Demasiado na vida curta
Seis da manha e Iolanda sentada na cama, olhando o pano da cortina que balançava. Ainda tinha meia hora pra levantar, acordar o marido, tomar um banho, café da manhã, pegar os livros e ir pra escola. Mas o seu rosto não tinha expressão de vontade pra fazer isso de novo. Eram quase vinte e cinco anos fazendo o mesmo caminho, e, os vinte anteriores, era só uma menina que estudava e namorava nas horas vagas. Agora dá aula para as meninas que estudam e namoram nas horas vagas. “Passara tão rápido”.
Conheceu o marido na escola, era um dos professores, e ela, a sua ninfeta. Gostava de amores polêmicos. Um cara mais velho do que ela quinze anos em uma cidadezinha do interior já era o suficiente para tal, e ainda, professor. Ninguém acreditava que daria certo, e casaram. O marido professor lhe ensinou não só a volúpia, mas a ser professora. E tornou-se, notavelmente, uma excelente professora de literatura e alemão. Tornou-se tão notável que fora dar aula em colégio grande, por isso ainda levantava todos os dias de manhã, mesmo com sua vida morna. Seu marido já não fazia cada dia parecer um romance, parecia mais ter se deixado derrotar pela idade, ou pela rotina. Estavam frios. Já pensava nisso todas as manhas, o olhando dormir, antes de entrar no seu carro vermelho e ir pra escola. O semestre voou. Tinham admiradores novos na sala. Havia um garoto que chegava de madrugada e sentava na primeira cadeira, todos os dias. Mas não garantia a primeira cadeira por motivo de gostar de literatura ou línguas. Preferia, discretamente, quando não olhava fitamente para os olhos de Iolanda, olhava para as pernas. E ela era a única que não notava.
Ela recolhia seus livros da mesa e passava o batom vermelho pra ir embora, já à noite. E vê um garoto se aproximando, com o peito estufado, olhos fitos e mãos trêmulas. Ele era Maurício, mas podia ser João ou qualquer outro, pois nem seu nome ela tinha decorado ainda.
Mas era Maurício, o garoto prodígio que descreviam como “intelectual, dramático e egocêntrico”. Talvez nutrisse tanto o seu jeito intelectual que não dava muita preocupação para as súbitas instâncias que surgiam de flertar. Tinha porte pra ser atraente, mas nem se importava. Era aquele que durante todos os seus dezessete anos tivera apenas um relacionamento, sua ‘paixão fulminante’, e morreria por uma garota dos bustos redondos, cabelos sedosos e a sempre língua gelada de sorvete. Talvez tarde, mas cedo visto a parte de seu tempo dedicado aos livros. E cedo pelas suas exigências ao pensar em relacionamentos. Quando surgia uma conversa com alguém do sexo oposto, tinha de levar o assunto ao seu mais recente livro filosófico que estava a ler, e, de certa forma, com leve pretensão para quem sabe achar alguém que correspondesse aos seus interesses. Mesmo quando abriu exceção pra isso seduzido pela garota, já esperava pra logo uma despedida. “Via muita TV, tomava muito sorvete, se preocupava demais com os cabelos”.
Parou na sua frente, e lá ficou, mudo. Então que ela quebra o silêncio, e se espanta com a resposta do “Pois não?”. Maurício coloca uma carta entre as mãos dela, com um número de telefone, e sai mudo da sala. A carta romanceada, vertida de todos os momentos utópicos que ele desejava, e com os momentos reais em que eles trocaram palavras, primeiro, despertara risada. Amassara na mão quando o marido chegou deitando ao seu lado pra dormir - do mesmo jeito que fez com a carta que ele enviou, quando sua mãe entrou no quarto pra o ‘boa noite’, uns anos atrás. Dormiu pensando em como desesperançar o garoto. Na manha seguinte, ao olhar mais uma vez o marido dormindo na cama de costas para ela, já não era mais só uma tolice adolescente. Olhou no espelho e não se deparou com um simples objeto para o marido, como se sentia, mas sim o objeto para um garoto. De fato, com muito mais valor. Acelerou o carro com um deleite que não tinha a muito tempo, de sair. Viu no retrovisor, entre um sinal e outro, que ainda estava sorrindo.
Coloca um papel na mesa de Mauricio, e sai muda da sala. E acelerou o carro com mais vontade ainda, indo para a rua que haviam combinado. Eram todos os dias, no carro vermelho lá estacionado, escondido, o romance aventureiro de Iolanda e, em casa, ‘a carga horária das aulas aumentou’. “Sabe, eu morreria por você”, dizia o clichê do garoto extasiado, abraçado a professora. Se morreria, naquele momento, certamente. Sem quiçá. “Olha garoto, sabe que, teoricamente, eu partirei primeiro”, responde ela. Sussurrava, mais precisamente, sem o peso da diferença de idade no tom de voz. E os mais íntimos não conseguiam mais lembrar adjetivos para descrever o garoto, eram mais unânimes as frases prontas como, “Maurício, ah, está amando, este menino”.
Iolanda voltava pra casa com o sorriso causado por ‘mais um dia de aventura’, Mauricio voltava com o sorriso esperançoso... Não de mais um dia no carro estacionado, escondido, mas a esperança dos seus planos, casamento, mulher ideal, filhos, um antônimo de aventura. Maurício não podia pensar em ninguém mais apaixonante pra sua vida toda, que não fosse Iolanda, a mulher culta e experiente e ainda fisicamente atraente. Iolanda valia mais do que todas as garotas da sala juntas.
Quase deu taquicardia na mulher quando descobriu. A viu com algumas rugas a mais, como o marido Maurício, mais novo como ela, farto de sua vida pacata ao lado da velha, querendo aventura. Era só o que conseguia pensar. “E vai chegar um dia que ele vai embora”. E
Chegou então um próximo dia, Iolanda mal olhara para o garoto em sala, nem mandara os ‘beijos perigosos se alguém percebesse’. Mas ele se tranqüilizou ao ver que estava lá, o carro vermelho o esperando, no mesmo lugar. E antes que ele pudesse falar que notou o comportamento estranho da professora, ela o pede para sentar, olhando só para frente, com olhos no volante. Fria. E começou a conversa. Falava bem, o garoto ficou pálido e quieto, e deu-se no monólogo. Depois de um tempo, ele já não ouvia mais nada, ecoando a frase em sua cabeça, “não embraveça por eu estar indo, porque, teoricamente, eu partirei primeiro. Entschuldigung”.
E bastou o próximo dia. O corpo de Maurício foi encontrado em seu quarto. A autopsia constatou suicídio. Em investigações, Iolanda foi procurada para maior explicação, mas disse só que “ele perdeu o seu egocentrismo, e o amor próprio. Nem se matou por mim. Matou-se por si mesmo”. Triste ou não, as aventuras era o que não iria lhe faltar. A sala estava sempre cheia, e ela passou a reparar mais nos olhos dos garotos.
Ah, então, não agradei muito desse resultado. Como já havia comentado dele antes, não pude deixar passar. Pra quem vem: a aparente falta de atualização é realmente uma soma de vários tipos de preguiça com volta às aulas e, só um pouco mais de preguiça. Eu vou parar com esta.
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2 comments:
Ah a mim agradou muito o resultado!
E eu gosto muito do nome Iolanda!
:*
Iolanda me lembra uma amiga da minha vovoh :x
esse negocio de "lolitagem" sempre prende a atencao das pessoas neh :P
=***
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