu jantar com Margarida, mulher de branco!”, diz, com a voz elevada. O homem forte arregala os olhos, que percorriam discretamente todo o quarto. Depois sorri. “Bela a sua Margarida”, responde docemente a enfermeira, ao esperar que engolisse os comprimidos de Diazepam.
Mas não havia ninguém, como sempre. E também não havia janela. Nem espelho. Só o branco o rodeava, fazendo a verdade da sua vida, lívida. De fato, o branco das quatro paredes não era ruim. Dava-lhe a liberdade de desenhar e rabiscar seus “novos mesmos dias”.
Bem, se ficou bom, eu não sei (claro...). Mas deu vontade de escrever algo assim, (inspirada nessa frase que li esses dias): "Às vezes você quer se alienar; Estar em um mundo que é perfeito pra você; Tem gente que prefere a fantasia".
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2 comments:
huuuum... gostei do estilo... Tah bem a la Stephen King ^^ a narrativa direta e corrida... A ideia central tbm eh divertida, adoro essas paradas permeadas por um toque de "idealismo"... da-lhe Platão xD
e ae!
legal o texto...
A gente se fala no msn..!
Bjos
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