Thursday, September 13, 2007

Pontos finais em setembro


Olhava seu calendário na parede, com o setembro gigante e vermelho em baixo da foto de beija-flor na flor. Nem precisava daquele calendário lá. Tinha os seus vários outros à mão, digitais, com seus lembretes automáticos e tudo, mas gostava daquele de papel amarelado que lembrava a casa da avó na roça e a felicidade toda contida em jogar peão, na varanda fresca. Ficava cabisbaixo quando de repente ecoava longe a buzina da camionete do pai, e ia todo terroso pra casa.

Já contava vinte e duas primaveras, ou outonos – talvez mais outonos. Às vezes ainda soltava pipa num campo de grama perto do seu prédio. Podia ver na cara das pessoas da calçada, homens em bicicletas, gente andando pra combater hipertensão, mulheres com carrinho de bebê e ar de “bem realizadas”... Elas olhavam e diziam com seus olhos “olha lá ele curtindo a nostalgia”. Ou talvez dissessem “só tem tamanho”. Tanto fazia. Tinha muito pedaço de nostalgia não acudido perturbando mais... O campo da roça era de terra de a roupa ficar marrom. Os fios de eletricidade não cortavam a passagem da pipa. Assistia o horizonte ficar em tom de sépia porque reunia a molecada até à tardinha.
Agora mal se via o horizonte entre um prédio e outro. A molecada, nunca mais via.

Agora convivia com menos terra e mais concreto. As pessoas são outras. E a felicidade não era contida em muita coisa. Mas uma coisa estava longe de ser feita de papel e madeira. Uma “ela”, com sobrenome e nome, Alice. E ela parecia ser portadora da felicidade quase toda, e portar a felicidade toda pra lá. Pra seiscentos quilômetros ou mais onde morava. Às vezes o visitava, quando queria. E escreveu a ela que “queria rasgar os tecidos que te reveste e ver se tem alguma coisa aí dentro”, pra dizer que tinha saudade. Mas ela agia pela sua saudade própria. Assim, egoísta. E ele só abria a porta. E sempre abria a porta. Depois ela ia embora, atravessando o estado com sua felicidade na mala.

Lembrava Iaiá, a menina que às vezes aparecia do nada na roça da avó. Filha de algum fulano de tal, longe conhecido da família, e era a única que parava e brincava com os meninos. As outras duas irmãs se afastavam e iam embora engomadas, com suas bonecas penduradas no braço.
Às vezes parecia um deles naqueles camisões que mal se via seus peitos ali por baixo querendo se formar, e seu short era sempre o mais marrom. E ele sorria todo e inchava o tórax magricelo quando ouvia alguém dizer que “Joana chegou”, e nunca entendeu porque o apelido era Iaiá. Mas só conseguia a chamar assim.

O calendário lembrava tanta coisa. Lembrava a última vez que sorriu todo, e não só por fora, por simpatia. Uma semana atrás, que Alice sentiu saudade. Mandou uma carta meio marfim como as folhas dele, e dizia com seu gênio meio zombeteiro que “deu vontade de fazê-lo um pouco feliz”. Morreu de raiva por dentro, mas era uma raiva alegre. E uma raiva que dizia “adoro esse jeito mesmo assim”. Raiva porque era pra estar farto. Mas ele iria abrir a porta.

Terminava o café em frente aquele calendário que de números praticamente ganhou letras que escreviam “te espero me receber na rodoviária”. E lembrava que fazia meses que esperava aqueles dizeres num pedaço de papel. Mas nem precisava do calendário pra lembrar. O que tinha de olhar agora é a hora, porque era hoje.

Chamou o táxi. Estufou-se de ansiedade. Pisou na rodoviária e o frio na barriga era o mesmo de quando tinha o tórax magrelo. Bem como o sorriso, quando o ônibus dela apontou. Levantou, olhando calmamente as janelas. Depois, calmamente as pessoas que desciam dele. Uma por uma. E nenhuma era Alice. Descreveu Alice pro motorista e pra seis ou sete que desceram. E mirrou-se todo. Pensou “Coisa de Alice”; que assim de repente desistiu da vinda e não avisou, só pra ser meio crápula. E se conformava com a quase certeza de que era isso mesmo, quando viu uma sombra passar dentro do ônibus indo à porta. Surgiu-lhe de novo o sorriso não contido no rosto. E a boca também não se conteve dizendo “Alice?!”, mas a garota tinha um cabelo castanho e todo o resto que não era de Alice. Nem o sorriso. E a garota sorriu de um jeito estranho. Sorriu tão empaticamente, só que meio hesitante, misturando um espanto, e tudo junto.
Quando falou, perguntou se ele se chamava seu nome. Disse que "você não mudou nada!". E disse que seu nome era Joana.

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