Uma crise de meia idade. Homem sorridente, a cerveja da noite de sexta feira nas mãos, contando coisa qualquer às gargalhadas em meio a outros amigos de bar, quando uma garota com seus poucos dezessete anos toca delicadamente naqueles ombros de quarenta e cinco, e diz com voz fina e, então, ecoante, “Pode dar licença aí, tio?”. E sem nem ao menos olhar para seu rosto, a menina passa por ele até a máquina de refrigerantes. Atitude de uma menina qualquer, e suficiente para mudar seu humor pelo resto da noite, afinal “a opinião de qualquer um pode ser uma opinião da maioria”, pensava, encarando seus traços no espelho do banheiro do lugar. E faz caretas para contar as rugas. Alisa os cabelos em todos os sentidos no intuito de tampar as falhas, procurar e tirar os brancos. Depois de algumas solitárias tentativas de melhorar o ego, enche os pulmões, estufa o peito e volta para a mesa.
“Ah, traz mais uma pro tio Fausto!”, zomba Elias, um amigo de trinta e nove. “Tio, ou quase avô”, refletia Fausto. Tinha filha, com a mesma faixa de idade, espinhas e os mesmos cabelos longos e dourados da mocinha que despertara ali o peso da idade. E também outra ‘mocinha’ de onze. “Meus deus, foi piscar os olhos e entrar nas décadas do eterno sufixo ENTA”, matutava, enquanto dirigia de volta para casa, “Quando eu fiz quarenta que não percebi?”. Entra na ponta dos pés em casa, pela sala. A TV estava ligada, sua mulher dormia no sofá, debaixo de uma colcha de crochê feita pela mesma. Normalmente desligaria o televisor e guiaria sua esposa, de quarenta anos, até a cama. Não foi o que suas pernas quiseram. Passara no banheiro, passara um gel. “Não estou tão velho para desabar de cansaço agora”, e “Tudo o que não quero agora é me encolher como um C na cama” pensou. Precisava testar a si mesmo. E a ultima inspeção do visual ficara para o espelho do elevador. Como a esposa dormia, e não deveria acordar tão logo, poderia então alongar um pouco mais aquela sexta.
“E olha quem reanimou!”, exclama um dos amigos, o ‘locutor comentarista’ da turma, ao ver Fausto se aproximando. “A noite é uma criança!”, brinca o ‘Fausto jovial’, incorporado em seus vinte anos atrás, e com os trocadilhos da mesma. Mas já havia notado que os amigos de quarenta e cinco não estavam mais presentes. O mais velho era Elias, que convencera a reunião de mesa de bar a seguir até a boate mais próxima. Assim fizeram. E “Fausto, o Púbere” no meio. Conhecia todas as danças de John Travolta, mas o máximo que pode exibir eram os braços acanhados que pouco se mexiam.
Desconcertante, apelara para o balcão. Três copos de uísque, uma jovem puxando conversa. Paga uma bebida a ela. Agora com seu ego no auge, já pensara “Não devo aparentar assim um velho”, ao receber as risadas da moça quase embriagada, que aparentava uns vinte e cinco anos. Moça que só sabia rir e virar copos de uísque, todos pagos por ele. Depois de algumas doses estava ela caída ao colo de Fausto. Enlaçando a cintura da moça com os braços, arrasta para o meio dos amigos como um troféu, afinal, tinham de ver que ainda era um “cara pintoso”. E Elias também enlaça o seu troféu, para exibir e apresentar aos amigos. Uma garota com espinhas e os mesmos longos cabelos dourados de sua filha mais velha. “E o mesmo tamanho, e o mesmo rosto”, olhava assombrado, com um nó na garganta. Até que se convence, como uma pancada na cabeça. Era a sua filha, o troféu do amigo de meia idade. Sem reação. Ou melhor, cheio de reações, só não sabia qual realizar primeiro. Poderia lançar longe a mulher de seus braços, gritar com a filha, ou sair correndo antes que esta pudesse ter a certeza de que aquele em sua frente com uma garota era mesmo seu pai. Mas seu espanto não permitiu nenhuma ação. Quem conseguiu reagir primeiro foi a garota, que correu para fora do local no mesmo instante.
Dia seguinte. Fausto fora incapaz de voltar para casa. “Sou um cara tão bem-sucedido, tenho um bom emprego no banco, uma mulher atenciosa, filhas cheias de vida que eu, cheio de vida, fiz”, tentava encorajar a si mesmo. Talvez pudesse até se explicar e desculpar, e a compreensiva esposa entender sua crise de meia idade. Mas era inseguro demais para encarar a família.Talvez ainda infantil demais para expor seu erro, passar vergonha, e assumir para si mesmo que se arrancasse todos os brancos, não ajudaria muito, pois estaria careca.
Desculpe o maior atraso de todos. E é absolutamente normal não cumprir minhas ‘apostas mentais’. Ressaltando o talvez pouco frívolo acima, não resisti a essa ‘inspiração’ meio súbita à essas distrações contemporâneas. Só pra distrair (ou não).
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2 comments:
é impressao minha ou tem alguem respirando nihilismo aki de novo? xD
pow ficou mto pequeno... podia ter dado aquela enrolada legal antes de chegar ao desfecho... mas pra uma cronica relampago tah legal =D
=***
Ah sabe o que eu descobri um dia desses observando o grupo de amigas da mãe de um amigo meu!?Que a gente nem muda tanto quando fica velho, eu dei um suspiro de alívio nesse dia, nem sei por que!
Os seus finais são legais!Estilo comédia da vida privada, assim!
Gabrielle, sempre intrometida!
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