
“Diga-me do que se lembra... Qualquer coisa, pode dizer.”
“Entrei no carro com a sensação de ‘melhor noite da minha vida’. Luisa tinha prometido que seria ontem, finalmente, se eu conseguisse pegar o carro e afastar da cidade. E eu fui o melhor filho do mundo desde a segunda feira, contando pontos positivos para o carro disponível no fim de semana. São vinte anos passados, o máximo que já consegui foi fazer as minhas mãos passearem nas curvas femininas, e nada mais. Estava um virgem desesperado, e claro, ninguém poderia imaginar isso.
E ela era do tipo que a gente descreve ‘a nora que mamãe quer’, principalmente quando se pergunta à ela, só falta a modéstia. Talvez melhor se faltasse um pouco de sonhos encantados, mas certamente brincou muito de boneca e viu muitos filmes românticos da Disney na infância. Que mal à nisso, eu sou o príncipe do cavalo branco dela. Seria legal se pudesse ser um cavalo branco, mas este é o carro. Ao menos, era branco. Eu voltava do curso, ligava o vídeo game, meu vicio desde os quinze, e ela, Luísa, ligava pra mim. Não era a única que gostava de passear no meu ‘cavalo branco’, e não era a única que eu passeava. E aí que minha mãe repetia, “quem têm muitas, fica sem nenhuma”. Mas, voltando ao quesito ‘nora que mamãe quer’, ela perdia um pouco, era meio safada. A gente na mesa, Luisa acariciando minha perna na frente da minha mãe, e eu fingindo que o vermelho no meu rosto é da lagosta.”
O médico riu simpaticamente.
“Em outras palavras, era menina pra aventura. Ela me chamava de Gutinho. Só que o “ti” era uma mistura de “ti” com “x” e “l”, pra ficar mais picante, fazer um charme com a língua eu acho. E aquele rosa todo dela de filha do papai era só fachada quando a gente tava junto. Mas, eu não procuro nenhuma nora pra minha mãe, nem ainda pensei em achar, então, sempre que ela ligava, eu estava disponível. Quando se faz fantasia pro futuro, não se vive o tempo presente por inteiro, é isso... Não sei o curso que quero fazer na faculdade, e vou decidir na fila de inscrição. Isso é vício. E se eu tivesse morrido nesse acidente, ia ficar muito puto se tivesse planos. Eu prefiro muito mais aproveitar agora a me imaginar quando já não estiver inteiro, ou for o Doutor Pelanca. É o maior fantasma dos homens, e do corpo humano, a idade. Ninguém ta preocupado se for enfartar amanha, nem lembra do coração, a gente se preocupa com o maior órgão humano, a pele, os nossos preciosos colágenos. Ah, os dela são em grande quantidade, deixa tudo levantadinho. Eu nem sei se ela me causa tanto desejo como os peitos dela. Acho que o rosto nem é tão bonito, mas eu gosto tanto do corpo que o rosto vai no embalo extasiado também. E por isso eu consegui o carro, e passei na casa dela. Ela foi “dormir na casa das meninas, sabe como é pai, noite das garotas”, ele nem sabia que era uma companhia só, e com barba. A gente pegou a estrada, ela colocou um rap maluco em alto volume no som do carro e foi cantando junto. Não tava com muito dinheiro, ia ser ali mesmo... E ela parecia nem estar se importando pra onde estávamos indo, dançando a música com os braços. Deve ter sido esse o problema... Luisa dançando estava desviando a minha atenção... Eu nem notei aquele maldito caminhão na curva, só quando ele estava me engolindo... Minha boca... ta seca.”
“Traz água, por favor”, diz à enfermeira. “Quer descansar um pouco?”, ele pergunta.
“Eu estou bem.”
“É bom ver que você se lembra de tudo, apesar da pancada no crânio, está com uma ótima memória.”
“Onde está a Luisa? Internou também? Ela ta bem?”
Uma senhora, que devia ter uns quarenta anos, entrou no quarto, cabisbaixa. Só levantou a cabeça rapidamente, pra olhar pro meu rosto. E quando conseguiu me encarar, não parou. Ficou comovida. Começou a chorar. E eu nunca a vi na minha vida. Pegou na minha mão, deu um beijo. Comecei a duvidar da minha memória... A mulher lá, emocionada como se me conhecesse a muito tempo, e eu nem sabia seu nome. Coitada, eu não podia a decepcionar... O doutor pediu para que eu não fizesse muitos esforços mentais, mas, eu tinha que tentar nessa situação. Comecei a olhar desde os seus sapatos, as mãos, ela tinha uma aliança no dedo. Ah. É alguma tia, dessas que ‘te pegou no colo, você já parasitou todo o leite das mamas da mulher quando novo’ e que nunca gravamos o nome...
No mesmo instante, os olhos dela eram familiares. Lembravam muito os de Luisa, só que com umas olheiras mais cavadas, e menos, muito menos colágeno. Busquei o copo de água rapidamente, e disse ao médico que não estava bem. Então que olhei as minhas mãos perto da boca dela, e essas, tinham muito menos elasticidade do que a pele da mulher. A mulher pegou as minhas duas mãos e suspirou “Gutinho”. Se não fosse tão velha, podia jurar que era Luisa. E não pude acreditar quando ela disse, "Sou eu, Luisa".
“Fique calmo. Você vai precisar de um acompanhamento psicológico, só por precaução. É normal que irá se sentir deprimido. O acidente não foi ontem. Luisa não teve nenhum problema sério, e saiu do hospital no dia seguinte. Você esteve dormindo um tempo. Mas, é um vencedor, está curado de vinte anos de coma.”
Não fiquei desfigurado, nem paralítico. Com um tempo já reconhecia todo mundo, e até os novos, os filhos e o marido de Luisa. Fiquei, mais vinte anos, sem conseguir encarar o espelho.

3 comments:
everything inside everything
o começo foi tudo, embora eu achei o final meio miraculoso, mas não precisa fazer sentido né ?!
:***
esqueceu da livida observação ao final do seu conto
=\
O final é miraculoso msm! Mas em algum lugar tem que ter milagres, não?!
p.s: O que esse blog tem contra letra maiúscula no começo dos nomes?!
:*
Post a Comment