Saturday, May 20, 2006

Desventura da rotina

Sexta-feira. Dez horas, em ponto. Ana, mais uma garota, e, a sua garota de Ipanema, poucos passos à frente. Mal podia esperar para chegar mais perto até que fosse possível tê-la à sua frente. Vê-la virar-se, e, os olhos e a boca sorrirem, e os braços, debruçarem, afoitos, em seus ombros. E o beijo flutuante e delicado. Depois, ela insistiria que a bíblia é contraditória, no porque dos ideais de Marx já estariam retrógrados, e perguntaria se é feia, deitada sobre o peito de Gustavo, que escorregava a mão pelos seus cabelos. Depois viria uma das conversas sobre as iniqüidades e ironias da vida, em mais uma noite de brisa fresca, sentados meio a areia de Ipanema. Era coisa do Gustavo, discutir sobre a vida, usando a filosofia dos não-filósofos, ou, a filosofia de mesa de boteco. Mas, este, não freqüentava há quase três anos. Há quase três anos conheceu Ana.

No entanto, substituíra bem as noites de bar com os amigos, uísque, a ausência de mulher (pelo menos ao meio deles), e conversas a fora, pela praia à noite, com as ondas e as risadas de Ana como trilha sonora, e os hormônios a flor da pele. Aquele mistério, aquela vontade de desvendar a outra pessoa. Dispostos a debater quaisquer dilemas, mesmo que quase sempre chegasse a lugar algum. Claro, também não tinham outro propósito. A intenção era estar na praia com Ana, depois de um dia quase inteiro de trabalho, e ouvir seus assuntos. A sensação de sentir como sua voz parecia ecoar sobre seu corpo. Era aquela que caíra do céu, e o tirara da vida carente, as noites banhadas a álcool e vadias a lhe oferecer doenças (aliás, ao invés de Carla, Elaine, poderia estas se chamar Aids, Gonorréia - que era a única lembrança possível nos próximos dias). E não mais tivera as manhãs de enxaqueca. Quase que estipulara em seu inconsciente, então, que “não poderia viver sem ela”.

Onze e meia, já. Uma quarta-feira. Ana estava lá, sentada em um dos bancos que compunha a calçada da praia, o vestido leve acompanhava o vento, e os olhos, os carros que passavam. Gustavo a viu ao longe. Estava lá, a esperá-lo. Estava lá, ela, e o fantasma da rotina, ao lado. Ela, que tanto o encantara um dia, estava lá, trazendo uma sensação fastidiosa. E, não só poderia como queria viver sem ela, ao menos naquele dia. Em cinco minutos passaria o último ônibus para a casa de Ana, o que sempre pegava - depois de sentar no mesmo banco e esperá-lo (e depois, quando mais inspirados, meio à areia da praia), e, deitar sobre o seu ombro, debater os dilemas, etc. Em seguida, beijavam-se dizendo, “Tchau amor, te vejo amanhã”. E o rapaz seguia andando para casa, que ficava próxima, após o ônibus sumir de vista. Não que fosse apenas aquilo. Faziam outros programas. Iam ao cinema, acampavam, transavam, viajavam. Mas a sua garota de Ipanema já era a mesma de todos os outros dias. A mesma, antes intelectual, agora uma indignada socialista, maçante protestante das Igrejas e, o sempre, “Sim, amor, eu te amo!”.

Um amigo acenara de uma mesa, logo após arregalar os olhos e anunciar aos outros para olharem quem estava ‘voltando ao time’. Era um dos bares que costumava freqüentar, o mais nostálgico para Gustavo. “Moleque safado!”, ouviu uma voz exclamar. Nem precisava olhar a mão levantada, que o apontava, para saber que era Aroldão, o sempre bêbado, o sempre risonho, barbudo e bom de bola. Passara a metade da noite sendo chamado de “falecido”, “ressuscitado”, e, só não duvidando que pudessem ter esquecido seu nome devido aos “Gutão”, e às lembranças saudosas do tempo da pelada. “Ah, o futebol”, pensara. Era sempre, o futebol, o bar, a manhã imprevista do dia seguinte, nas diferentes camas das diversas garotas de Ipanema. Claro, as mulheres nunca integravam a parte maçante da rotina. Claro, também, não poderiam ter sido esquecidas pela ‘mesa dos velhos tempos’. Até porque não era sorte de todo fim de noite. Às vezes, e na maioria delas, quando acordava, encontrava-se deitado (ou, colocado) frente ao bar, apoiando a cabeça em outro bebum amigo. “Ah, tempo bom, sempre tinha uma história diferente”. “Ah, o uísque!”. Depois do namoro e das responsabilidades no trabalho, nunca mais aconteceu os passeios pelas ruas.

Falando em mulheres, Gustavo agora contestava com si mesmo, em suas frívolas reflexões, observando, discretamente, uma a sua frente: “Porque elas sempre aparecem quando nas piores situações?”. Insinuante, autora de caras e bocas. O encarava desde que chegou. “Se estivesse solteiro, provavelmente pisaria em meu pé e nem voltaria pra se desculpar”. Fingira que não estava a vendo, até que os amigos a percebem. E não havia como não, a morena insinuante era portadora de dois pares de silicones consideráveis e um traseiro invejoso. O rosto, nem tanto. Mas os cabelos esticados brilhavam, (e nenhum dos homens se importaria em saber ser obra de um cabeleireiro muito competente do Rio). E, o mais extraordinário, era, notavelmente, de boa renda. Fato inédito, naquele bar, precisamente. Não pediria dinheiro em troca. Em poucos copos de uísque e palavras de incentivo de Aroldão e cia., Gustavo estava lá, ao pé da orelha da moça, Leila. “Noite bombástica, tudo como antes!”. Não durara muito tempo na conversa, como de costume. E, neste caso, nem era preciso. E, como de costume, acordara com a velha enxaqueca e, quase em uma crise existencial, “Onde estou?”, “Por que estou?”. O quarto que o rodeava, pelo menos era jeitoso. Mas não era conhecido. E também já constatara que não era o dele. Segue até o banheiro, lava o rosto, pensa no ontem. Lembra-se de Leila. Volta ao quarto, agora com olhares investigadores. Nenhum rastro de nada. Mudara sua roupa e, ao sair, encontrara na chave uma pequena placa. “Motel”, enfim uma localização. E mais imprevistos vieram, em sua escapada da rotina: No ponto do ônibus, pego de socos, por um sujeito de braços e peitoral volumoso que descera de um carro escuro e blindado, e saíra avisando, “Não mexe mais com minha mulé, falô, ô pirralho?!”.

Quinta-feira, dez horas em ponto. Estava lá, Gustavo, um olho roxo, um braço deslocado, e um texto argumentativo explicativo, formulado e analisado durante um dia inteiro, decorado no cérebro, ambos seguindo impetuosos, para, novamente ‘um dos bancos que compunha a calçada da praia’. E mais uma vez, Ana. Mais uma vez, a viu ao longe. Estava lá! Ela, o vestido leve que acompanhava o vento, e, um homem, ao lado. Por um momento, preferiu o fantasma. O velho desventurado fantasma. Mas, ganhara um outro, substituto. Aliás, tivera de se acostumar com outro. Ganhara Aids. Perdera Ana, que seguira com o homem, vivendo feliz o fantasma da rotina, com Ana. E Gustavo também seguira com seu fantasma da rotina, e morrera com este. Quando tudo que queria dizer para ela era, “Sim, amor, eu te amo!”. Ao menos naquele dia.


Um outro romance errante. Se conseguir terminar um outro conto, talvez tenha algo que realmente possa passar perto do jeito 'Stephen King'. E... vamos lá, pelo menos uma vez por semana, verei se consigo atualizar esse meu trágico blogguenho. Desafio decretado a mim mesma.. òó

2 comments:

Ni said...

..ao "Chalhub": Na verdade, também não gostei nada destes textos iniciais. Acho que estão meio progressivos, (Ex.: de baixo para cima, começando pelos escritos em Fevereiro), e às vezes regride, e muito. Aliás, este (realmente) "Nada importante", foi uma expressão de raiva momentânea, eu acho. Nem sempre dá certo, mas és muy válido o seu olhar analítico! =D

Anonymous said...

Por isso que eu nao gosto das mulheres de Ipanema... soh tem gostosa na minha sala, mas todas tão inteligentes quanto "una pedra de carvón!" (by seu Nestor)...

Quero soh ver se a promessa vai se cumprir :P

=***

P.S.: As letras de verificacao foram "ODIN" (será um pressagio? Será? Será? xD)