Até uma pedra tinha mais anseio. Sentada naquele banco de cimento, onde mal se via o cimento, rabiscado de nomes de desconhecidos... Pensando como é irônico o jeito que ‘cada um tem de pensar ser o protagonista entre os outros’. Querendo ir para lugar nenhum. Mas já havia constatado que ‘infelizmente’ não havia ônibus pra lá. Nada ocorria. E nada ia ocorrer porque estava aguardando que ocorresse, “são 24 horas em um dia e a chance de ser tedioso é talvez maior, pois quando se espera os minutos são mais observados”, matutava.Saia mais um, era o terceiro ônibus que passaria pela sua casa. E não queria entrar nele, e em nenhum que passasse perto de lá. O relógio já mostraria cinco horas da tarde, tinha aula no curso logo às seis horas, estava naquele ponto desde as três. Pessoas chegando e sentando, pessoas saindo, pessoas atrasadas correndo atrás do ônibus acenando com a mão. E ela lá, na placidez em demasia, sem pressa, sem vontade, sem nada. Pensando se seriam elas interessantes tanto quanto são afobadas.
Iam dar cinco e meia, precisava tomar alguma atitude, afinal, ‘não podia deixar escapar aos olhos das pessoas que sua vida estava pacata e desgastante’, sentia-se mais desgastada ainda por chegar a pensar nisso. Notara um rapaz de boné sentado ao seu lado, uma camisa preta que vestia, dizia em branco, “Carpe Diem”. “Mas que porcaria é Carpe Diem”, pensou. “Também é uma porcaria essa vida conformista”, replicou pra si mesma. “E se eu enfartar, perdesse meu lado esquerdo. Não, pelo menos de susto ou surpresa, não há como eu enfartar. E eu faço exercícios”. O rapaz da camisa parecia feliz, inabalavelmente feliz. Sorria para todos e dizia bom dia. Começou a invejá-lo por um momento... Parecia tão ocupado e, ao mesmo tempo, despreocupado. Imaginando o que ele poderia fazer na vida – ele, vivendo naquele mesmo mundo dela, mas, notavelmente, com outros olhos. Sua visão de mundo era cética, sabia ela, e ela se dava a razão. Era balconista de uma lanchonete e fazia curso pré-vestibular para ingressar em Medicina, e só assim seria se fosse em universidade pública. Mas nem nunca sonhara com Medicina. Gostava de piano, no entanto não tinha muita destreza e dinheiro ou tempo pra tentar melhorar. Além de tudo, “não dá dinheiro”. “O respeito pertence à classe dominante, e eu estou longe dos dois”. Sentia-se apenas mais uma. Na escola, era mais uma no meio do monte de crianças que a professora dizia no plural, “Vocês tem que estudar pra ser alguém!”, e quando começara o emprego na lanchonete, com o seu trabalho braçal e nada intelectual, ouvia “faça direito”. Ainda tinha de encarar a filha esnobe do patrão, sentindo-se uma rainha, olhando-a de lado quando limpava as mesas e varria o chão. Chegava a ter pesadelos com ela, e sonhos onde cuspia na ‘cara esnobe’ e cortava seus cabelos longos até a raiz. Odiava mais ainda o fato de não poder replicar a garota insolente. “Maldito mundo capitalista... O dinheiro do seu pai, meu patrão, é o dinheiro do curso”.
Um ônibus parou no ponto, e o rapaz da camisa levantou-se e foi entrar nele. Como se quisesse satisfações da felicidade imutável que ele carregava, sentiu, depois de tanto “nada” e oco, uma vontade. Segui-lo. Sentou-se no assento atrás dele, discretamente – como um detetive, que não pode ser notado, observando cada gesto dele. Um tempo depois, o garoto tirou um livro da bolsa que carregava. Depois de muitas tentativas falhas de elevar a cabeça por cima dos ombros pra espreitar o conteúdo, percebera que era um livro relacionado à Biologia, lendo um título relacionado à ‘Neoplasia’. “Talvez fizesse medicina”, pensou. Por um instante, ocorreu em puxar assunto com ele, mas estragaria toda a ‘perseguição’. Após o ônibus muito rodar, parar, subir e descer, já estava sentindo-se farta com aquilo. “Que idiotice a minha”, pensara. Mas talvez estivesse só criando um pretexto para faltar à aula, que também estava sem ânimo. ‘Talvez estivesse atraída por ele fisicamente, e depois contaria a ele, rindo e tomando um sorvete, que ficou subitamente interessada em seu dia’, fantasiava. Finalmente o garoto guardara o livro e levantara até a porta de saída, e ela logo fora atrás. Seus passos o levaram direto a uma clínica médica, do câncer. “Deve fazer caridade aos leucêmicos também”, pensou. Entrou discretamente junto dele, e ficou observando. Observou também quando ele tirou o boné, e a ausência total dos cabelos. E logo, o chamaram para a sala de quimioterapia.
Saiu devagar e um pouco pasma do lugar, soltou uma risada desconcertada e sem graça pra si mesma, e logo veio em sua cabeça, “Por isso o Carpe Diem.”. “As pessoas só lembram de viver quando lembram que vão morrer... Nos outros dias elas só existem”, refletiu. Parecia quase uma idéia. E no dia seguinte, acordou tarde e chegou propositadamente atrasada no trabalho pra ouvir sermões da filha do chefe e, depois de ouvir calada, cuspiu em sua cara, seguindo de uma bofetada, no meio de todos os clientes. Foi a protagonista da lanchonete naquele momento. Depois fora a protagonista da rua quando subitamente arrancou a blusa e saiu andando entre as pessoas – dificilmente gravariam seu rosto no meio da grande cidade. Tomou incontáveis doses de cachaça às duas horas da tarde e caiu bêbada pela calçada. Rasgou dinheiro, seus trocados no bolso, xingando o capitalismo. Acordou no chão do posto de saúde com o braço furado de glicose. Com o dinheiro do ônibus rasgado, sobrou ir andando até sua casa. Fora a mais notada e, ironicamente, não fora si mesma por aquele dia. Talvez fosse efeito do final da bebedeira, ou não, mas de repente não cabia dentro de si, desconfortável em seu próprio corpo. Enfim, “não estava preparada para ser notável”.
Quando, exausta, chegara em casa, encontrara umas cartas ao chão, frente à porta. Contas de luz, de aluguel e do curso, e por ventura, um “reprovado no vestibular”, da universidade. Apesar da amnésia alcoólica, podia lembrar muito bem do glorioso tabefe e da demissão - fora antes da cachaça. ‘Escrava monetária’, resmungara. Pelo menos era sábado. No dia seguinte, foi a protagonista de uma coluna estreita, quase exclusa, de um jornal local de domingo. E, até no título de reportagem, era só mais uma garota... Uma “Garota encontrada morta, por suicídio, em seu apartamento”.
Tava vendo aqui... Antes conseguia escrever um a cada dois dias... Depois, a cada dez... Agora perdi o controle já. Mesmo se eu tivesse algum futuro nisso, seria perturbador... Já que não tem como obrigar a ‘inspiração’ a vir (e a preguiça a ir). Ah, enfim, enfim, beijos a quem lê.

1 comment:
ela gosta de nietzsche!? siiiiiim!!! ela gosta de nietzsche! *.* mas ela ainda eh schopenhaueriana?! siiiiiiiiiim... ela ainda o eh =/
adelante chica!!! Sai de cima do muro xD
estou com o mesmo probleminha q a senhorita em relacao a forçar a inspiracao :P
mas vc tah tendo mto mais facilidade do que eu ^^ mais uma cronicazinha louvavel /0/
=****
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