<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778</id><updated>2011-11-05T17:39:05.729-03:00</updated><title type='text'>Episódios da vida lívida</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>25</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-6942172525959404797</id><published>2007-11-26T17:05:00.010-03:00</published><updated>2010-06-14T20:40:44.722-04:00</updated><title type='text'>Historieta vermelha</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_EPXjmI-Llns/R0snTe0O8yI/AAAAAAAAABw/6lnPqvJfpAo/s1600-h/sertao_Mauro_Andriole.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5137243015589327650" style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; width: 219px; height: 168px;" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_EPXjmI-Llns/R0snTe0O8yI/AAAAAAAAABw/6lnPqvJfpAo/s320/sertao_Mauro_Andriole.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Ela chegava toda a rodopio, e dava pra ver a terra-poeira subindo dos seus pés pela luz áurea que saia da fogueira. O pano laranja avermelhado ambulante cheio de babado e decote, que contornava si mesma, quase queimava, ou hora se confundia com fogo. E sempre estavam em volta lá os marmanjos com suas calças lascadas, engolindo a cena toda, de olhos satisfeitos. Mal sabiam dela, e no que era insatisfeita. E que era mal contente, na hora do espelho. Também nem queriam saber. Dava mil jeitos no cabelo desbotado abóbora de ondas doidas pra, por fim, deixar tudo solto e desgrenhado mesmo. Mas, no meio da roda, ela era de nariz empinado e de giro exibido. E eles acompanhavam tocando as cordas e fazendo música como pretexto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se esperava só São João, se esperava noite, porque era roça e fogo todo dia. E tinha gente todo dia. Homem era, de dia, inchada, à noite, folia. A gurizada era de correr fazendo barulho, as velhas eram da canja e as moças sentavam nos bancos-barris com os vestidos grandes que lhe fingiam comportadas, pra “não ficar feio e afastar marido”, bem falavam as senis. Mas as pernas cruzadas que se safavam do pano, chamavam, carentes e balançantes. As bocas cochichavam irrequietas, comentários infinitos. E cochichavam de Maria, a girante toda vermelha, que não ouvia senis nem ninguém. Fazia coisa de afastar marido e atraía todos os olhos de quem usava calça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas não atrairia nem um”, respondiam as bocas que acompanhavam os olhos que julgavam. Das que respondiam, uma era Vera, que dizia, mais singularmente, “não atrairia um”, e que aqui é ainda apagada demais nessa história. Mas era acesa e esquentada, lá sentada e de vista afiada. Seu rosto bem entregava, todo franzido, assistindo a tudo. Sua idade era dentre as moças e as mais senhoras, e aí para o casório parecia “ser tarde”. E levava o alvitre pra todo mundo, porque se não queria parecer senhora, ficava quase pra debaixo da terra quando ia de cochichos pela noite, carregando seu olho encrespado, costurando meio aos dançantes e os tocadores, pra não perder nada. Eles que nem a viam, porque queriam foliar, girar e costurar em volta de si mesmos e sorrir de graça do nada e da festa. Vera que olhava tanto pra fora que “chegava a se esquecer corcunda”, brincava quem percebia. Mas não ficava na cozinha, nem no meio das moças, e aí só trançava. Porque dos dez, que eram homens, e que pegavam armas, e que eram os heróis, um era José Silvino, que também podia ser Virgulino. Os olhos e os joelhos dela se apontavam pra ele, quando por fim resolvia sentar-se num dos barris. E ele tocava o acordeom e assistia à ela. Ela, Maria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então que uma hora as violas paravam com a melodia, quase sempre nas onze horas. Uns sobravam e ficavam a apagar a fogueira, e Maria agarrava na saia pra escapar mais ligeira e passear dentre cajazeiras e pitangas, às vezes escolhia uma ou outra. E ia sempre. Agora que Silvino bem descobrira. Eram onze horas e ela já levava a mão no vestido pra ir já saindo, e ele foi deixando a harmônica num canto ao mesmo minuto. ‘Era tão rotina que nem fazia barulho nas folhas que fechavam caminho quando se enfiava e se sumia’, foi a matutar ele. E matutar que acontecia algum encontro lá... ela que nem olhava pra ele na roda, mas que afinal não olhava pra ninguém, porque rodava de olhos fechados quase que sempre. Deu um sorriso consolado e continuou marchando entre a folhada, que não fazia barulho de Maria, quando dela de repente fez barulho de disparo de pólvora. E Maria não chegou a alcançar as pitangueiras, de vez que soltaram um tiro direto no meio do vestido pra ficar logo tudo rubro de vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vera seguira discreta e sutil como bem sabia, fazendo o caminho de volta, porque foi silente desde quando saíra da mata até abrir cuidadosa a porta azul de casa, sem ser vilã nem nada, porque dela ninguém desconfiara. Desconfiaram José Silvino, mais atuante, e foi preso pra ela nunca lhe mirar os joelhos outra vez, e ficar sem motivo pra trançar. O gatilho foi da arma do Silvino. A luva de camurça também. Mas a mão de dentro era de Vera, só pra não ficar tão terceira na história. Mas quando barulho repentino de mato, vento forte em pitangueira ou áurea mais avermelhada na fogueira, era Maria, cheia de decote, que rodopia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagem: Mauro Andriole&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-6942172525959404797?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/6942172525959404797/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=6942172525959404797' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/6942172525959404797'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/6942172525959404797'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2007/11/historieta-vermelha.html' title='Historieta vermelha'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_EPXjmI-Llns/R0snTe0O8yI/AAAAAAAAABw/6lnPqvJfpAo/s72-c/sertao_Mauro_Andriole.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-7329001020764933801</id><published>2007-11-10T02:50:00.000-03:00</published><updated>2007-11-10T02:59:08.479-03:00</updated><title type='text'>Canto num jardim.</title><content type='html'>Fazia barulho de brejo lá nas duas da madrugada, mas quando com o sol todo era só o jardim debaixo da janela. Quase que morto, se não continuasse pelo dia o verde. Não tem água nem poça, porque há tempo que não chove, e aí nem vitória-régia pra sapo se equilibrar, mas quase estavam lá, e saltavam só pra chacoalhar as folhas. Era barulho de confusão no emaranhado todo, não só emaranhado de folha de hortelã com boldo, emaranhado de perna, barulho de gente. E se ralam pela flora dele de lado a outro, que virava alguém, saltando entre elas, algum bicho verde ou homem nanico azul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- As romãs caem em cima das folhas de cana, e os gatos caçam lixo à noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as romãs e os gatos mataram todo mundo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-7329001020764933801?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/7329001020764933801/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=7329001020764933801' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/7329001020764933801'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/7329001020764933801'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2007/11/canto-num-jardim.html' title='Canto num jardim.'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-7709582725802944373</id><published>2007-10-06T18:59:00.009-04:00</published><updated>2010-06-14T15:27:12.950-04:00</updated><title type='text'>Ana Desatino.</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_EPXjmI-Llns/RwbCB3EcONI/AAAAAAAAABc/Yh4PG4ecNDM/s1600-h/art_nicaraguan_landscape.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5117991363771381970" style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center;" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_EPXjmI-Llns/RwbCB3EcONI/AAAAAAAAABc/Yh4PG4ecNDM/s320/art_nicaraguan_landscape.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Olhos dela parecem engolir o dia enquanto anda à frente, sol, pedra, árvore, pessoa. Sorver tudo pra dentro. Só que quase são vidro, e só estão ali passando. Eles têm uma cor sem nome. O brilho imita gota de orvalho com verniz, e não é de escopo, e faz pra todo mundo. Até pra quem odeia, e ela odeia. Odeia tanto quanto ama tanto. Oscila, vaivém e bate a cara nas duas coisas, mas nunca pára no meio. Só sorri ou sangra, e está sempre procurando. Ainda que dormindo, sonha. Acordada, fantasia. E quer ser mito. Quer ser lembrada, beijada, coberta, viver todos os verbos, que por pouco a colocam no colo, que encontra nas poesias alheias. E os verbos que lhe agride, chorar do sol que ardia quando engolia, ser rima e ser sinestesia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(153, 153, 153);"&gt;Outro pro grupo dos descartáveis ...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-7709582725802944373?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/7709582725802944373/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=7709582725802944373' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/7709582725802944373'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/7709582725802944373'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2007/10/ana-desatino.html' title='Ana Desatino.'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_EPXjmI-Llns/RwbCB3EcONI/AAAAAAAAABc/Yh4PG4ecNDM/s72-c/art_nicaraguan_landscape.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-5469945604269654497</id><published>2007-09-13T01:09:00.002-04:00</published><updated>2010-07-30T16:26:46.609-04:00</updated><title type='text'>Pontos finais em setembro</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_EPXjmI-Llns/RujJymKgP4I/AAAAAAAAABU/4-DZt3ghF2s/s1600-h/port-radari.JPG"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Olhava seu calendário na parede, com o setembro gigante e vermelho em baixo da foto de beija-flor na flor. Nem precisava daquele calendário lá. Tinha os seus vários outros à mão, digitais, com seus lembretes automáticos e tudo, mas gostava daquele de papel amarelado que lembrava a casa da avó na roça e a felicidade toda contida em jogar peão, na varanda fresca. Ficava cabisbaixo quando de repente ecoava longe a buzina da camionete do pai, e ia todo terroso pra casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já contava vinte e duas primaveras, ou outonos – talvez mais outonos. Às vezes ainda soltava pipa num campo de grama perto do seu prédio. Podia ver na cara das pessoas da calçada, homens em bicicletas, gente andando pra combater hipertensão, mulheres com carrinho de bebê e ar de “bem realizadas”... Elas olhavam e diziam com seus olhos “olha lá ele curtindo a nostalgia”. Ou talvez dissessem “só tem tamanho”. Tanto fazia. Tinha muito pedaço de nostalgia não acudido perturbando mais... O campo da roça era de terra de a roupa ficar marrom. Os fios de eletricidade não cortavam a passagem da pipa. Assistia o horizonte ficar em tom de sépia porque reunia a molecada até à tardinha.&lt;br /&gt;Agora mal se via o horizonte entre um prédio e outro. A molecada, nunca mais via.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora convivia com menos terra e mais concreto. As pessoas são outras. E a felicidade não era contida em muita coisa. Mas uma coisa estava longe de ser feita de papel e madeira. Uma “ela”, com sobrenome e nome, Alice. E ela parecia ser portadora da felicidade quase toda, e portar a felicidade toda pra lá. Pra seiscentos quilômetros ou mais onde morava. Às vezes o visitava, quando queria. E escreveu a ela que “queria rasgar os tecidos que te reveste e ver se tem alguma coisa aí dentro”, pra dizer que tinha saudade. Mas ela agia pela sua saudade própria. Assim, egoísta. E ele só abria a porta. E sempre abria a porta. Depois ela ia embora, atravessando o estado com sua felicidade na mala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrava Iaiá, a menina que às vezes aparecia do nada na roça da avó. Filha de algum fulano de tal, longe conhecido da família, e era a única que parava e brincava com os meninos. As outras duas irmãs se afastavam e iam embora engomadas, com suas bonecas penduradas no braço.&lt;br /&gt;Às vezes parecia um deles naqueles camisões que mal se via seus peitos ali por baixo querendo se formar, e seu short era sempre o mais marrom. E ele sorria todo e inchava o tórax magricelo quando ouvia alguém dizer que “Joana chegou”, e nunca entendeu porque o apelido era Iaiá. Mas só conseguia a chamar assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O calendário lembrava tanta coisa. Lembrava a última vez que sorriu todo. Uma semana atrás, que Alice sentiu saudade. Mandou uma carta meio marfim como as folhas dele, e dizia com seu gênio meio sacana que “deu vontade de fazê-lo um pouco feliz”. Morreu de raiva por dentro, mas era uma raiva alegre. E uma raiva que dizia “adoro Alice que é assim”. Raiva porque era pra estar farto. Mas ela era dessas que paravam e brincava com os meninos. E ele ia abrir a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terminava o café em frente aquele calendário que de números ganhou letras que escreviam “te espero me receber na rodoviária”. E lembrava que fazia meses que esperava esse pedaço de papel. Mas nem precisava do calendário pra lembrar. O que tinha de olhar agora é a hora, porque era hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamou o táxi. Estufou-se de ansiedade. Pisou na rodoviária e o frio na barriga era o mesmo de quando tinha o tórax magrelo. Bem como o sorriso, quando o ônibus dela apontou. Levantou, olhando calmamente as janelas. Depois, calmamente as pessoas que desciam dele. Uma por uma. E nenhuma era Alice. Descreveu Alice pro motorista e pra seis ou sete que desceram. E mirrou-se todo. Pensou “Coisa de Alice”; que assim de repente desistiu da vinda e não avisou, só pra ser meio crápula. E se conformava com a quase certeza de que era isso mesmo, quando viu uma sombra passar dentro do ônibus indo à porta. Surgiu-lhe de novo o sorriso não contido no rosto. E a boca também não se conteve dizendo “Alice?!”, mas a garota tinha um cabelo castanho e todo o resto que não era de Alice. Nem o sorriso. E a garota sorriu de um jeito estranho. Sorriu tão empaticamente, só que meio freada, misturando um espanto leve, e tudo junto.&lt;br /&gt;Quando falou, perguntou se ele se chamava seu nome. Disse que "você não mudou nada!". E disse que seu nome era Joana. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-5469945604269654497?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/5469945604269654497/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=5469945604269654497' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/5469945604269654497'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/5469945604269654497'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2007/09/pontos-finais-em-setembro.html' title='Pontos finais em setembro'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-7661540625152365393</id><published>2007-08-16T02:01:00.003-04:00</published><updated>2011-11-04T02:26:14.225-03:00</updated><title type='text'>Carolices</title><content type='html'>O ônibus nunca tinha chegado tão logo. Dessa vez não deu em ficar lá naquele banco rijo a olhar a praça à frente. A vida mansa dos pombos. Ler um pouco do Dostoievski. Ou pensar porque não fazem bancos de espera de ônibus macios. Ainda ia mandar uma carta mal-criada pro prefeito com isso, ou um abaixo-assinado. Abaixo-assinados podem ser mais eficientes. Estaria lá não só a insatisfação da bunda da Carolina, mas da Fátima, do Seu José e da Edna da padaria - ou Manoel, tanto faz. E aí talvez desse efeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, ela era só uma. Só a Carolina. A Carolina que detestava seu nome e a trivialidade dele. Sempre tinha uma outra por aí. Com certeza tinha uma naquele ônibus. Certa vez gritou, bem idiotamente, seu nome numa avenida engalfinhada de gente e oito olharam. Desesperou, “oito!”. Só ali naquele trecho de uns poucos quilômetros já estava quase dominado por Carolinas, ‘imagina no quarteirão inteiro. Quiçá fosse provocação do destino, esse safado, e em qualquer outra avenida naquela exata hora não devia ter nem oito, nem uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando tiver uma filha, ela será Salomé. E aí quando disserem, “Você conhece a Salomé, aquela...” e antes de terminada a frase, diriam “Sim”, e não “Qual Salomé?”. E quando ela resolvesse gritar seu nome na rua, ninguém atenderia. Tudo bem, é exagero. Existem outras Salomé. Mas elas devem morrer logo, todas estão bem velhinhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De verdade mesmo, gostava de Amélia. Mas Amélia lembrava faxina, fogão e novela... Enfim, esse negócio que inventaram de “mulher de verdade” com o nome das pobrezinhas. E que injuria. Ninguém tira isso da alcunha delas, ainda com tanta reportagem agora sobre “a independência feminina e a progressão disso”, no intervalo entre novelas. Melhor mesmo seria regredir, regredir, regredir, até chegar à bem-aventurada Era Matriarcal. Nome tinha que ser assim, coisa exclusiva, privativa de cada indivíduo’, e essa questão ela ia mandar ao presidente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Balançava saltitante e involuntariamente no banco de ferro, e saiu do devaneio pra se equilibrar, e também aproveitar e conter a vontade de chamar pelo seu nome por ali pra ver no que daria. Sentiu-se estranha, estranha assim imbecil. Aquilo parecia estar virando uma mania. Uma mania assim, imbecil. Mas aí deu um sorriso torto: divagou com seus pensamentos mesmo em meio aquele barulho estridente de panelas penduradas do ônibus. E sem querer o final do sorriso foi pra loira-pela-farmácia sentada ao seu lado. Fechou o sorriso como se fosse um botão liga-desliga. E voltou a se sentir imbecil. Imbecil-que-ri-sozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher amarela pouco ligou, voltou pro livro nas suas mãos, com letras amarelas que diziam “Como ter controle com o marido” - e unhas rubras de quase cegar um que diziam “sou uma tigrina má”. Conteve o riso dessa vez, e a imaginação, que quase jogou a mulher numa cama com um lingerie de onça, o cabelo dourado desgrenhado cheirando fumaça do jantar-dica-infalível do livro, “pegue seu homem pela barriga”. Juntamente, é claro, com a cara infalível de 'vem meu bem'.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das quase-garras estava em cima de um C na capa, mais amarelo ainda. O C seguia de outras letras formando Carolina ‘Não Sei das Quantas’, parecia-lhe um sobrenome alemão, e ela ligou o sorriso de novo, só que um sorriso irônico. “Claro que isso é auto-ajuda”. Porque uma Carolina podia se distinguir escrevendo livros bobos e best-sellers comerciais, e ela não tinha nenhum reconhecimento com contos do Dostoievski na bolsa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Talvez devesse procurar um livro de ajuda à pessoas com crise de identidade e pronto. Quantos José existem por aí sem reclamar?” E ser Amélia ainda lhe parecia pior.&lt;br /&gt;A tal autora estava lá, na contracapa, sentada numa poltrona extravagante de couro que a abraçava, um olhar autoconfiante e um cigarro que a foto cortava, parecendo quase cair segurado levemente pelas falanges. Pensou “Bancos de couro”, e se conformou. Ela era a Carolina do banco de ferro - oscilando pra madeiras, cimento e coisas assim. Afinal, alguém teria de se prontificar a mandar o abaixo-assinado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(102, 102, 102);"&gt;Só pra dar uma limpa na teia daqui.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-7661540625152365393?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/7661540625152365393/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=7661540625152365393' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/7661540625152365393'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/7661540625152365393'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2007/08/carolice.html' title='Carolices'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-7382059440604604708</id><published>2007-06-23T16:57:00.000-04:00</published><updated>2010-05-09T16:58:39.579-04:00</updated><title type='text'>Quase-cidade</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Moro em uma pseudo-cidade no interior do estado. É aquele negócio: é meio perigosa, é meio grande, meio movimentada, meio tudo. Não tem teatro nenhum, e o que tem é um único cinema que atualiza o filme dois meses depois do lançamento. Se o mocinho estiver muito ansioso e interessado mesmo, que o baixe na internet.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É um meio-termo estressante, às vezes. Ou a coisa é roça, roça, ou é cidade, a bagunça, transito com demasiado movimento de carros e de pessoas. E cidade naturalmente com o que se tem direito: a variedade de teatros e cinemas e outras áreas de lazer cultural (e de boêmia) a mais. Mas se é roça-roça, que tenha, no máximo permitido, paralelepípedos nas ruas. O barulho dos cavalos por aí, e, que outro veículo de locomoção sejam as carroças ou até mesmo bicicleta. Casinhas dos portões baixos dando aquela tranqüilidade bucólica; do chão de assoalho; e, é claro, aquelas histórias e lendas todas que se tem nesses lugares, que de tanto repetir, a mais absurda parece verdade, uma verdade que só acontece ali.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Agora, quase-cidade é uma desordem. Não é pequeno demais pra ser roça, nem grande suficiente pra ser cidade. E aí é aquela mistura louca de charrete com automóvel, barulho de cavalgada com motor de carro, casa pequena com projeto-de-prédio do lado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Algo ainda sem definição no Aurélio.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-7382059440604604708?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/7382059440604604708/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=7382059440604604708' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/7382059440604604708'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/7382059440604604708'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2007/06/quase-cidade.html' title='Quase-cidade'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-116570769030387878</id><published>2006-12-09T20:36:00.000-03:00</published><updated>2007-03-11T17:28:10.089-04:00</updated><title type='text'>Um café</title><content type='html'>No final da aula, as mãos de Edgar pegariam a chave do carro na sua pasta de couro e o guiariam até sua casa, que continha a sua esposa fazendo café. E suas mãos foram pegas por uma de suas alunas e guiadas para um café da tarde na lanchonete do outro lado da rua. Idéia da menina, “dar uma distraída”. Nunca havia passado algum tempo fora da escola com um aluno. Nem aluna. Não costumava se dar intervalos, dava aulas e ai pra casa. E tampouco havia olhado direito pra garota. Menos ainda refletido sobre ela, sua aparência própria e sobre sua esposa, ao mesmo tempo. Refletido com sua mente, apenas. A garota só estava lá, sentada de pernas cruzadas frente a ele numa pequena mesa redonda sugando o café expresso do copo de vidro e foi falando sobre qualquer coisa trivial da escola. E ela falava sobre algo que, para o quesito ‘qualquer coisa’, falava sobre uma ‘qualquer coisa’ bem, nota ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sorria, e às vezes gargalhava. Falou algo sobre ele aparentar sério. Falou parecendo um reclame, que ‘ele não era de interagir muito com os alunos’. A não ser quando falava dos livros, de Macabéa, de Bentinho... Mas “os professores de cursinho precisam ter aquele humor de professor de cursinho”. Colocou a mão sobre a dele pra falar. E transportou o pensamento dele, que estava em uma das carteiras da sala assistindo a si mesmo dar aula, para aquele toque da mão dela. Uma mão que fez seu pensamento não continuar entendendo aquele café apenas como um momento amigável de aluna e professor.&lt;br /&gt;E sentiu-se um pouco ridículo. ‘É só uma mão’. Uma simples mão e seus dedos meio gordinhos. E não era seu jeito ser assim, ser maldoso tão facilmente. Menos com uma mão. O cabelo sempre molhado – com algumas falhas dos seus recém cinqüenta anos, a blusa sempre dentro da calça e os óculos de grau não o davam essa imagem. Mas ninguém poderia condenar um professor por ocorrerem segundas (ou terceiras ou quartas) intenções com uma aluna. Ou pelo menos essa condenação não partiria de nenhum outro professor. “Nem o mais santinho. Já é um clichê, ou karma”, pensa.&lt;br /&gt;Talvez o assunto fosse motivo de uma incitação. Mas o assunto não estimularia nem um adolescente entupido de testosterona, e, ‘oras, não estimularia um quase-senhor, com décadas de vida sexual ativa’. Mas o estimulava, sim. A menina falava suavemente e, ao mesmo tempo, mostrava-se instigada com o que dizia, alguma coisa não muito aprofundada sobre a ditadura... O que voltou sua atenção ao assunto, como um professor de História e Literatura. Ou, voltou sua atenção para fingir não sentir as mãos dela. E quase que regride ao seu tempo de estudante - com direito a um daqueles panos coloridos “flower power” amarrados na cabeça e calça jeans boca-de-sino. Quase, se não estivesse com a mente mais presa naquele momento na lanchonete. E ainda, forçadamente, dividindo parte do pensamento na esposa, como conseqüência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de um tempo mal prestava atenção no que a garota falava, e só nos lábios se mexendo. E agora ela parecia falar com tanto domínio de Dom Casmurro, e nem sabia como havia chegado ao assunto. Ele ainda estava lá... nos motivos para sua incitação. É, ‘as pernas... ’, diziam os seus olhos, embaraçados por não conseguir disfarçar. As pernas sempre lhe chamavam atenção. Mais do que nádegas. Talvez porque já é clichê e carrega com elas várias outras finalidades não muito agradáveis... Como estas serem um ótimo local pra vacina intramuscular, entre outras coisas. Não que pernas também não sejam clichê. Mas ali pouco lhe importava o que era clichê. Essas saias pregueadas como a que a moça usava também eram comuns e, igualmente, o jeito intelectual-sexy, com aqueles óculos de armação vermelha. Podia se sentir em cena de filme. Podia até, como um professor de literatura e escritor-amador, escrever sobre isso depois, assinando com a frase ‘baseado em fatos reais’. “Acrescentaria alguns detalhes, é claro, pra melhorar a imagem de professor atraente”, pensa. “E por que não... Deve mesmo me achar atraente”, continua ele. O jeito insinuante como ela pegara em seu braço e o puxara até a lanchonete... Abraçara seu braço ao lado de sua cintura, roçando-o nesta, desde a porta da escola até atravessarem a rua. Certamente tocara no assunto de Dom Casmurro só pra lhe impressionar com sua boa interpretação. O jeito como balançava os seus cachos pretos e definidos para um lado e outro. E as pernas cruzadas. E o jeito que ela sentara. E o jeito que o olhava. “Ou sua mente que estava aumentando os fatos por querer?”, replica a si mesmo. Mas por que chamaria logo a ele para uma situação tão aleatória à escola, e nem precisava de notas na matéria pra fechar o ano. Talvez estivesse ficando um homem maldoso demais. Talvez não. Talvez pensasse demais. E da conclusão de que ela “eventualmente se insinua para mim”, chegou a que “essa garota sempre se insinuou pra mim” e ponto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda regredido ao tempo de estudante, ele se levanta subitamente da cadeira interrompendo o que ela falava e pede licença. Estava preocupado com o visual. Foi ao espelho e foi analisar se estava com olheiras – sem assumir a própria consciência que, com o tempo, já adquirira olheiras fixas. “Seu rosto é bonitinho... Mas ela nem é tão atraente... Não está com um corpo bom para sua idade... Tem até uns quilinhos a mais...”, tentava ajuizar-se. “A maior atração e vantagem é a sua juventude... quando chegar à minha idade, provavelmente não estará tão inteira como eu... E o dobro de olheiras, coitadinha”, continuava a analise pedante. “E você provavelmente não estará vivo pra ver, sua besta”, finalizou ao espelho. Quando já seguia em direção a porta, foi surpreendido com a menina ofegante entrando no banheiro e trancando a porta. Depois foi pra cima dele - e todas as suas dúvidas acabaram: “Sim, ela estava se insinuando pro coroa de cabelos castanho-esbranquiçados aqui”. Segurou nos punhos da garota, que tentava lhe beijar e dizer que o ama ao mesmo tempo, e disse um ecoante “pare com isso menina”. Os banheiros quase sempre têm eco; a frase soou com mais autoridade do que queria ter. Ela arregalou os olhos. E insistiu com a atitude. Edgar, já não mais tenso, a imobilizou e repetiu o firme e sonoro “pare menina”. E ela pára. Poderia até ter sido menos insensível, pensou. Mas nem pensou muito. Também era melhor não falar muito. Essas paixões são muito flexíveis a explicações - já poderia esperar de resposta a qualquer explicação que ele fizesse, alguma coisa como “Eu aceito ser a outra... Não, não é coisa de fase, eu te amo”, por aí. Melhor ser grosseiro e pronto. “Melhor até pra minha própria resistência”, pensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos dela enchem de lágrimas, e sai correndo do banheiro sem uma palavra a mais. Uma cena de drama para acrescentar à ‘sensação de filme’ dele. Sorri. “Essas garotas nessa idade quase sempre amam um professor. E a mira é quase sempre no de Literatura”, reflete. Olha-se no espelho. Por um momento não acredita na atitude que tomara. “Esses coroas nessa idade quase nunca negariam uma situação como essa”. Sorri de novo. E acredita na atitude que tomara... Ela acabara de dar a resposta que ele queria. A única coisa que ele queria. Uma boa “massagem no ego”. Viu-se atraente. E não estava vestindo calças boca-de-sino, e lá estavam as olheiras. Além do mais, preferia que os dramas e romances quentes ficassem nos livros. Deve ser verdade o que ouvira de uns escritores, que ‘em geral gostam mais de imaginar, sem precisar propriamente se arriscar’. Saiu do banheiro, tirou a chave da pasta e, finalmente, o guiara até sua casa. Entra na cozinha, e, como sempre, sente o cheiro de café. Café que mal havia tomado na lanchonete. E, naquela tarde, só desejava e só esperava um simples café. Sua mulher se aproxima com uma xícara nas mãos, vestindo uma espécie de blusão largo, que pouco desenhava seu corpo. Ele sorri, dizendo, “Sabe amor, você está com um corpo incrível para a sua idade”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Pois é, então, esse negócio de professor... tinha que pedir um bocado de direitos autorais né. Sei lá, só pra distrair. &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-116570769030387878?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/116570769030387878/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=116570769030387878' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/116570769030387878'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/116570769030387878'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2006/12/um-caf.html' title='Um café'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-116572473554178827</id><published>2006-12-08T01:21:00.000-03:00</published><updated>2008-01-26T02:16:24.782-03:00</updated><title type='text'>coisas avulsas...</title><content type='html'>As boas sensações deveriam vir com um aviso prévio de quando estão pra terminar. Por correio, um telegrama. Ou e-mail, ‘com essa tecnologia toda dos tempos modernos’... Algum jeito de dizer que, a partir de determinado dia, você tem que se acostumar em ir “tirando essa cara de besta e colocando uma normal”, mesmo que a sua normal também seja de besta. São bestas diferentes. Uma besta contente não é só simplesmente um besta. E até se esquece que é um besta. Mas você é: está presumindo coisas que poderão (e este verbo na posição besta, até então, lê-se ‘irão, quase certo que irão’) acontecer com tanto ímpeto que esquece da inexistência de algum contrato ou indicação de um prazo de validade.&lt;br /&gt;E a besta contente esboça aquele sorriso diante dos dias que, na verdade - para as pessoas normais-não-bestas - continuam sendo os dias injustos; as crianças ainda passam fome; morrem de AIDS na África; o mundo continua com contradições sociais e escravo da globalização; E as segundas-feiras que, na verdade, continuam vindo depois dos domingos maçantes. Esquece que domingos são geralmente maçantes (e daí também esquece daquela vontade de que criem um dia pra vir entre o domingo e segunda, pra recuperar da possível ‘leseira’ deste dia que se passa... Mas nada de uma “sétima” antes do sábado, porque o sábado perderia o seu gosto tradicional e prazeroso do alívio quase unânime. E que não adiantaria fazer de segunda-feira um feriado porque as segundas-feiras existem pra que as xinguemos – é o seu gosto tradicional muito unânime). Mas se esquece tudo isso.&lt;br /&gt;Enfim, as bestas mais românticas – que a partir de agora serão ditos como ‘seres’, porque já está parecendo algo agressivo - só lembram da existência do calendário quiçá para marcarem as datas especiais, sejam elas num domingo, segunda ou quarta-feira.&lt;br /&gt;É então que, um belo dia, na caixa de correio dos tais seres, nem conta de luz chega. Muito menos o tal aviso prévio. E os seres românticos, decoradores de datas e momentos, de quebra, viram os seres nostálgicos – lembram bastante da existência do calendário, que agora não mostra as possíveis datas especiais, mas sim o fim delas. E você se lembra que se esqueceu. E tudo parece pesar mais do que naturalmente pesa. As segundas continuam vindo depois dos domingos maçantes, e continuam morrendo de AIDS na África. E você pode chorar por isso também; e pela violência; contraste social; e pela escravidão à globalização e o neoliberalismo, onde o risco de exclusão meio ao mundo globalizado obriga os países pobres, em desvantagem, entrarem no mercado mundial.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-116572473554178827?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/116572473554178827/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=116572473554178827' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/116572473554178827'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/116572473554178827'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2006/12/coisas-avulsas.html' title='coisas avulsas...'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-116231843391872705</id><published>2006-10-31T14:12:00.000-04:00</published><updated>2006-11-02T23:01:38.640-04:00</updated><title type='text'>Livre livre-arbítrio...</title><content type='html'>Tinha uma boa vida para um rapaz de vinte anos. Tinha Verônica, de dezoito, um bom emprego na loja do pai, economias guardadas, morava na casa da mãe sem nenhuma vontade de sair da mordomia, comida e roupa passada, e na sua lista de desejos, era apenas uma coisa que lhe faltava. E que agora finalmente conseguira: Tirou a carta de habilitação. Seu sorriso, o mais escancarado do mundo, não era só por um pedaço verde de papel que o permitia dirigir por aí, era um contrato de liberdade. Eram as viagens sozinho de carro com aquelas músicas de estrada e vento nos cabelos, essas coisas. O pôr do sol retangular na frente dos seus olhos, e estes com o ray-ban. Aqueles mapas enormes com o roteiro das cidades. As cidades. E primordial na lista, a cidade de Verônica. Ela morava a duas horas e meia da sua cidade, em uma maior. Poderia vê-la sempre que quisesse. E estar longe da sua cidade sempre que quisesse, “sabe como é, cidade pequena todo mundo é celebridade”. Havia testemunhas de seus passos e das suas saídas em quase toda esquina. E era chegar a manhã seguinte para ouvir da goela de sua mãe super-protetora que “fulano te viu lá, trocando as pernas com um copo sempre cheio na mão! Acha isso bonito?”. A bebida estava no topo da sua lista, mas a mãe também, e, igualmente, a liberdade. E isso não seria mais problema, longe da sua cidade e indo até Verônica, com o volante nas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu salário não era tanto, e parcelou em infinitas vezes um carro vermelho usado. E o ‘mais importante: já estava equipado com CD player’. Quis fazer surpresa à namorada, colocou seus óculos ‘a lá Stallone’, aumentou a música, cigarros, pendurou dois dados no retrovisor, saiu sentindo-se o mais dono de si do mundo, com o céu colorido de tardinha. E depois de algum tempo de volante e cantoria, estaciona em uma lanchonete de beira de estrada, senta em uma mesa, olha pro uísque e pede um cappuccino. “Na estrada eu tenho juízo”, ponderou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um tempo depois que foi reparar no lugar, parecia mais um ponto de encontro de ‘motoqueiros doidões’. Pelo menos um pedaço de couro preto tinha que ter nas roupas dos barbudões, que trajavam preto. E as mulheres, pelo menos um pedaço de barriga de fora. E piercing, e tatuagens, e cigarro. Agora reparava na suntuosa ‘barriga mais de fora’ do lugar, uma mulher dos cabelos ondulados debruçada no balcão, na sua direção. E nenhum barbudo do lado, ou perto, ou com o braço enlaçando sua cintura de fora. Depois de um tempo olhando a barriga, foi notar que ela o encarava. O olhar fito da mulher chegou faze-lo tremer, e lhe voltou à cabeça que “Na estrada eu tenho juízo”. De um jeito estranho, ela também lhe causava medo, naquela pose toda. Continuou tomando seu cappuccino lutando com si mesmo pra agir ‘naturalmente, como se não fosse com ele’. Mas "é, meu Deus, é", pensa. Foi ao banheiro, que por sorte ficava no lado oposto da mulher. Ouviu umas conversas de uns dos clientes motoqueiros do local, que decidiam ali, urinando, qual seria a próxima parada do grupo. Sentiu vontade de vestir uma calça daquelas e se enfiar no meio deles, e fazer palpite com a 'pose de liberdade toda' também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na volta pediu a conta e mais cigarros. Junto com o papel da conta veio um papel com um número de celular e um nome rabiscado em baixo, “Charlote”. Deu um sorriso de lado, achando o nome meio esquisito. "Meio esquisito" no sentido 'meio feio', e agradável ao mesmo tempo, por estar no sentido 'meio exótico' também. E ‘de meio feio, só o nome’. Dobrou e guardou no bolso, pagou a conta e viu uma foto de Verônica na carteira. Enquanto entrava no carro, estava Charlote o encarando no estacionamento, de longe. O ego foi ao extremo, e o “eu tenho juízo” também, acelerou sem olhar de novo no retrovisor. Já estava escuro, e a cidade já estava perto. Aumentou a música pra parar de pensar e se concentrar nas emoções anteriores, a primeira viagem de carro, indo até Verônica que só via eventualmente, e chegando sem precisar de ônibus.&lt;br /&gt;Quando ela o viu na porta da sua casa, pulou no seu pescoço, e depois viu atrás dele, o carro, e ele foi mostrá-la. A chamou pra dar umas voltas, mostrou embaixo do banco três garrafas de bebida. Rodaram a cidade toda, os lugares todos. Aquele monte de pessoas, e ele com o uísque na mão e Verônica na outra, e ninguém pra dizer que “o copo estava lá, sempre cheio”. E depois, não tinha mais ninguém mesmo, com o carro estacionado em um lugar qualquer. E sem condições pra dirigir, dormiram lá mesmo, nos bancos deitados. Não muito confortável, mas estranhamente melhor do que seu quarto, sua cama. As viagens se repetiram pelos próximos fins de semana. E, aquele bar, evitou a parar mais por lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando mais uma vez já saia de casa, pegara as cartas da caixa de correio e entrara no carro. Entre as contas tinha uma carta de Verônica. Enorme. Mas entre todas aquelas linhas, uma frase se destacava. Quase que piscava. Ela escreveu que “olha amor, nós teremos um filho”. Tirou os óculos escuros. Leu repetidas vezes pra ver se não era alguma interpretação errada da letra meio tombada dela. E nada alterava a frase. Levou a mão ao bolso pra pegar o celular e tentar, trêmulo, discar o número dela, veio um papelzinho amassado junto. Uma letra tombada também, escrito “Charlote”, e um número. Olhou de novo para aquela carta. Em seguida, pra menor, de motorista. O viu naquele mesmo carro, levando o filho (que depois acabaria sendo ‘os filhos’) para a escola, chegando em casa, desabotoando a camisa e nada de tatuagens. Entrou em casa, deu um beijo na testa da mãe e disse que ‘voltava logo’. Como se fosse uma escolha, e, como se pudesse escolher, escolheu ir embora, escolheu a carta menor, e o papelzinho. Seus próximos planos primordiais seriam só fazer uma tatuagem, uma prova para carteira de moto numa cidade. Numa cidade qualquer. Ia decidir por aí.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-116231843391872705?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/116231843391872705/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=116231843391872705' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/116231843391872705'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/116231843391872705'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2006/10/livre-livre-arbtrio.html' title='Livre livre-arbítrio...'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-115747490057379379</id><published>2006-09-05T12:44:00.001-04:00</published><updated>2009-03-28T01:30:18.414-04:00</updated><title type='text'>O tédio da placidez...</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_EPXjmI-Llns/Sc21uTijpcI/AAAAAAAAADk/Ji3cLqLbNPw/s1600-h/Goeldi.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer; width: 167px; height: 141px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_EPXjmI-Llns/Sc21uTijpcI/AAAAAAAAADk/Ji3cLqLbNPw/s320/Goeldi.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5318106542118249922" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Até uma pedra tinha mais anseio. Sentada naquele banco de cimento, onde mal se via o cimento, rabiscado de nomes de desconhecidos... Pensando como é irônico o jeito que ‘cada um tem de pensar ser o protagonista entre os outros’. Querendo ir para lugar nenhum. Mas já havia constatado que ‘infelizmente’ não havia ônibus pra lá. Nada ocorria. E nada ia ocorrer porque estava aguardando que ocorresse, “são 24 horas em um dia e a chance de ser tedioso é talvez maior, pois quando se espera os minutos são mais observados”, matutava.&lt;br /&gt;Saia mais um, era o terceiro ônibus que passaria pela sua casa. E não queria entrar nele, e em nenhum que passasse perto de lá. O relógio já mostraria cinco horas da tarde, tinha aula no curso logo às seis horas, estava naquele ponto desde as três. Pessoas chegando e sentando, pessoas saindo, pessoas atrasadas correndo atrás do ônibus acenando com a mão. E ela lá, na placidez em demasia, sem pressa, sem vontade, sem nada. Pensando se seriam elas interessantes tanto quanto são afobadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Iam dar cinco e meia, precisava tomar alguma atitude, afinal, ‘não podia deixar escapar aos olhos das pessoas que sua vida estava pacata e desgastante’, sentia-se mais desgastada ainda por chegar a pensar nisso. Notara um rapaz de boné sentado ao seu lado, uma camisa preta que vestia, dizia em branco, “Carpe Diem”. “Mas que porcaria é Carpe Diem”, pensou. “Também é uma porcaria essa vida conformista”, replicou pra si mesma. “E se eu enfartar, perdesse meu lado esquerdo. Não, pelo menos de susto ou surpresa, não há como eu enfartar. E eu faço exercícios”. O rapaz da camisa parecia feliz, inabalavelmente feliz. Sorria para todos e dizia bom dia. Começou a invejá-lo por um momento... Parecia tão ocupado e, ao mesmo tempo, despreocupado. Imaginando o que ele poderia fazer na vida – ele, vivendo naquele mesmo mundo dela, mas, notavelmente, com outros olhos. Sua visão de mundo era cética, sabia ela, e ela se dava a razão. Era balconista de uma lanchonete e fazia curso pré-vestibular para ingressar em Medicina, e só assim seria se fosse em universidade pública. Mas nem nunca sonhara com Medicina. Gostava de piano, no entanto não tinha muita destreza e dinheiro ou tempo pra tentar melhorar. Além de tudo, “não dá dinheiro”. “O respeito pertence à classe dominante, e eu estou longe dos dois”. Sentia-se apenas mais uma. Na escola, era mais uma no meio do monte de crianças que a professora dizia no plural, “Vocês tem que estudar pra ser alguém!”, e quando começara o emprego na lanchonete, com o seu trabalho braçal e nada intelectual, ouvia “faça direito”. Ainda tinha de encarar a filha esnobe do patrão, sentindo-se uma rainha, olhando-a de lado quando limpava as mesas e varria o chão. Chegava a ter pesadelos com ela, e sonhos onde cuspia na ‘cara esnobe’ e cortava seus cabelos longos até a raiz. Odiava mais ainda o fato de não poder replicar a garota insolente. “Maldito mundo capitalista... O dinheiro do seu pai, meu patrão, é o dinheiro do curso”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um ônibus parou no ponto, e o rapaz da camisa levantou-se e foi entrar nele. Como se quisesse satisfações da felicidade imutável que ele carregava, sentiu, depois de tanto “nada” e oco, uma vontade. Segui-lo. Sentou-se no assento atrás dele, discretamente – como um detetive, que não pode ser notado, observando cada gesto dele. Um tempo depois, o garoto tirou um livro da bolsa que carregava. Depois de muitas tentativas falhas de elevar a cabeça por cima dos ombros pra espreitar o conteúdo, percebera que era um livro relacionado à Biologia, lendo um título relacionado à ‘Neoplasia’. “Talvez fizesse medicina”, pensou. Por um instante, ocorreu em puxar assunto com ele, mas estragaria toda a ‘perseguição’. Após o ônibus muito rodar, parar, subir e descer, já estava sentindo-se farta com aquilo. “Que idiotice a minha”, pensara. Mas talvez estivesse só criando um pretexto para faltar à aula, que também estava sem ânimo. ‘Talvez estivesse atraída por ele fisicamente, e depois contaria a ele, rindo e tomando um sorvete, que ficou subitamente interessada em seu dia’, fantasiava. Finalmente o garoto guardara o livro e levantara até a porta de saída, e ela logo fora atrás. Seus passos o levaram direto a uma clínica médica, do câncer. “Deve fazer caridade aos leucêmicos também”, pensou. Entrou discretamente junto dele, e ficou observando. Observou também quando ele tirou o boné, e a ausência total dos cabelos. E logo, o chamaram para a sala de quimioterapia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saiu devagar e um pouco pasma do lugar, soltou uma risada desconcertada e sem graça pra si mesma, e logo veio em sua cabeça, “Por isso o Carpe Diem.”. “As pessoas só lembram de viver quando lembram que vão morrer... Nos outros dias elas só existem”, refletiu. Parecia quase uma idéia. E no dia seguinte, acordou tarde e chegou propositadamente atrasada no trabalho pra ouvir sermões da filha do chefe e, depois de ouvir calada, cuspiu em sua cara, seguindo de uma bofetada, no meio de todos os clientes. Foi a protagonista da lanchonete naquele momento. Depois fora a protagonista da rua quando subitamente arrancou a blusa e saiu andando entre as pessoas – dificilmente gravariam seu rosto no meio da grande cidade. Tomou incontáveis doses de cachaça às duas horas da tarde e caiu bêbada pela calçada. Rasgou dinheiro, seus trocados no bolso, xingando o capitalismo. Acordou no chão do posto de saúde com o braço furado de glicose. Com o dinheiro do ônibus rasgado, sobrou ir andando até sua casa. Fora a mais notada e, ironicamente, não fora si mesma por aquele dia. Talvez fosse efeito do final da bebedeira, ou não, mas de repente não cabia dentro de si, desconfortável em seu próprio corpo. Enfim, “não estava preparada para ser notável”.&lt;br /&gt;Quando, exausta, chegara em casa, encontrara umas cartas ao chão, frente à porta. Contas de luz, de aluguel e do curso, e por ventura, um “reprovado no vestibular”, da universidade. Apesar da amnésia alcoólica, podia lembrar muito bem do glorioso tabefe e da demissão - fora antes da cachaça. ‘Escrava monetária’, resmungara. Pelo menos era sábado. No dia seguinte, foi a protagonista de uma coluna estreita, quase exclusa, de um jornal local de domingo. E, até no título de reportagem, era só mais uma garota... Uma “Garota encontrada morta, por suicídio, em seu apartamento”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(102, 102, 102);"&gt;Tava vendo aqui... Antes conseguia escrever um a cada dois dias... Depois, a cada dez... Agora perdi o controle já. Mesmo se eu tivesse algum futuro nisso, seria perturbador... Já que não tem como obrigar a ‘inspiração’ a vir (e a preguiça a ir). Ah, enfim, enfim, beijos a quem lê.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-115747490057379379?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/115747490057379379/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=115747490057379379' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/115747490057379379'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/115747490057379379'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2006/09/o-tdio-da-placidez.html' title='O tédio da placidez...'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_EPXjmI-Llns/Sc21uTijpcI/AAAAAAAAADk/Ji3cLqLbNPw/s72-c/Goeldi.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-115559365066882886</id><published>2006-08-14T18:11:00.000-04:00</published><updated>2006-08-14T18:14:10.693-04:00</updated><title type='text'>Por fados</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Demasiado na vida curta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Seis da manha e Iolanda sentada na cama, olhando o pano da cortina que balançava. Ainda tinha meia hora pra levantar, acordar o marido, tomar um banho, café da manhã, pegar os livros e ir pra escola. Mas o seu rosto não tinha expressão de vontade pra fazer isso de novo. Eram quase vinte e cinco anos fazendo o mesmo caminho, e, os vinte anteriores, era só uma menina que estudava e namorava nas horas vagas. Agora dá aula para as meninas que estudam e namoram nas horas vagas. “Passara tão rápido”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheceu o marido na escola, era um dos professores, e ela, a sua ninfeta. Gostava de amores polêmicos. Um cara mais velho do que ela quinze anos em uma cidadezinha do interior já era o suficiente para tal, e ainda, professor. Ninguém acreditava que daria certo, e casaram. O marido professor lhe ensinou não só a volúpia, mas a ser professora. E tornou-se, notavelmente, uma excelente professora de literatura e alemão. Tornou-se tão notável que fora dar aula em colégio grande, por isso ainda levantava todos os dias de manhã, mesmo com sua vida morna. Seu marido já não fazia cada dia parecer um romance, parecia mais ter se deixado derrotar pela idade, ou pela rotina. Estavam frios. Já pensava nisso todas as manhas, o olhando dormir, antes de entrar no seu carro vermelho e ir pra escola. O semestre voou. Tinham admiradores novos na sala. Havia um garoto que chegava de madrugada e sentava na primeira cadeira, todos os dias. Mas não garantia a primeira cadeira por motivo de gostar de literatura ou línguas. Preferia, discretamente, quando não olhava fitamente para os olhos de Iolanda, olhava para as pernas. E ela era a única que não notava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela recolhia seus livros da mesa e passava o batom vermelho pra ir embora, já à noite. E vê um garoto se aproximando, com o peito estufado, olhos fitos e mãos trêmulas. Ele era Maurício, mas podia ser João ou qualquer outro, pois nem seu nome ela tinha decorado ainda.&lt;br /&gt;Mas era Maurício, o garoto prodígio que descreviam como “intelectual, dramático e egocêntrico”. Talvez nutrisse tanto o seu jeito intelectual que não dava muita preocupação para as súbitas instâncias que surgiam de flertar. Tinha porte pra ser atraente, mas nem se importava. Era aquele que durante todos os seus dezessete anos tivera apenas um relacionamento, sua ‘paixão fulminante’, e morreria por uma garota dos bustos redondos, cabelos sedosos e a sempre língua gelada de sorvete. Talvez tarde, mas cedo visto a parte de seu tempo dedicado aos livros. E cedo pelas suas exigências ao pensar em relacionamentos. Quando surgia uma conversa com alguém do sexo oposto, tinha de levar o assunto ao seu mais recente livro filosófico que estava a ler, e, de certa forma, com leve pretensão para quem sabe achar alguém que correspondesse aos seus interesses. Mesmo quando abriu exceção pra isso seduzido pela garota, já esperava pra logo uma despedida. “Via muita TV, tomava muito sorvete, se preocupava demais com os cabelos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parou na sua frente, e lá ficou, mudo. Então que ela quebra o silêncio, e se espanta com a resposta do “Pois não?”. Maurício coloca uma carta entre as mãos dela, com um número de telefone, e sai mudo da sala. A carta romanceada, vertida de todos os momentos utópicos que ele desejava, e com os momentos reais em que eles trocaram palavras, primeiro, despertara risada. Amassara na mão quando o marido chegou deitando ao seu lado pra dormir - do mesmo jeito que fez com a carta que ele enviou, quando sua mãe entrou no quarto pra o ‘boa noite’, uns anos atrás. Dormiu pensando em como desesperançar o garoto. Na manha seguinte, ao olhar mais uma vez o marido dormindo na cama de costas para ela, já não era mais só uma tolice adolescente. Olhou no espelho e não se deparou com um simples objeto para o marido, como se sentia, mas sim o objeto para um garoto. De fato, com muito mais valor. Acelerou o carro com um deleite que não tinha a muito tempo, de sair. Viu no retrovisor, entre um sinal e outro, que ainda estava sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coloca um papel na mesa de Mauricio, e sai muda da sala. E acelerou o carro com mais vontade ainda, indo para a rua que haviam combinado. Eram todos os dias, no carro vermelho lá estacionado, escondido, o romance aventureiro de Iolanda e, em casa, ‘a carga horária das aulas aumentou’. “Sabe, eu morreria por você”, dizia o clichê do garoto extasiado, abraçado a professora. Se morreria, naquele momento, certamente. Sem quiçá. “Olha garoto, sabe que, teoricamente, eu partirei primeiro”, responde ela. Sussurrava, mais precisamente, sem o peso da diferença de idade no tom de voz. E os mais íntimos não conseguiam mais lembrar adjetivos para descrever o garoto, eram mais unânimes as frases prontas como, “Maurício, ah, está amando, este menino”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Iolanda voltava pra casa com o sorriso causado por ‘mais um dia de aventura’, Mauricio voltava com o sorriso esperançoso... Não de mais um dia no carro estacionado, escondido, mas a esperança dos seus planos, casamento, mulher ideal, filhos, um antônimo de aventura. Maurício não podia pensar em ninguém mais apaixonante pra sua vida toda, que não fosse Iolanda, a mulher culta e experiente e ainda fisicamente atraente. Iolanda valia mais do que todas as garotas da sala juntas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase deu taquicardia na mulher quando descobriu. A viu com algumas rugas a mais, como o marido Maurício, mais novo como ela, farto de sua vida pacata ao lado da velha, querendo aventura. Era só o que conseguia pensar. “E vai chegar um dia que ele vai embora”. E&lt;br /&gt;Chegou então um próximo dia, Iolanda mal olhara para o garoto em sala, nem mandara os ‘beijos perigosos se alguém percebesse’. Mas ele se tranqüilizou ao ver que estava lá, o carro vermelho o esperando, no mesmo lugar. E antes que ele pudesse falar que notou o comportamento estranho da professora, ela o pede para sentar, olhando só para frente, com olhos no volante. Fria. E começou a conversa. Falava bem, o garoto ficou pálido e quieto, e deu-se no monólogo. Depois de um tempo, ele já não ouvia mais nada, ecoando a frase em sua cabeça, “não embraveça por eu estar indo, porque, teoricamente, eu partirei primeiro. Entschuldigung”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E bastou o próximo dia. O corpo de Maurício foi encontrado em seu quarto. A autopsia constatou suicídio. Em investigações, Iolanda foi procurada para maior explicação, mas disse só que “ele perdeu o seu egocentrismo, e o amor próprio. Nem se matou por mim. Matou-se por si mesmo”. Triste ou não, as aventuras era o que não iria lhe faltar. A sala estava sempre cheia, e ela passou a reparar mais nos olhos dos garotos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;&lt;br /&gt;Ah, então, não agradei muito desse resultado. Como já havia comentado dele antes, não pude deixar passar. Pra quem vem: a aparente falta de atualização é realmente uma soma de vários tipos de preguiça com volta às aulas e, só um pouco mais de preguiça. Eu vou parar com esta.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-115559365066882886?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/115559365066882886/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=115559365066882886' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/115559365066882886'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/115559365066882886'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2006/08/por-fados.html' title='Por fados'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-115397051751239643</id><published>2006-07-26T23:17:00.000-04:00</published><updated>2006-07-27T01:04:11.943-04:00</updated><title type='text'>Acidente...</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4540/2194/1600/kairos_relogio.0.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4540/2194/320/kairos_relogio.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4540/2194/1600/h1999.0.jpg"&gt;&lt;/a&gt;“Diga-me do que se lembra... Qualquer coisa, pode dizer.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Entrei no carro com a sensação de ‘melhor noite da minha vida’. Luisa tinha prometido que seria ontem, finalmente, se eu conseguisse pegar o carro e afastar da cidade. E eu fui o melhor filho do mundo desde a segunda feira, contando pontos positivos para o carro disponível no fim de semana. São vinte anos passados, o máximo que já consegui foi fazer as minhas mãos passearem nas curvas femininas, e nada mais. Estava um virgem desesperado, e claro, ninguém poderia imaginar isso.&lt;br /&gt;E ela era do tipo que a gente descreve ‘a nora que mamãe quer’, principalmente quando se pergunta à ela, só falta a modéstia. Talvez melhor se faltasse um pouco de sonhos encantados, mas certamente brincou muito de boneca e viu muitos filmes românticos da Disney na infância. Que mal à nisso, eu sou o príncipe do cavalo branco dela. Seria legal se pudesse ser um cavalo branco, mas este é o carro. Ao menos, era branco. Eu voltava do curso, ligava o vídeo game, meu vicio desde os quinze, e ela, Luísa, ligava pra mim. Não era a única que gostava de passear no meu ‘cavalo branco’, e não era a única que eu passeava. E aí que minha mãe repetia, “quem têm muitas, fica sem nenhuma”. Mas, voltando ao quesito ‘nora que mamãe quer’, ela perdia um pouco, era meio safada. A gente na mesa, Luisa acariciando minha perna na frente da minha mãe, e eu fingindo que o vermelho no meu rosto é da lagosta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico riu simpaticamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Em outras palavras, era menina pra aventura. Ela me chamava de Gutinho. Só que o “ti” era uma mistura de “ti” com “x” e “l”, pra ficar mais picante, fazer um charme com a língua eu acho. E aquele rosa todo dela de filha do papai era só fachada quando a gente tava junto. Mas, eu não procuro nenhuma nora pra minha mãe, nem ainda pensei em achar, então, sempre que ela ligava, eu estava disponível. Quando se faz fantasia pro futuro, não se vive o tempo presente por inteiro, é isso... Não sei o curso que quero fazer na faculdade, e vou decidir na fila de inscrição. Isso é vício. E se eu tivesse morrido nesse acidente, ia ficar muito puto se tivesse planos. Eu prefiro muito mais aproveitar agora a me imaginar quando já não estiver inteiro, ou for o Doutor Pelanca. É o maior fantasma dos homens, e do corpo humano, a idade. Ninguém ta preocupado se for enfartar amanha, nem lembra do coração, a gente se preocupa com o maior órgão humano, a pele, os nossos preciosos colágenos. Ah, os dela são em grande quantidade, deixa tudo levantadinho. Eu nem sei se ela me causa tanto desejo como os peitos dela. Acho que o rosto nem é tão bonito, mas eu gosto tanto do corpo que o rosto vai no embalo extasiado também. E por isso eu consegui o carro, e passei na casa dela. Ela foi “dormir na casa das meninas, sabe como é pai, noite das garotas”, ele nem sabia que era uma companhia só, e com barba. A gente pegou a estrada, ela colocou um rap maluco em alto volume no som do carro e foi cantando junto. Não tava com muito dinheiro, ia ser ali mesmo... E ela parecia nem estar se importando pra onde estávamos indo, dançando a música com os braços. Deve ter sido esse o problema... Luisa dançando estava desviando a minha atenção... Eu nem notei aquele maldito caminhão na curva, só quando ele estava me engolindo... Minha boca... ta seca.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Traz água, por favor”, diz à enfermeira. “Quer descansar um pouco?”, ele pergunta.&lt;br /&gt;“Eu estou bem.”&lt;br /&gt;“É bom ver que você se lembra de tudo, apesar da pancada no crânio, está com uma ótima memória.”&lt;br /&gt;“Onde está a Luisa? Internou também? Ela ta bem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma senhora, que devia ter uns quarenta anos, entrou no quarto, cabisbaixa. Só levantou a cabeça rapidamente, pra olhar pro meu rosto. E quando conseguiu me encarar, não parou. Ficou comovida. Começou a chorar. E eu nunca a vi na minha vida. Pegou na minha mão, deu um beijo. Comecei a duvidar da minha memória... A mulher lá, emocionada como se me conhecesse a muito tempo, e eu nem sabia seu nome. Coitada, eu não podia a decepcionar... O doutor pediu para que eu não fizesse muitos esforços mentais, mas, eu tinha que tentar nessa situação. Comecei a olhar desde os seus sapatos, as mãos, ela tinha uma aliança no dedo. Ah. É alguma tia, dessas que ‘te pegou no colo, você já parasitou todo o leite das mamas da mulher quando novo’ e que nunca gravamos o nome...&lt;br /&gt;No mesmo instante, os olhos dela eram familiares. Lembravam muito os de Luisa, só que com umas olheiras mais cavadas, e menos, muito menos colágeno. Busquei o copo de água rapidamente, e disse ao médico que não estava bem. Então que olhei as minhas mãos perto da boca dela, e essas, tinham muito menos elasticidade do que a pele da mulher. A mulher pegou as minhas duas mãos e suspirou “Gutinho”. Se não fosse tão velha, podia jurar que era Luisa. E não pude acreditar quando ela disse, "Sou eu, Luisa".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fique calmo. Você vai precisar de um acompanhamento psicológico, só por precaução. É normal que irá se sentir deprimido. O acidente não foi ontem. Luisa não teve nenhum problema sério, e saiu do hospital no dia seguinte. Você esteve dormindo um tempo. Mas, é um vencedor, está curado de vinte anos de coma.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não fiquei desfigurado, nem paralítico. Com um tempo já reconhecia todo mundo, e até os novos, os filhos e o marido de Luisa. Fiquei, mais vinte anos, sem conseguir encarar o espelho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-115397051751239643?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/115397051751239643/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=115397051751239643' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/115397051751239643'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/115397051751239643'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2006/07/acidente.html' title='Acidente...'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-115291162290837155</id><published>2006-07-14T17:12:00.000-04:00</published><updated>2007-08-26T22:39:33.806-04:00</updated><title type='text'>A frenética</title><content type='html'>A porta não estava próxima... E também o teto, continua longe... Essas luzes dançando sobre as paredes... Elas me deixam tonta... São tão coloridas e piscam, me fazem vômito... As pernas a volta, dançando, andando... Depois de tanto tempo, vejo o chão... Uma... Duas seringas, próximas da minha cabeça... As pessoas de ponta-cabeça... Meio delgados que quase somem... Acompanham os estalos da música dançante... E finalmente vejo meu refúgio... Me jogo em meu amigo, o sofá... E traiçoeiro... duro como pedra para minha cabeça. Tudo pesou junto com meu corpo, quase mórbido, torcido, e os meus olhos, caídos, vendo tudo pela metade...&lt;br /&gt;Uma luz maldita no meu rosto. Não consegui abrir os olhos por dois minutos. Tinham furos no meu braço, três, quatro. E pingava soro, até a minha mão. Um maldito quarto de hospital... Levantei da cama e arrastei-me, carregando o soro, até o banheiro a frente, onde avistei espelho. Cabelos desgrenhados, os olhos cavernosos. Um susto comigo mesma. Busquei apoio no ferro do soro, enfiei a cabeça e os cabelos embaraçados debaixo d’água, naquela pia miserável...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vozes se aproximavam, escuto a porta gemendo... Vozes diziam “vê no banheiro”, e braços levantavam minha cabeça da pia. Uma enfermeira gorda, dona das maiores bochechas que eu já vi, mandava sentar-me na cama. Vozes ecoavam ao longe, “Vamos embora, ela está bem”. Pude identificar as duas cabeças que apontaram na porta, mesmo que fossem dois vultos. Eram conhecidos. Marcelo e Augusto...? Alfredo e Augusto! Eram AA, algum trocadilho besta como ‘Alcoólicos Assumidos’... Mas a fisionomia de Augusto é inconfundível. Era ele sim, não acredito que me trouxe pra cá!... Ele sabe mais do que ninguém por quantas dessa eu já passei. Não é a primeira nem a ultima glicose extra que eu preciso. Não sei se o odeio ou se o amo. Talvez se ele também decidisse isso... Ele quer ser Augusto, o pai de uma menina, Carolina, e eu odeio crianças. Meu deus, até nome dos futuros filhos ele já sabe. Uma namorada não seria aceita a subir no balcão e dançar freneticamente. Parecia minha mãe, com seus sermões “você tem que criar juízo, tem que se decidir, tem honrar um nome, que lembrar da noite anterior pelo menos uma vez”.&lt;br /&gt;Talvez se ele entendesse que tenho dezesseis anos e não quero ser como os outros namorados, ter vida de casado... Deve ser tedioso ter um homem pra vida inteira, ter uma mesma vida o tempo inteiro. Eu posso ser Juliana, ser Isabel, Cecília, e não dever explicações à mesma pessoa no outro dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alta no mesmo dia, por minha conta. No ônibus, pensando na desculpa para dar aos velhos, e rebatendo os olhares fitos em meu rosto borrado de riscos pretos de maquiagem e o vestido nada discreto. Talvez por ser curto. Talvez por ser duas horas da tarde em um sol severo.&lt;br /&gt;Entro com cautela, mas não havia ninguém em casa... Desabo na cama, sono durante uma hora, até chegar vozes altas atormentadoras. Invadindo as gretas da porta... Conseqüências de uma mãe beata com um pai beberrão. Haveria uma terceira voz, se me flagrassem entrando na porta. Eu posso até ouvir a voz histérica “Estela, eu voltando da Igreja e você voltando da rua de ontem!”, balançando o terço na minha cara.&lt;br /&gt;Vômito por vários dias, sangria ausente por vários meses. Cinco testes de farmácia, e todos positivos.&lt;br /&gt;Procurei Augusto. Ele sorriu, eu chorei, gritei, "conseguiu o que queria, seu irresponsável" como se a culpa fosse apenas dele. Mas ele estava gostando da situação, e isso me dava raiva e motivo pra gritar. Parou de sorrir quando duvidou. Pediu teste laboratorial. Choramos o sangue que não era dele. Quase cuspiu em meu rosto. Disse que “esperaria até minha fase passar e eu me decidir, se não tivesse estragado tudo”, e nunca mais o vi. A barriga começou a ficar relevante e notável. Um interrogatório, uma coça de cinturão e a pior resposta, “Quem é o pai?”. “Não me lembro”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi o suficiente para destiná-la ao maior sonho de sua mãe. O convento. Diferente de música dançante e pessoas coloridas, estava Estela ouvindo o som dos hinos da capela, vestida até o pé, às sete horas da noite. Em seguida todas se recolhiam aos seus aposentos, o seu cubículo, com uma cruz enorme em frente à cama ao invés dos seus pôsteres na parede. E alguém batia a porta, todos os dias às onze horas, às escondidas. Despertava o sorriso afoito no rosto da menina. Era ele, o padre Antônio. Agora era ela, Madalena. Sem nenhum compromisso com a vida já transviada. Causando heresia, fazendo ironia com o que não gostava. Contrariando o certo, desconhecia o juízo, independente do lugar. Seu filho era de um taxista que a levara pra casa numa noite qualquer. Talvez filho de 'uma madrugada sem dinheiro'. Mais exatamente, a filha, Carolina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;São essas férias que deturpam minha cabeça...&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-115291162290837155?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/115291162290837155/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=115291162290837155' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/115291162290837155'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/115291162290837155'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2006/07/frentica.html' title='A frenética'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-115203753914534727</id><published>2006-07-04T14:22:00.001-04:00</published><updated>2008-07-28T01:20:39.408-04:00</updated><title type='text'>Chasco da “Night”</title><content type='html'>Uma crise de meia idade. Homem sorridente, a cerveja da noite de sexta feira nas mãos, contando coisa qualquer às gargalhadas em meio a outros amigos de bar, quando uma garota com seus poucos dezessete anos toca delicadamente naqueles ombros de quarenta e cinco, e diz com voz fina e, então, ecoante, “Pode dar licença aí, tio?”. E sem nem ao menos olhar para seu rosto, a menina passa por ele até a máquina de refrigerantes. Atitude de uma menina qualquer, e suficiente para mudar seu humor pelo resto da noite, afinal “a opinião de qualquer um pode ser uma opinião da maioria”, pensava, encarando seus traços no espelho do banheiro do lugar. E faz caretas para contar as rugas. Alisa os cabelos em todos os sentidos no intuito de tampar as falhas, procurar e tirar os brancos. Depois de algumas solitárias tentativas de melhorar o ego, enche os pulmões, estufa o peito e volta para a mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah, traz mais uma pro tio Fausto!”, zomba Elias, um amigo de trinta e nove. “Tio, ou quase avô”, refletia Fausto. Tinha filha, com a mesma faixa de idade, espinhas e os mesmos cabelos longos e dourados da mocinha que despertara ali o peso da idade. E também outra ‘mocinha’ de onze. “Meus deus, foi piscar os olhos e entrar nas décadas do eterno sufixo ENTA”, matutava, enquanto dirigia de volta para casa, “Quando eu fiz quarenta que não percebi?”. Entra na ponta dos pés em casa, pela sala. A TV estava ligada, sua mulher dormia no sofá, debaixo de uma colcha de crochê feita pela mesma. Normalmente desligaria o televisor e guiaria sua esposa, de quarenta anos, até a cama. Não foi o que suas pernas quiseram. Passara no banheiro, passara um gel. “Não estou tão velho para desabar de cansaço agora”, e “Tudo o que não quero agora é me encolher como um C na cama” pensou. Precisava testar a si mesmo. E a ultima inspeção do visual ficara para o espelho do elevador. Como a esposa dormia, e não deveria acordar tão logo, poderia então alongar um pouco mais aquela sexta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E olha quem reanimou!”, exclama um dos amigos, o ‘locutor comentarista’ da turma, ao ver Fausto se aproximando. “A noite é uma criança!”, brinca o ‘Fausto jovial’, incorporado em seus vinte anos atrás, e com os trocadilhos da mesma. Mas já havia notado que os amigos de quarenta e cinco não estavam mais presentes. O mais velho era Elias, que convencera a reunião de mesa de bar a seguir até a boate mais próxima. Assim fizeram. E “Fausto, o Púbere” no meio. Conhecia todas as danças de John Travolta, mas o máximo que pode exibir eram os braços acanhados que pouco se mexiam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desconcertante, apelara para o balcão. Três copos de uísque, uma jovem puxando conversa. Paga uma bebida a ela. Agora com seu ego no auge, já pensara “Não devo aparentar assim um velho”, ao receber as risadas da moça quase embriagada, que aparentava uns vinte e cinco anos. Moça que só sabia rir e virar copos de uísque, todos pagos por ele. Depois de algumas doses estava ela caída ao colo de Fausto. Enlaçando a cintura da moça com os braços, arrasta para o meio dos amigos como um troféu, afinal, tinham de ver que ainda era um “cara pintoso”. E Elias também enlaça o seu troféu, para exibir e apresentar aos amigos. Uma garota com espinhas e os mesmos longos cabelos dourados de sua filha mais velha. “E o mesmo tamanho, e o mesmo rosto”, olhava assombrado, com um nó na garganta. Até que se convence, como uma pancada na cabeça. Era a sua filha, o troféu do amigo de meia idade. Sem reação. Ou melhor, cheio de reações, só não sabia qual realizar primeiro. Poderia lançar longe a mulher de seus braços, gritar com a filha, ou sair correndo antes que esta pudesse ter a certeza de que aquele em sua frente com uma garota era mesmo seu pai. Mas seu espanto não permitiu nenhuma ação. Quem conseguiu reagir primeiro foi a garota, que correu para fora do local no mesmo instante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia seguinte. Fausto fora incapaz de voltar para casa. “Sou um cara tão bem-sucedido, tenho um bom emprego no banco, uma mulher atenciosa, filhas cheias de vida que eu, cheio de vida, fiz”, tentava encorajar a si mesmo. Talvez pudesse até se explicar e desculpar, e a compreensiva esposa entender sua crise de meia idade. Mas era inseguro demais para encarar a família.Talvez ainda infantil demais para expor seu erro, passar vergonha, e assumir para si mesmo que se arrancasse todos os brancos, não ajudaria muito, pois estaria careca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(102, 102, 102);"&gt;Desculpe o maior atraso de todos. E é absolutamente normal não cumprir minhas ‘apostas mentais’. Ressaltando o talvez pouco frívolo acima, não resisti a essa ‘inspiração’ meio súbita à essas distrações contemporâneas. Só pra distrair (ou não).&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-115203753914534727?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/115203753914534727/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=115203753914534727' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/115203753914534727'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/115203753914534727'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2006/07/chasco-da-night.html' title='Chasco da “Night”'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-115014544835749667</id><published>2006-06-12T16:49:00.000-04:00</published><updated>2006-06-13T00:12:14.820-04:00</updated><title type='text'>Amores Urbanos</title><content type='html'>&lt;span &gt;Dividiam um mesmo apartamento, há oito meses. Já levavam uma vida de casados, mas não eram nem noivos. “É melhor esperar até que nos formemos”, combinavam. Lá se conheceram, naquele mesmo apartamento meio a grande São Paulo. Aliás, lá fizeram quase toda a história do relacionamento deles. Marcos deixara anúncios, pela faculdade, procurando alguém, “preferencialmente homens”, e “não fumantes”, destacado em negrito, para dividir as despesas do seu apartamento que alugara para cursar a faculdade, já que a casa de seus pais era em outra cidade. E uma semana depois, bate a sua porta uma garota magrela dos cabelos encaracolados e desgrenhados, roupas coloridas sobrepostas e cigarro. Victória. Marcos certamente mandaria “caçar outro rumo”, se fosse um homem fumante, e se não estivesse encantado por ela logo de cara. “Eram só preferências, não eram critérios indispensáveis”, e “qualquer coisa, tem varanda ao ar livre para fumar”. No mesmo dia, aceitou a companhia. No outro dia, transaram durante um filme que assistiam na TV. E também no outro, e no outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram contraditórios juntos. Ele preferia jantar a luz de velas e livros. Ela, pizza e parque de diversões. Fazia o tipo de louca mandona, e quase o homem da relação. E Marcos gostava disso, não fazia questão de tomar decisões. Na verdade, não queria ter o trabalho de ficar horas a pensar em tudo, se iriam ao restaurante ou ao cinema, já que Victória alteraria as suas decisões em um minuto. Com alguns meses passados, Marcos até se sentira farto de algumas atitudes pouco fora do seu padrão. Principalmente o café... Era sempre dormido. Nada poderia ser pior que isso para ele. Acordava e tudo que queria era um café fresco. Tolerava mais facilmente a toalha úmida esquecida sobre a cama, ou os sapatos pela casa, mas o café é bom quente e na hora. No entanto, reclamava só pelos cantos, sozinho no banho. Sair de dentro dos seus livros e da sua rotina parecia bom, de início. E depois, gostava mais do fato de estar muito ocupado para ver um filme pela TV. Gostava de acordar todos os dias e encontrar o braço de Victória sobre seu peito. Ou olhar para o seu lado e vê-la ali, sinuosa na cama. Isso, de fato, amenizava os seus momentos de zanga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro dia amanheceu, acompanhado do despertador da mesinha ao seu lado. Era o dia dos Namorados, já esperava que ela certamente estivesse cheia de planos em sua mente eufórica. Após muito espreguiçar, vira-se para o outro lado para acordar “Vica”, como a chamava. Era assim, seis e meia da manhã, sempre desgastante acorda-la de seu sono pesado. Mas assim sempre o fazia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem o braço em seu peito, e nem o corpo sinuoso ao lado. “Por milagre, já levantou”, pensou. Sua mente até começou a fantasiar que, finalmente, estaria ela na cozinha preparando uma surpresa, um café da manha fresco e reforçado para ele. Só um devaneio temporário, segue até a cozinha, e como o esperado, não estava lá preparando o tal dedicado lanche matinal. Havia sobre a mesa apenas uma xícara com restante de café e migalhas de pão. Após tomar seu café frio, arrastava-se de sono até o banheiro, e desta vez, “por milagre, não tropeçara em nenhum sapato pelo caminho”, pensou. Passava pela mesa da sala e estava lá, o seu buquê de flores que havia encomendado para ela. O cartão estava fechado, parecia ter sido intocado. E havia um papel ao lado, com a letra dela. “Odeio tanto, odeio quando você nunca se decide, quando dorme de meias e quando acorda e faz sempre a mesma trajetória, cozinha – banheiro – TV – desliga a TV – bate na porta do banheiro e brinca “E então, já abaixou a juba?”. É fastidioso quando você aluga filmes de ação quando eu quero ver suspense. Não te disse isso tão claramente até hoje porque cansei de ver sua expressão de cão sem rumo. E não gosto de rosas vermelhas”. Mantêm-se por um tempo sem reação, até, movido por raiva, correr para seu quarto e abrir as portas do guarda-roupa. Cabides vazios. Nada, nenhuma roupa ou perfume dela. Percorre todo o apartamento, nenhuma roupa ao chão, e sua caneca cheia de corações que havia ganhado de presente dele no inicio da relação também não estava lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lera aquele bilhete mais umas quinze vezes. Toda aquela raiva sempre contida, todas as vezes que não explodira por um café frio ou uma toalha molhada na cama fizera quebrar alguns copos na cozinha e lançar algumas almofadas pelo apartamento. Afinal, “quem tinha razões para terminar era ele”, pensara. “Ainda que ela fosse mais alinhada, e fizesse algo para me agradar de vez em quando”, resmungava. Mas “de todo jeito, jamais seria uma boa esposa mesmo, nem me abalo”, insistia com si mesmo. Não demorou dois dias para que ficasse a andar de um canto a outro do apartamento, agora com sua nostalgia e crise de abstinência. Saudade do café dormido. Do cheiro de cigarro. Saudade dos sapatos pela casa. Afinal, “são mínimos detalhes perto que ela foi”, chorava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não demorou duas semanas. Um novo anuncio pelas paredes da faculdade, e Anita, uma moça de óculos e livros embaixo do braço batia a porta. Moraram juntos por alguns meses, e noivaram. Formaram-se no mesmo ano, casaram, e Marcos finalmente saíra daquele apartamento. Se Anita era às vezes louca, às vezes mandona, nem importava. E o café era sempre dormido. E era mania freqüente de Anita, a toalha sobre a cama. “Ínfimos detalhes perto do que ela era”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo dia, o relógio indicava cinco e meia. Acordara aflito, sem o braço sobre o seu peito, não encontrara na cama, ao seu lado. Passando pela mesa da cozinha, encontra um bilhete, e suas mãos tremulas pegam o papel, que dizia, “Acabou o nosso café frio. Fui até o mercado e já volto. Oh, eu te amo.”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Algo bem simples para esta semana estressante, parei essa tarde pra escrever. Mas, claro, espero que quem passe aqui goste. Foi só uma tentativa, como havia prometido que o próximo não seria 'trágico'.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-115014544835749667?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/115014544835749667/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=115014544835749667' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/115014544835749667'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/115014544835749667'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2006/06/amores-urbanos.html' title='Amores Urbanos'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-114930884161478685</id><published>2006-06-02T23:59:00.000-04:00</published><updated>2006-06-13T00:05:39.070-04:00</updated><title type='text'>Íris, uma Deturpada.</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;img style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 239px; CURSOR: hand; HEIGHT: 186px" height="215" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4540/2194/320/023784.0.jpg" width="282" border="0" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;O Diário de Íris,&lt;br /&gt;Teresópolis, 26 de agosto de 1995.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ainda me lembro de ontem... como se fosse agora, a mensagem da ligação de Letícia. Ainda sei exatamente o que ela dizia, com todas as vírgulas e pontos. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;em&gt;‘Sua mãe me ligou agora, onde você está? Ela estava furiosa, deixou um recado na minha secretária eletrônica... Disse que você saiu descontrolada com o carro, estava falando um monte de loucuras, parecia fora de si, e não conseguiu te segurar... Acho que ela pensou que eu estava te encobrindo... Descobriu algumas garrafas pequenas de uísque no seu armário, disse que você só podia estar bêbada. Pra onde você foi?! Não acredito que finalmente foi! Se eu tivesse alguma estrutura, algum futuro estável, eu estaria indo com você.’&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Havia também mensagens de mamãe, umas dez, que preferi não ouvir. E aqui, sem rumo, pensando que talvez deva explicações a Letícia, muito mais do que à própria senhora minha mãe, do porque eu deixei tudo meio inesperadamente, mas nunca explicaria a ela, com toda verdade. Nem para Letícia. E não, não retornarei sua ligação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Letícia sempre estava lá, se importando mais comigo, e com a minha situação. Sempre fui de falar muito, os reclames eram em um sentido retilíneo, eu para ela, e ela sempre como ouvinte. Ela e seu paciente espírito conselheiro. No fundo, eu sabia que não era a única que tinha problemas chatos que não fazem a gente parar de pensar. Ela sentia vontade de falar, e tinha umas perturbações, mas sabia viver com elas... Queria ser independente, encarar a vida sozinha, mas assumia que lhe faltava coragem para desafiar a si mesma. Tinha uma boa mãe, mas muito possessiva e neurótica. Se a menina atravessar a rua e flertar com alguém, poderia engravidar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas também ouvia suas reclamações, sem me incomodar. Éramos confidentes oficiais. E, de repente, fez parte de uma das coisas que eu não mais consigo viver. A velha história. Não gosta de mim do modo como eu gosto dela. E jamais entenderia isso. E eu não mais consigo ouvir-la falar comigo dos seus visinhos bonitos e dos galãs da sala do lado da sua faculdade sem retorcer a cara. Pensa que eu não suporto, particularmente, o Felipe - meu primeiro e último namorado, e, o verme desgraçado do Sr. Alfredo. Mas eu não diria a ela que, este maldito me fez ter medo e não suportar os homens, desde os seis anos de idade. Não que ela não fosse entender isso, era moleza, é a melhor estudante do curso psicologia da sua sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi então que me explicou o porquê da rejeição pelo Felipe; Dizia que não vinha totalmente pela aversão propriamente ao que ele tinha se tornado, com seu jeito esnobe e besta que eu passei a odiar, e da sua traição com uma outra ‘galinha’ lá. Mas sim, mesmo depois de dez anos, por causa de a minha memória inconsciente estar marcada... Mesmo depois de tanto tempo... Mesmo não lembrando exatamente, fato por fato, do estupro. Nem mesmo da cena do verme inútil entrando no meu quarto. Bom, não era exatamente essa sua explicação... Havia uns termos malucos de psicólogo, mas era algo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E acima do interesse por me ajudar, nem que fosse só ouvindo, nas inúmeras queixas que eu fazia do meu passado, talvez também pela relação da minha história nos seus estudos, sentia pena, eu podia notar em seus olhos. Se um dia puder ler isso, queria só poder dizer Obrigada, antes que me encontrem. É... São oito horas da manhã. Há essa hora já encontraram o corpo. Daria tudo para vê-lo em decomposição.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diário de Íris,&lt;br /&gt;Teresópolis, 03 de setembro de 1995.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acordei agora, três e meia, pela terceira vez, nessa madrugada. Só mais um sono interrompido. Era uma merda de caminhão barulhento que passava na rua, e dentro da minha cabeça... Dando a mim mais algumas duas horas seguidas rolando na cama, forçando o sono. Com aquela sensação de nunca mais ser possível dormir, uma agonia que engole meus pensamentos, sinto enjôo, ânsia de vômito. Dando mais tempo para refletir lamentos estúpidos... Tudo o que eu tinha já me roubaram. Minha inocência, minha vontade de viver e meu fusca. Mas não está tão ruim. Ainda não me encontraram... E pelo menos arrumei um lugar mais confortável e não durmo mais como um caramujo naquele banco de trás. E ganhei novos valores. Um quarto, cama, um grande espelho, bebidas de todos os tipos... Afinal, poderia não ter vindo à vida com peitos e outras coisas mais, e estaria na rua junto com outros mendigos, e estou aqui, rodeada de paredes e teto, e álcool”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A porta se abriu. O próximo homem entrava. Cabelos grisalhos. Fervoroso de desejo carnal, sorridente, notavelmente bêbado, arrancando as calças. Porém, estas mesmas pararam meio ao joelho e o senhor sai tropeçando nelas, aos berros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;O Diário da Cidade,&lt;br /&gt;Teresópolis, 04 de setembro de 1995.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Morta adolescente de dezesseis anos. Suicídio, ao certo. Alguns hematomas; cortes profundos provocados por uma faca, nos dois pulsos, porém confirma-se a causa de morte por intoxicação pelo analgésico “Meperidina”. Oito dias após realizar o assassinato do próprio pai, Sr. Alfredo Cardoso, a facadas. Investigações confirmam a dependência por drogas e álcool. Foi encontrada, foragida, em uma espécie de Casa de sexo de menores, a 45 km da área urbana de Teresópolis, por um senhor de 52 anos, que quis manter em sigilo sua identidade (...)”. “Vejam só em que mundo estamos, uma garota drogada e mimada matando gente da própria família”, eram os tipos de comentário na cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante o enterro da menina, uma jovem moça colocou uma flor sobre o túmulo, com uns escritos num pequeno papel que dizia, “&lt;em&gt;Se eu tivesse alguma coragem, eu estaria indo com você&lt;/em&gt;”. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:78%;color:#666666;"&gt;Não sei se compensou comparando ao sábado passado... Está tudo meio cinza por aqui? xD O próximo não será tão trágico, eu me ordeno!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-114930884161478685?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/114930884161478685/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=114930884161478685' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/114930884161478685'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/114930884161478685'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2006/06/ris-uma-deturpada.html' title='Íris, uma Deturpada.'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-114899771456485149</id><published>2006-05-30T10:00:00.006-04:00</published><updated>2010-06-04T22:21:48.105-04:00</updated><title type='text'>Pesadelo</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_EPXjmI-Llns/SpS0pWX00zI/AAAAAAAAAEE/yYRqgMcfiL8/s1600-h/3_picasso_dreams_birds_in_a_tree.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer; width: 251px; height: 189px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_EPXjmI-Llns/SpS0pWX00zI/AAAAAAAAAEE/yYRqgMcfiL8/s320/3_picasso_dreams_birds_in_a_tree.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5374118877832991538" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;A vida no avesso&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span&gt;&lt;br /&gt;Era um clarão tão intenso, que fez os olhos, que se mantinham fechados em seu escuro, se abrirem. Espreguiçou, esticando os braços ao máximo. Colocou a mão frente aos olhos, cercando aquela maldita luz, ainda recuperando-se do aparente cochilo. Nem viu ter dormido. Seus olhos não mais sonolentos recuperam integralmente a visão, e toma um susto que deu ‘pane’. Suas mãos, no reflexo do espanto, quase pareciam ter vontade-própria, deram um impulso brusco no chão para trás. Encontrava à sua volta milhares de árvores, incontáveis, imensas, que davam dez vezes mais que os seus 1.60cm, e a cercava. Ficou paralisada. Tentava, mas não lembrava de nada que pudesse ter feito para ir parar naquele lugar. Sente pontadas na cabeça. Doía veemente. Latejava. Sua visão estava quase inibida pelo intenso verdor que a rodeava. Não lembrava. Nada... “Como é possível?!”, não parava de pensar. Sentia-se, então, dominada pelo medo e a estranheza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surpreendendo, ouve um som. Um som agradável. Tira um sorriso do seu rosto. Um cantar, de pássaro. Cantava doce, meigo, lhe confortava, parecia despreocupado, sereno. Era um único som, ecoava, e circulava num fluxo ritmado entre os troncos das arvores. Agora os olhos já encaravam toda aquela flora, passeavam entre os galhos, procurava o autor daquele som. Segue, com passos brandos, invadindo o verde, buscando aquele sinal de outra vida no local. Em poucos passos, percebe um lago, entre algumas folhas que bloqueavam a vista. Um lago de águas claras, formando um grande espelho, corado por aquele leve tom verdoso, que parecia já lhe exilar da razão. Dominada pelo medo, mas, contraditoriamente, pela tranqüilidade do lugar. E pela sua curiosidade. Até já esquecera de pensar em “Como estou aqui?”. Sentia-se estranhamente bem, naquele ar florestano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomada por ousadia, segue, aparvalhada, em direção ao lago. Queria aguar suas mãos sujas de terra, sentir a temperatura, e, de certa forma, aliviar o calor fervoroso que estava sentindo. Após ultrapassar alguns arbustos, aproxima-se, toca a água com os pés. “Água gelada!”. E antes que, ainda empolgada, se jogasse em meio ao lago, alisara com os dedos os seus cabelos longos e escuros, que refletiam na superfície. Um tanto narcisista, admirava-os, como eram escorridos e longos, tão negros, causando um contraste com sua pele. Quase que seduzida, agarra as pontas do seu vestido branco e, com força, arranca-o de uma só vez. Atira-se com coragem no lago gélido, matando o calor. Todo o alvoroço fez nem mais notar o cantar do pássaro, que havia cessado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, fora inibida. “Um vulto!”. Entre as arvores. Diminui sua agitação. Pouco a pouco, encolhera. Imóvel, envolvida pelos seus próprios braços. E pelo verde. Com um vulto meio a ele. Logo começara a sentir frio, e medo. Vagarosamente, vai se movendo, com olhos fitos no vestido que lançara pouco distante, onde infelizmente suas mãos não podiam alcançar facilmente. E como era o contrário de sua vontade! Após toda a lentidão, ainda estava na borda. E o medo não deixaria que seus braços se desatassem para alcançar o maldito vestido mais facilmente. “O vulto, de novo!”. Vulto azulado (ou seria esverdeado), entre as arvores, em sua frente. Empaca. Olhos arregalados, estupefatos. Era um homem. Nunca havia visto nada parecido. Não era de notável beleza, mas atraía inexplicavelmente. E agora as perguntas eram “De onde ele veio?”, “O que será que faz aqui?”, e uma exclamação “Meu deus, estou nua!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava parado, mas, diferente dela, não parecia espantado. Também notara, felizmente talvez, que ele ainda não havia olhado para as suas partes íntimas. Ainda quieta, contendo-se, pensara qual das perguntas fazer – se fosse, no momento, capaz de falar. A pele pouco cinzenta, às vezes azulada tirou a voz. Mas a expressão era calma e amigável. Para seu espanto, depois de algum tempo imóveis, ele se mexe, em sua direção. Agora apertava, cada vez com mais força, os seus braços medrosos entrelaçados. O homem gris estica os dois braços, levando as mãos ao rosto molhado da jovem pálida, e hesitante. Olhava fixamente para seus olhos, e, fervoroso, arranca-lhe da boca um beijo sufocador. Deixa-a tonta. Pronto, seria impossível que conseguisse perguntar algo. Ele aproxima o rosto novamente, quase encostando os lábios em sua orelha. "Olhe por onde anda...” diz ele, sussurrando. Os olhos dele estavam olhando o chão, e que o seu dedo apontara. Ela solta um grito ensurdecedor, imediatamente. Eram os seus pés, e a sua volta, infestada de sanguessugas. Presas em suas pernas. Tomada de desespero, tenta tira-las. O pássaro volta a cantar. Alto. Contínuo. E cada vez mais alto. Parecia ecoar em sua cabeça, que voltava a dar as pontadas dolorosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surpreendendo, percebe outro som. Um som que não lhe confortava, e muito menos agradável. Muito diferente de algum pássaro cantante. A sirene tocava. Estava atrasada. Espreguiçou, esticando os braços ao máximo. Seguia para o ponto de ônibus, com os cabelos, escorridos e longos, tão negros, que causavam um contraste com sua pele, cobertos numa touca. O calor fervoroso tremia o asfalto, sem qualquer lago que lhe pudesse banhar e confortar. Mas as sanguessugas estavam lá. Em toda parte. A sua volta, a monocromática paisagem de pedra da grande São Paulo, ternos ambulantes, a maioria também com suas vestias pretas e brancas, seguindo apressados para algum lugar. Tudo estava normal, lá estava Alice e seu emprego de operária, com seu salário miserável na fábrica, que lhe dava permissão para pegar ônibus, comer e pagar aluguel do seu quarto. Na volta para casa, flagrara um ônibus em chamas meio a rua. Nada surpreendente. Tudo normal. “Água gelada!”, mas nada de lago. O chuveiro do seu estreito banheiro. Deita na cama, e, feliz, e toma alguns remédios para dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(102, 102, 102);"&gt;Eu tenho uma justificativa.. Não, eu não uso morfina. =P &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(102, 102, 102);"&gt;Comecei... Desisti... Voltei nele... E finalmente, terminei esse texto.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-114899771456485149?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/114899771456485149/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=114899771456485149' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/114899771456485149'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/114899771456485149'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2006/05/pesadelo_30.html' title='Pesadelo'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_EPXjmI-Llns/SpS0pWX00zI/AAAAAAAAAEE/yYRqgMcfiL8/s72-c/3_picasso_dreams_birds_in_a_tree.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-114880359294842305</id><published>2006-05-28T04:04:00.000-04:00</published><updated>2007-06-18T14:30:32.509-04:00</updated><title type='text'>Curta Renuncia</title><content type='html'>&lt;span &gt;E estes meus últimos dias resumem, discretamente,&lt;br /&gt;A maior antítese destes últimos tempos&lt;br /&gt;Tentando desprezar o que me enganava ‘pra vida toda’&lt;br /&gt;Usando palavras complexas para dizer coisas simples&lt;br /&gt;Quando meramente dizia palavras simples para coisas complexas&lt;br /&gt;Respondendo, justificando, esclarecendo e bradando comigo mesma&lt;br /&gt;Sem mudar nada, do lado de fora&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só não queria que subtraíssem de mim as palavras&lt;br /&gt;E o sorriso frouxo, e as expectativas, e o platonismo,&lt;br /&gt;Trocados, sem permissão, pelas nítidas incertezas&lt;br /&gt;Hoje tenho de isenta-las para não correr o risco de ser mais estúpida,&lt;br /&gt;E estas já não me trazem mais poesias,&lt;br /&gt;Estas já não inspiram mais os meus dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pretensioso seria chamar este de poema&lt;br /&gt;Não quero continuar mais um ‘embolo’ frustrado&lt;br /&gt;Com as palavras que me restaram&lt;br /&gt;Aquelas que precisam sofrer&lt;br /&gt;Para quase compor uma quase ode, cinzenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Nem estou tão pessimista mais. Nem hoje. Enquanto não sai nada mais produtivo, fico com este post nesse sábado/domingo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-114880359294842305?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/114880359294842305/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=114880359294842305' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/114880359294842305'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/114880359294842305'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2006/05/curta-renuncia_28.html' title='Curta Renuncia'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-114811055147634539</id><published>2006-05-20T03:09:00.003-04:00</published><updated>2009-02-23T16:12:29.852-04:00</updated><title type='text'>Desventura da rotina</title><content type='html'>&lt;img style="margin: 0px 0px 10px 10px; float: right; width: 187px; height: 145px;" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4540/2194/320/praia.0.jpg" width="257" border="0" height="168" /&gt;Sexta-feira. Dez horas, em ponto. Ana, mais uma garota, e, a sua garota de Ipanema, poucos passos à frente. Mal podia esperar para chegar mais perto até que fosse possível tê-la à sua frente. Vê-la virar-se, e, os olhos e a boca sorrirem, e os braços, debruçarem, afoitos, em seus ombros. E o beijo flutuante e delicado. Depois, ela insistiria que a bíblia é contraditória, no porque dos ideais de Marx já estariam retrógrados, e perguntaria se é feia, deitada sobre o peito de Gustavo, que escorregava a mão pelos seus cabelos. Depois viria uma das conversas sobre as iniqüidades e ironias da vida, em mais uma noite de brisa fresca, sentados meio a areia de Ipanema. Era coisa do Gustavo, discutir sobre a vida, usando a filosofia dos não-filósofos, ou, a filosofia de mesa de boteco. Mas, este, não freqüentava há quase três anos. Há quase três anos conheceu Ana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, substituíra bem as noites de bar com os amigos, uísque, a ausência de mulher (pelo menos ao meio deles), e conversas a fora, pela praia à noite, com as ondas e as risadas de Ana como trilha sonora, e os hormônios a flor da pele. Aquele mistério, aquela vontade de desvendar a outra pessoa. Dispostos a debater quaisquer dilemas, mesmo que quase sempre chegasse a lugar algum. Claro, também não tinham outro propósito. A intenção era estar na praia com Ana, depois de um dia quase inteiro de trabalho, e ouvir seus assuntos. A sensação de sentir como sua voz parecia ecoar sobre seu corpo. Era aquela que caíra do céu, e o tirara da vida carente, as noites banhadas a álcool e vadias a lhe oferecer doenças (aliás, ao invés de Carla, Elaine, poderia estas se chamar Aids, Gonorréia - que era a única lembrança possível nos próximos dias). E não mais tivera as manhãs de enxaqueca. Quase que estipulara em seu inconsciente, então, que “não poderia viver sem ela”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onze e meia, já. Uma quarta-feira. Ana estava lá, sentada em um dos bancos que compunha a calçada da praia, o vestido leve acompanhava o vento, e os olhos, os carros que passavam. Gustavo a viu ao longe. Estava lá, a esperá-lo. Estava lá, ela, e o fantasma da rotina, ao lado. Ela, que tanto o encantara um dia, estava lá, trazendo uma sensação fastidiosa. E, não só poderia como queria viver sem ela, ao menos naquele dia. Em cinco minutos passaria o último ônibus para a casa de Ana, o que sempre pegava - depois de sentar no mesmo banco e esperá-lo (e depois, quando mais inspirados, meio à areia da praia), e, deitar sobre o seu ombro, debater os dilemas, etc. Em seguida, beijavam-se dizendo, “Tchau amor, te vejo amanhã”. E o rapaz seguia andando para casa, que ficava próxima, após o ônibus sumir de vista. Não que fosse apenas aquilo. Faziam outros programas. Iam ao cinema, acampavam, transavam, viajavam. Mas a sua garota de Ipanema já era a mesma de todos os outros dias. A mesma, antes intelectual, agora uma indignada socialista, maçante protestante das Igrejas e, o sempre, “Sim, amor, eu te amo!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um amigo acenara de uma mesa, logo após arregalar os olhos e anunciar aos outros para olharem quem estava ‘voltando ao time’. Era um dos bares que costumava freqüentar, o mais nostálgico para Gustavo. “Moleque safado!”, ouviu uma voz exclamar. Nem precisava olhar a mão levantada, que o apontava, para saber que era Aroldão, o sempre bêbado, o sempre risonho, barbudo e bom de bola. Passara a metade da noite sendo chamado de “falecido”, “ressuscitado”, e, só não duvidando que pudessem ter esquecido seu nome devido aos “Gutão”, e às lembranças saudosas do tempo da pelada. “Ah, o futebol”, pensara. Era sempre, o futebol, o bar, a manhã imprevista do dia seguinte, nas diferentes camas das diversas garotas de Ipanema. Claro, as mulheres nunca integravam a parte maçante da rotina. Claro, também, não poderiam ter sido esquecidas pela ‘mesa dos velhos tempos’. Até porque não era sorte de todo fim de noite. Às vezes, e na maioria delas, quando acordava, encontrava-se deitado (ou, colocado) frente ao bar, apoiando a cabeça em outro bebum amigo. “Ah, tempo bom, sempre tinha uma história diferente”. “Ah, o uísque!”. Depois do namoro e das responsabilidades no trabalho, nunca mais aconteceu os passeios pelas ruas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falando em mulheres, Gustavo agora contestava com si mesmo, em suas frívolas reflexões, observando, discretamente, uma a sua frente: “Porque elas sempre aparecem quando nas piores situações?”. Insinuante, autora de caras e bocas. O encarava desde que chegou. “Se estivesse solteiro, provavelmente pisaria em meu pé e nem voltaria pra se desculpar”. Fingira que não estava a vendo, até que os amigos a percebem. E não havia como não, a morena insinuante era portadora de dois pares de silicones consideráveis e um traseiro invejoso. O rosto, nem tanto. Mas os cabelos esticados brilhavam, (e nenhum dos homens se importaria em saber ser obra de um cabeleireiro muito competente do Rio). E, o mais extraordinário, era, notavelmente, de boa renda. Fato inédito, naquele bar, precisamente. Não pediria dinheiro em troca. Em poucos copos de uísque e palavras de incentivo de Aroldão e cia., Gustavo estava lá, ao pé da orelha da moça, Leila. “Noite bombástica, tudo como antes!”. Não durara muito tempo na conversa, como de costume. E, neste caso, nem era preciso. E, como de costume, acordara com a velha enxaqueca e, quase em uma crise existencial, “Onde estou?”, “Por que estou?”. O quarto que o rodeava, pelo menos era jeitoso. Mas não era conhecido. E também já constatara que não era o dele. Segue até o banheiro, lava o rosto, pensa no ontem. Lembra-se de Leila. Volta ao quarto, agora com olhares investigadores. Nenhum rastro de nada. Mudara sua roupa e, ao sair, encontrara na chave uma pequena placa. “Motel”, enfim uma localização. E mais imprevistos vieram, em sua escapada da rotina: No ponto do ônibus, pego de socos, por um sujeito de braços e peitoral volumoso que descera de um carro escuro e blindado, e saíra avisando, “Não mexe mais com minha mulé, falô, ô pirralho?!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quinta-feira, dez horas em ponto. Estava lá, Gustavo, um olho roxo, um braço deslocado, e um texto argumentativo explicativo, formulado e analisado durante um dia inteiro, decorado no cérebro, ambos seguindo impetuosos, para, novamente ‘um dos bancos que compunha a calçada da praia’. E mais uma vez, Ana. Mais uma vez, a viu ao longe. Estava lá! Ela, o vestido leve que acompanhava o vento, e, um homem, ao lado. Por um momento, preferiu o fantasma. O velho desventurado fantasma. Mas, ganhara um outro, substituto. Aliás, tivera de se acostumar com outro. Ganhara Aids. Perdera Ana, que seguira com o homem, vivendo feliz o fantasma da rotina, com Ana. E Gustavo também seguira com seu fantasma da rotina, e morrera com este. Quando tudo que queria dizer para ela era, “Sim, amor, eu te amo!”. Ao menos naquele dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(102, 102, 102);"&gt;Um outro romance errante. S&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(102, 102, 102);"&gt;e conseguir terminar um outro conto, talvez tenha algo que realmente possa passar perto do jeito 'Stephen King'. E... vamos lá, pelo menos uma vez por semana, verei se consigo atualizar esse meu trágico blogguenho. Desafio decretado a mim mesma.. òó&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-114811055147634539?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/114811055147634539/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=114811055147634539' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/114811055147634539'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/114811055147634539'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2006/05/desventura-da-rotina.html' title='Desventura da rotina'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-114783022919425156</id><published>2006-05-16T21:41:00.000-04:00</published><updated>2007-09-13T19:50:25.075-04:00</updated><title type='text'>Visita de Margarida</title><content type='html'>&lt;span &gt;Assistia pela janela, uma pequena menina sardenta que brincava e corria, com um gato, quase esgoelado, pendurado em seu braço. Lembrava sua filha desaparecida. Principalmente o vestido rosa-goiaba que a garotinha vestia. Quase que ouvia ao longe a voz aguda que dizia, “Papai, eu sou uma princesa”. Sua atenção é interrompida por um barulho que invadira seus ouvidos. “É ela, está batendo na porta”, pensou o homem. Sentiu seus batimentos se alterarem, ficando mais rápidos. Levantou-se da cama, alisou as mãos sobre a camisa várias vezes na tentativa de desamarrotar as dobras de quando estava sentado, a esperar por Margarida. Mãos e voz trêmulas de nervoso, e dissera “Só um segundo, querida” mais parecendo um bezerro. Mas também, encontrava razão. Estaria em sua frente, por mais uma quinta-feira, quase uma deusa grega, (gostava de chamá-la de Afrodite), mulher de uma inteligência notável. “É impressionante como é perfeita”, pensava. Mesmo quando danava a monologar, esta sempre tinha paciência para ouvi-lo, por mais longo que o fosse. Exuberante, usava um vestido de cetim azul, que desenhava seu corpo e combinava com seus olhos. Fazia lembrar Vânia, sua ex-mulher, o vestido. Mulher que há quatro anos fora ao supermercado em uma tarde e nunca mais voltou, coincidentemente no mesmo dia em que sua filha também desapareceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas via uma luz ao fim do túnel. Diferente dela, Afrodite nunca se exaltava em uma discussão, era sempre equilibrada e delicada. Havia preenchido com triunfo a falta da ex-mulher. Além do mais, sabia três línguas diferentes, inclusive alemão, como ele. Mas não era preciso que falasse nada para deixá-lo caído aos seus pés. Bastava encontrar com seus cabelos ruivos e ondulados, os olhos que mais pareciam serem desenhados, com cílios alongados, e a pele levemente corada. Bastava ver as covinhas no seu rosto quando sorria das ironias dele, bastava encontra-la. E, como nenhuma outra mulher que passara em sua vida, não era ciumenta, nem precisava dizer que a adora de cinco em cinco minutos. A personalidade de Margarida era uma contradição de sua aparência meiga e carente. Ficava horas falando de suas viagens ao exterior, de como era a vida de marinheiro, e porque largou a profissão para morar em um chalé, fazer tarrafa e pescar na praia do Pontal. Vânia sempre dormia antes que terminasse os monólogos das suas histórias de pescador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto jogava água em seu rosto, na tentativa de melhorar a aparência e as olheiras, pensava “Meu Deus! Ela está lá, de novo... Acho que gosta mesmo de mim”. Era ‘mais uma quinta-feira’, já esperava ansioso. Após inspirar e expirar calmamente até que ficasse mais tranqüilo, dar a última olhada no espelho, passar a mão molhada no cabelo, seguia para abrir a porta, para receber a sua Margarida. No caminho, uma surpresa. Ela já estava a esperá-lo, diante da mesa enfeitada de flores, taças de vinho tinto e algumas velas. Quase gerou uma taquicardia ao ver a chama das velas, que cabiam em seus olhos. O olhar da mulher encarando os seus olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouve novamente uma batida na porta, cessando um pouco o clima da sua emoção. A porta se abre antes que ele a pudesse alcançar, e se depara com uma moça, que trajava branco. “Aquela moça de branco, de novo”, pensou. “A moça que agora também vêm todas as quintas em meu quarto, acompanhada de um homem forte, aparentemente. Coitada! Não é tão formosa como Margarida”. “Por favor, não me interrompa meu jantar com Margarida, mulher de branco!”, diz, com a voz elevada. O homem forte arregala os olhos, que percorriam discretamente todo o quarto. Depois sorri. “Bela a sua Margarida”, responde docemente a enfermeira, ao esperar que engolisse os comprimidos de Diazepam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não havia ninguém, como sempre. E também não havia janela. Nem espelho. Só o branco o rodeava, fazendo a verdade da sua vida, lívida. De fato, o branco das quatro paredes não era ruim. Dava-lhe a liberdade de desenhar e rabiscar seus “novos mesmos dias”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Bem, se ficou bom, eu não sei (claro...). Mas deu vontade de escrever algo assim, (inspirada nessa frase que li esses dias): "Às vezes você quer se alienar; Estar em um mundo que é perfeito pra você; Tem gente que prefere a fantasia". &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-114783022919425156?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/114783022919425156/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=114783022919425156' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/114783022919425156'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/114783022919425156'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2006/05/visita-de-margarida.html' title='Visita de Margarida'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-114775786103060964</id><published>2006-05-16T01:14:00.000-04:00</published><updated>2007-01-01T19:44:34.240-03:00</updated><title type='text'>Os opostos se chocam..</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;strong&gt;Orgulho de Estudante&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“Joana &amp;amp; Alberto”. Estava escrito em quase todas as folhas do caderno da moça. No dele, só nome dela, Joana, com esferas - que seriam pétalas, em volta do “o”. Porque ela escrevera. Depois de tanto tempo de namoro, estava ocupado demais nas aulas para escrever o nome da namorada na contracapa do caderno, e ainda com ‘enfeites’. Não era porque mulher é quase sempre mais sentimental. Ela viera de uma distância de 540km, morar e estudar na mesma cidade do namorado. O que deu ímpeto para que se interessasse pelos estudos, já que apenas passando para uma faculdade pública poderia mudar de sua pacata cidade, para Belo Horizonte, onde Alberto morava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Alberto... Vinte e sete anos. Passara anos dedicados a cursinhos, não havia aproveitado praticamente nada de sua adolescência. Maior parte das noites de sua vida jovem fora entre quatro paredes, com um livro nas mãos. Sempre sonhara em entrar no curso de medicina, tendo como exemplo o avô. E, de certo modo, o pai, porém este não tanto, devido a certa rejeição por tê-lo flagrado flertando com uma voz um tanto meiga de mulher na extensão do telefone, enquanto sua mãe dormia. Isso há oito anos atrás. Na época, chorou, contou para sua mãe, os pais divorciaram. Brigou com seu pai, saiu de casa. Jamais o perdoaria, ‘um safado, sem caráter’, pensava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anos depois, seu nome finalmente estava lá, em décimo quinto lugar do curso de medicina na melhor faculdade do estado. Foi o intervalo em que a rotina dos seus estudos diminuiu, um pouco, e conheceu Joana na volta a sua cidade natal, quando saiu pela segunda vez após a noticia de aprovação – a primeira foi para comemoração. Num bar ficaram amigos, trocaram telefone, saíram empolgados, uma semana depois, começam a namorar... Mal se lembrava da última mulher com quem havia se relacionado. E Joana era tão acessível, tão sorridente, diferente dele, retraído e tímido maior parte do tempo. Não que não fosse um rapaz atraente. Era. Percebia que atraía olhares de algumas mulheres, mas sempre enquanto esperava um ônibus, na fila do banco, no curso... ‘Mas não, não é lugar nem clima para algo’, pensava. Pegar telefone para combinar algo? Quase como atravessar o Pólo norte sem roupa. Mas o telefone de Joana estava ali, na sua agenda eletrônica. E ela era divertida, bonita. Fez com que ele acreditasse que ‘os opostos se atraem’, e de fato, fora da matéria de física. Por mais que pensasse consigo que “Não é a mulher que imaginei para mim”, sentia amá-la, talvez por ser alguém diferente. E fez ela se apaixonar perdidamente por ele, e pelas poesias que escrevia com o nome dela, no início do romance. E pela cidade que ele morava. Depois, pelos estudos – o que era inédito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joana tinha vinte e dois anos, cabelos muito loiros, quase dourados, e dúvidas sobre o que cursar na universidade. Decidia-se entre Jornalismo, Odontologia ou Educação física. Era freqüentadora assídua dos bares da cidade, das festas, sempre acompanhadas de beijos de homens diferentes. Isso mudava normalmente de semana para semana, ou de festa para festa. Alberto havia inovado os seus pensamentos. E rapidamente, as caras das noites se tornaram ‘Ele’, de semana para semana, já há dois anos. Sem festas. Sem bares.&lt;br /&gt;Em uma tentativa de ficarem mais próximos, rapidamente mostrava-se determinada. Foi cursar Psicologia, estava entre os menos concorridos. Na mesma cidade de Alberto, na mesma faculdade, em Campus diferente. E era certo que se viam todos os dias, à noite. Era certo também que ele sempre saía uma hora e meia da manhã da casa de Joana, seguindo a pé para sua casa, e ligava em seguida para dizer que chegou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menos naquela noite. “Eu não vou agüentar... Porque ele ainda não ligou? Ele sempre liga quando chega em casa.”, dizia, agoniada, ao telefone com uma colega de sala. “Acalme! Você é muito aflita. Disse que não faz nem vinte minutos que saiu”. “Mas a casa dele não fica tão longe. Acho melhor eu...”.&lt;br /&gt;Desliga o telefone. Impulsiva, vai até a casa do rapaz. Tinha a chave. Entrava pela sala enquanto o ouvia, usando uma voz serena, e percebeu que falava ao celular. Parou logo, e ficou a ouvir, em silêncio. Na mesma conversa, “minha linda” e “mas Silvana...”.&lt;br /&gt;Gritou com Alberto, deu socos em seu ombro, chorou, gritou mais, repetiu tudo, e foi embora.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;“Pai... Me desculpa” – Alberto finalmente disse, em uma ligação, na noite seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joana até ficou sem rumo por um tempo. Continuou a faculdade, apaixonou-se por psicologia, e voltou a sair, a beijar vários tipos diferentes, semanalmente. Agora Alberto já não era mais o seu oposto. E já não se sentiam mais atraídos um pelo outro.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#666666;"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Depois de praticamente uma vida, volto a atualizar este discreto e singelo blog. Agora, colocarei disponível pra comments. Uma das 'historinhas' que fiz esses dias.. Não sei se gostei.. mas deu vontade de escrever, como se estivesse com muito tempo sobrando e nada mais produtivo pra fazer.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-114775786103060964?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/114775786103060964/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=114775786103060964' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/114775786103060964'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/114775786103060964'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2006/05/os-opostos-se-chocam.html' title='Os opostos se chocam..'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-5984060678811532850</id><published>2006-05-16T00:31:00.020-04:00</published><updated>2010-08-28T20:41:07.788-04:00</updated><title type='text'>Vilarejo e outras miudezas</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;O relógio verde de lata dormia ao lado na mesa de madeira e de pé torto, que deixava bamba uma das pontas e que o fazia sambar, despertando mais barulhento. Mas era mais enfeite do que despertador: havia a garganta esgoelada do galo no telhado da moenda. Ele quem acordava primeiro. Bradava para todas as janelas dos pouco mais que quarenta casebres dizendo que eram seis horas. Depois descia e se misturava aos outros no chão. Os casebres, rodeavam a rua de terra, que rodeava a praça redonda. A mesa e o relógio eram de  Iasmin, que  era uma morena-índia por causa do sol, assim como era a Anita. E a Anita era de pano, e ficava 'morena-índia' por causa da terra. “Às vezes não se sabe quem é Iasmin e quem é a boneca”, falavam. Porque Iasmin também andava com uma saia retalhada, com maças do rosto untuosas, o cabelo cor de castanha que parecia lã. Sabia-se bem, quando ela despencava correndo de casa, toda dobrável, atravessando a rua até a praça: Anita era a agarrada pelo braço, ralando a cabeça no chão. Era sua rotina, como o feijão com arroz pra cidade. Pelo caminho, sentava pra ouvir José com a viola na calçada. A viola 'morena-índia' do José. E o “José da viola morena-índia”, pois, de José, era um dentre os infinitos. Também passeava com o José da carroça, cumprimentava no caminho o José da venda, as onze, almoçava a moqueca do José,  o da mais laranja. Mas, de todos, ficava mais tempo mesmo com o José que fazia música. Ficava lá, com os olhos  fitos, assistindo no seu couro de cabelos a disputa de fios pretos e brancos-cintilantes. Inventava diálogos entre eles e deixava escapar risadas abafadas. Já a barba espetada, essa tinha toda vitória do branco. Batia palmas, batia as palmas na perna, e, por fim ficava de pé, saltitava e dançava toda mole, de braços e pernas ondeantes, e ele a chamava de "cabritinha".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que, de repente, já não se adequava mais. Noutro dia, ela apareceu no José com a boca com tintura vermelha e esqueceu a boneca. Era o galo que já havia berrado muito pra Iasmin. E já não estava tão guria assim; o seu tronco não queria mais parecer um saco de pano, queria curvas. As pernas tinham se alongado, e as coxas de cabrita tinham mais carne. Tinha saído do costumeiro feijão-com-arroz: deixou de agarrar o braço e arrastar Anita, e arrastou  a porta ruidosa do quarto da sua mãe. Andou devagar no assoalho ecoante até a  penteadeira velha. E de boneca-grande virou mulher-miniatura. Em seguida, não se lançara pra fora de casa correndo com aqueles passos tortos, desengonçados, pirralhos. Tinha agora uns cuidadosos, empenhados em fazê-la contorcer o corpo num jeito que queria ser atraente, “não cabrita”. Tinha um lenço, perfume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;José percebeu a boca rubra e o andar novo. Ela sentou e cruzou uma perna em cima da outra, quando outrora só as largava na calçada. E os olhos diferentes, menos rotundos e observadores e mais falantes. Eles chamavam. E ele se deu conta, como coice, dos anos a mais da menina. Deu-se conta de como eles olhavam... tinha algo de provocante. As mãos não estavam se estalando, não acompanhavam o compasso da música. Faziam caracóis de cabelo com os dedos, e veio nele pensamentos tão enrolados e eriçados quanto. Só não se deu conta que o tempo havia lhe somado também envelhecidos anos: foi tocando a música para que ela ficasse sentada ali a sua frente, mas era ele quem inventava desvarios danados... De repente, foram bruscamente rompidos, com  Iasmin saindo deles em cambalhota, quando a mãe apareceu agarrando seu braço, em realidade. Esfregou a mão na boca pintada, dando sermões, e foi ralando-a no chão.&lt;br /&gt;E arrastada, os membros voltavam a ficar desajeitados. E Iasmin voltava a ser Anita.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color: rgb(153, 153, 153);"&gt;Outro de uma fase roceira... o.O&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-5984060678811532850?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/5984060678811532850/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=5984060678811532850' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/5984060678811532850'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/5984060678811532850'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2008/01/sobre-desatentos.html' title='Vilarejo e outras miudezas'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-4508245461881241733</id><published>2006-04-16T02:08:00.004-04:00</published><updated>2010-06-17T23:36:49.477-04:00</updated><title type='text'>Ana Asco.</title><content type='html'>"- Parece um menino, esse cabelo! Não tá bonito, não". E Ana coçou o genital macho que não tinha.&lt;br /&gt;Bruta voz moça que lhe apontava numa esquina. Rouca... som tão novel, palavra gagá. De mundo pronto, cansado, vivido, cartilha...&lt;br /&gt;Ana não queria ser frase feita, estereótipo, definição, medida, números, esses frios, calculistas! Era mal-criada. 'Lambia a rua que sabia dos micróbios'. Uma torta. E pegava a tesoura de costura pra entortar o cabelo e combinar. Diminuía a saia e respingou que sua traseira de mulher, delicada e colidente, não lhe negava.&lt;br /&gt;Não queria a amargura racional, sofrimento de realidade azeda consentida... Queria a simulação do homem que se faz ator e pega no seio alheio por ofício... Queria tirar a máscara do prazer falso e intento e vesti-la no palco, que despe a atriz que veste a puta, na cara dura, limpa, contradição. Queria o intenso, ser Espanca. E cruzar com Rubem Fonseca, pra ver no que dá.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-4508245461881241733?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/4508245461881241733/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=4508245461881241733' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/4508245461881241733'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/4508245461881241733'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2008/01/ana-asco.html' title='Ana Asco.'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-113855397760993890</id><published>2006-01-10T19:42:00.004-03:00</published><updated>2010-06-17T23:20:52.134-04:00</updated><title type='text'>Novo endereço</title><content type='html'>&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:78%;"  &gt;O próprio nome já diz. E são simples bagatelas para qualquer outra pessoa. Quem mais agüentaria ler as coisas insensatas que eu escrevo e o que é pior, entende-las, além de mim? Está lendo? Obrigada pela sua atenção. Na verdade, queria que algumas pessoas entendessem. Mas isso certamente seria difícil, e não porque não sejam inteligentes. Existe algo que falta para um entendimento, que é obviamente uma razão. Aliás, está ai uma inimiga dos meus pensamentos. Às vezes nem eu mesma me entendo, e me perco.&lt;br /&gt;Por manter então tanta coisa oculta, achei que seria como um vulcão em erupção, com a sua abertura superior fechada. Por isso, a criação deste. Inúmeros textos e também, quem sabe, as desprezíveis poesias escritas em vão, aqui não serão tão vagas assim, carregando uma sensação ilusória de ter algum valor. Mas, não deve mesmo ter. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:78%;"  &gt;&lt;br /&gt;Sou eu um poço de dúvidas, conspirações e ao mesmo tempo certezas. Incertas talvez, mas eu preciso fazer delas, verdadeiras. Ainda não sei quem eu sou, mas se ainda sim sou, sigo caminhos todos os dias, e chegar a algum lugar na qual eu possa me descobrir até que seria uma coisa boa. Já me odiei muito, mas ao mesmo tempo tenho orgulho de mim mesma quando olho para trás, os anos passados, e vejo como eu mudei. Mudei muito, e me sinto feliz por isso. Talvez ainda haja muito que precisa ser mudado. E isso me lembra de não dormir até que o tempo ruim passe (essa mania de dormir quando entra em conflito comigo mesma..), e, bom, apesar de lamentar, continuar. Porque talvez nem precise enfrentar a tempestade, ela pode se desviar por si mesma. Hum! Às vezes encontro com meu lado otimista. Algumas horas, lamento em exagero, morro de raiva ou de tristeza, vontade de mudar tudo, vontade de ser para a vida somente mais um personagem flexível. Não existe essa de voltar ao passado! Isso assusta. Aceitar isso só é possível com novos dias melhores, diferentes, distantes. E nesses dias, esqueço de tudo, iludidamente. E porque esses dias ainda não existem os pensamentos de querer mudar e voltar o passado, porque ainda não foram.&lt;br /&gt;Somos automaticamente cheios de eufemismos para não sermos cruéis com nós mesmos, mas é por isso que ainda resistimos.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-113855397760993890?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/113855397760993890/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=113855397760993890' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/113855397760993890'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/113855397760993890'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2006/01/novo-endereo.html' title='Novo endereço'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21665778.post-113872650496314401</id><published>2006-01-10T13:51:00.001-03:00</published><updated>2009-10-05T21:21:29.978-04:00</updated><title type='text'>Achados e perdidos..</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Em primeira pessoa, de novo.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Não nego que não desejo, e acho que nunca irei querer ver as suas lembranças expiradas da minha mente, assim, contrariando a todos os ditames dos meus pensamentos casualmente coerentes. Aqui, sentada novamente com propósito nenhum, esta errante que efusivamente ao vácuo, fala. Nessa tentativa incessante de tornar-me impetuosa, mesmo utilizando palavras tão repetidas, e, nunca ditas. Ainda não cansada, com aquelas palavras plagiando canções e poesias, porque eu queria as ter escrito para que você as pudesse entender sem cobrar uma razão, e assim pudesse bradar livremente minhas então verdades. Aquelas canções que entram em seus ouvidos e, serenamente, estimulam sua emoção, do mesmo modo daquelas canções que cantam o Rio, e assim levando o ouvinte até Ipanema e Copacabana, ou canções-conto de Chico, transformando qualquer um em herói capaz de enfrentar os batalhões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Insisto ainda com o vácuo, ainda não aceitando que a única voz que agora me corresponde é do clamor, da minha angustia, que responde por que ecoa. Um clamor que aos poucos se torna, lentamente, silencioso, até poder transcender o som do piano que agora ouço. Que parece pedir às notas para ser mais nebuloso, e chegando até o som delicado dos dedos tocando as teclas. É que, assim como este, meu brado, mesmo sem antes ter chegado ao real destino, retorna, e perde sua potência, é a minha coragem. É a consciência da minha razão, quase extinta, que não tem força para ser, porque traz com ela a minha insensatez, e lembra meu caminho em direção ao “ser melhor” ainda não terminado. É o medo de não terminar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tão insensata. Não ainda alucinada. Não quero encontrar-me se assim for a realidade. Porque não deixo de saber o óbvio que, a morte é um verbo, e no tempo “faz de conta”, à noite, em meu quarto. Do mesmo modo em que a palavra amor é tantas vezes vulgarizada aos quatro cantos do mundo. E do mesmo jeito em que alguém se joga do avião, apenas por estar com o pára-quedas. E, do modo quase insuperável, este fato de parecer nunca terminar as palavras encontradas e perdidas que transcrevo, e sem não querer censurar tudo depois.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21665778-113872650496314401?l=vidalivida.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vidalivida.blogspot.com/feeds/113872650496314401/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21665778&amp;postID=113872650496314401' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/113872650496314401'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21665778/posts/default/113872650496314401'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vidalivida.blogspot.com/2006/01/achados-e-perdidos.html' title='Achados e perdidos..'/><author><name>Ni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05679026923161589393</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
